Sobre a psycho-analyse 1910-001/1926.pt

Freud, Sigmund (1910-001/1926.pt): Sobre a psycho-analyse

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    Sobre a psycho-analyse

    Sigismundo FREUD

    (Traducgäo do original pelo Dr. 1ago Pimentel.

    Minhas senhoras e senhöres! Para mim & uma nova e extranha
    sensagäo, apparecer, como expositer, no Novo Mundo, deante de pes-
    soas avidas de saber. Sei que devo esta honra A ligagäo de meu nome
    a0 thema da psycho-analyse; desta, por isso, tenciono fallar-vas. O
    mals sucein'amente possivel, procurarei dar-vos um resumo. sobre a his-
    torta da origem e do ulterior desenvolvimento deste novo methodo de
    investigagäo e de tratamento,

    Se ha merito em haver trazido & luz a psycho analyse, näo& es-
    se um merito menu. Näo tomei parte em sua origem.

    Era estudante e achava-me occupado com o preparo das minhas
    ullimas provas, quando um outro medico viennense,o dr. Josef Buner,
    utilizou aquelle methodu em uma joven hysterica (1880—1882). Da his-
    toria dessa doente e de seu tratamento & que nos haveremos de occu-
    Par primeiramente; encontral-a-eis. minuciosamente exposta, nos «Stu-
    dieuüber Hysterie» (Estudos sobre a hysteria), mais tarde publicados por
    inim e por Brener.

    Äntes de tudo, por&m, uma observagäo ainda. Nio sem conten-
    tamento, soube que a maioria dos meus ouvintes näo peıtence ä classe
    medica. Näo deveis pensar, com eifeito, que seja necessaria uma edu-
    cagäo medica especial, para acompanhar minhas exposigdes. Um certo
    tr«cho, andaremos com os medicos, mas, em breve, nos separaremos e@
    o dr. Breuer trilharä um caminho todo seu.

    A paciente do dr. Brener, moga de 21 annos, possuidora de
    elevados dotes intellectuaes, desenvolveu, no curso-de sua doenga, que
    se esiendia por um espago de 2 annos, uma serie de perturbagöes so-
    maticas e psychicas, que bem mereceram ser tomadas a serio. Tinha
    uma paralysia espastica de ambas as extremidades direitas, com in-
    sensibilidade das mesmas c ds vezes, a mesma affeicgäo nos membros
    do lado esquerdo; aprgsentava perturