O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    Penso que já estamos suficientemente
    preparados para a resposta a ambas as per-
    guntas. Ela se nos impõe, quando encara-
    mos a génese psíquica das representações
    religiosas. Estas, apresentadas como ensina-
    mentos, não são o fruto de experiencia nem
    o resultado final do raciocinio; são ilusões,
    são o cumprimento dos mais antigos, fortes
    e prementes desejos da humanidade; o se-
    gredo da sua força está na força desses dese-
    jos. Já sabemos que a pavorosa impressão
    do desamparo infantil crêa a necessidade de

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    proteção – proteção por amor – realizada
    pelo pai; o reconhecimento da continuação
    desse desamparo, por toda a vida, originou
    para o homem o apegar-se á existência de
    um pai – mas, desta vez, de um pai mais
    poderoso. Com a bondosa ajuda da provi-
    dencia divina desvanece-se a angústia ante
    os perigos da vida; a instituição de uma or-
    dem moral universal assegura a realização
    do anseio de justiça que tão frequentemente
    fica insatisfeito, na civilização humana; o
    prolongamento da existência terrena por
    uma vida futura traça a moldura temporal
    e espacial em que aqueles desejos devem ser
    cumpridos. As respostas ás perguntas enig-
    máticas da humana curiosidade de saber –
    tais como, sobre a origem do mundo e a re-
    lação entre o corporal e o anímico – são
    desenvolvidas dentro das hipóteses desse sis-
    tema; representam extraordinário alívio para
    a psíque individual a supressão do conflito
    nunca inteiramente vencido, na infancia –

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    o do complexo paterno — e a sua solução
    por um meio aceito por todos.

    Quando digo que isso são ilusões, é
    preciso limitar a significação da palavra.
    Uma ilusão não é o mesmo que um erro;
    não é necessariamente um erro. A opinião
    de Aristóteles, de que os cevandijas nasce-
    ram da imundicie, idéa que o povo ainda
    conserva — era um erro; assim tambem o
    conceito vigente na passada geração médica,
    de que a tabes doralis derivasse de esgota-
    mento sexual. Por outro lado, era uma ilu-
    são de Colombo o ter descoberto um novo
    caminho marítimo para as Indias. A parti-
    cipação da vontade nesse erro é bem fla-
    grante. Como ilusão pode apontar-se a as-
    serção de certos nacionalistas, de que a raça
    indo-germanica seja a única capaz de cultura
    ou a crença, destruida pela psicanálise, de
    que a criança seja um ente sem sexualidade.
    E' caracteristico da ilusão o derivar ela da
    vontade humana, no que se aproxima da

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    idéa delirante, da psiquiatria, embora se dis-
    tinga dessa idéa, além do mais, pela comple-
    xa construção desta. Na idéa delirante con-
    sideramos essencial a contradição com a ver-
    dade; a ilusão pode não ser necessáriamente
    falsa, isto é, irrealizavel ou em contradição
    com a realidade. Uma menina burguesa
    pode ter, por exemplo, a ilusão de que vai
    chegar um príncipe, que a levará para sua
    casa. E’ cousa possível; alguns fatos dessa
    especie têm sucedido. Mas que venha um
    dia um Messias e que seja fundada uma
    Idade de Ouro, já é muito menos verossímil:
    conforme a sua situação pessoal, cada um
    poderá julgar essas crenças como ilusão ou
    como análogas a uma idéa delirante. Exem-
    plos de ilusões que se tenham tornado ver-
    dades não são, ademais, fáceis de encontrar;
    mas a ilusão dos adquimistas, de poder
    transmutar todos os metais em ouro poderia
    ser bem uma delas. O desejo de ter muito
    ouro, tanto ouro quanto possível está hoje

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    muito abafado pelo moderno ponto de vista
    sobre as condições da riqueza; no entanto,
    a química já não julga impossível uma
    transmutação dos metais em ouro. Assim
    chamamos a uma fé uma ilusão, por isso que
    na sua motivação há recalcada a satisfação
    de um desejo, há a abstração das relações
    com a verdade e, tal como na ilusão, a re-
    nuncia á comprovação.

    Voltemo-nos de novo, segundo essa
    orientação, para as teses religiosas; teremos
    de repetir: são ilusões complexas, incompro-
    váveis; ninguém pode ser obrigado a te-las
    como verdade, a crer nelas. Algumas são tão
    inverossímeis, estão em tal contradição com
    tudo o que penosamente temos aprendido na
    realidade do mundo, que — com as devi-
    das restrições da diversidade psicológica —
    pode-se equipara-las ás ideias delirantes. So-
    bre o valor de realidade da maioria delas não
    se pode decidir. Por isso que incomprová-
    veis, tão tambem incontrastáveis. Sabemos

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    muito pouco para criticar-
    lhes os pormeno-
    res com argumentos contrários. Os enigmas
    do mundo só lentamente se desvendam ás
    nossas pesquisas; a ciência, ainda hoje, não
    sabe dar resposta a várias questões. O tra-
    balho científico é, porém, para nós, o único
    caminho que nos pode conduzir ao conhe-
    cimento da realidade. E’ igualmente ilusão
    esperar algo da intuição e da introjecção; ela
    não pode dar-nos mais do que conclusões di-
    ficilmente interpretáveis sobre a nossa pro-
    pria vida psíquica; nunca informações sobre
    as questões cuja solução os ensinamentos re-
    ligiosos tornam tão fáceis. A propria dis-
    posição para deixar preencher a lacuna e con-
    siderar como mais ou menos aceitavel esta
    ou aquela parte do sistema religioso – seria
    criminosa. Quanto a isso, essas questões são
    demasiado significativas – poder-se-ia di-
    zer: demasiado sagradas.

    Neste passo, poderia ser levantada esta
    objecção: Então, se os proprios cépticos

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    mais emperrados admitem que as asserções
    da religião não são refutaveis pelo entendi-
    mento, por que não devo crêr nelas, se têm
    por si tantos elementos, a tradição, o con-
    senso dos homens e toda a consolação do
    seu conteúdo? Sim; por que não? Assim
    como ninguem é coagido a crêr, tambem
    ninguem o é, a não crêr. Mas que ninguem
    seja induzido no engano de que, com tais
    fundamentos, segue o caminho do pensa-
    mento correto. Se cabe algures a palavra
    “escapatória”, este é o logar de emprega-la.
    A ignorancia é a ignorancia; não deriva dela
    qualquer direito de crêr em algo. Nenhum
    homem razoavel agirá tão levianamente a
    respeito de outras cousas nem com tão mise-
    raveis fundamentos se satisfará com o seu
    juizo, com a sua parcialidade; só a respeito
    das cousas mais elevadas e sagradas se per-
    mite ele assim proceder. Em verdade, são
    apenas esforços para mistificar a si mesmo
    ou aos outros, pois que ficamos presos ain-
     

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    da á religião, muito tempo depois de nos
    havermos desligado dela. Quando se trata
    de questões de religião, os homens tornam-
    se culpados de toda a falta possível de sin-
    ceridade e de todas as maldades intelectuais.
    Os filósofos transmudam a significação das
    palavras, até que estas mal conservem o seu
    sentido original. Chamam Deus a qualquer
    abstração confusa que arranjaram e são
    assim, perante o mundo, deístas, crentes em
    Deus e podem gabar-se de ter criado um
    conceito mais elevado, mais puro, de Deus;
    embora o seu Deus seja apenas uma som-
    bra sem essencia, não mais a personalidade
    poderosa dos ensinamentos religiosos. Os
    críticos teimam em considerar “profunda-
    mente religioso” um homem que reconhece
    em si mesmo o sentimento da pequenez hu-
    mana, diante da vastidão do mundo; em
    bora esse sentimento não constitua a essen-
    cia da religiosidade, que está no passo ime-
    diato, na reação que vem em socorro desse

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    sentimento. Quem não vai além, quem se
    decide humildemente pelo fútil papel do ho-
    mem na grandeza do mundo, esse é prefe-
    rentemente irreligioso, no sentido verdadei-
    ro da palavra.

    Não está no plano destas pesquisas en-
    carar o valor de verdade das teses religiosas.
    Basta-nos have-las reconhecido, na sua na-
    tureza psicologica, como ilusões. Mas não
    devemos ocultar que essa descoberta influe
    poderosamente sobre a nossa situação quan-
    to á questão que para alguns parece ser a
    mais importante. Sabemos por acaso em que
    épocas foram criados os conceitos religiosos
    e que homens o fizeram. Se descobrirmos por
    que motivos tal aconteceu, o nosso ponto
    de vista quanto ao problema religioso so-
    frerá notavel deslocamento. Digamo-lo –
    seria decerto muito belo que houvesse um
    deus criador do mundo e providencia bon-
    dosa, que houvesse uma ordem moral uni-
    versal e um além, depois da vida; mas é con-

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    tudo bem estranho que tudo isso seja tal
    qual o pudéramos desejar. E seria ainda mais
    singular que os nossos pobres, ignorantes e
    nada livres avoengos tivessem tido a ven-
    tura da solução de todos esses graves enig-
    mas do mundo.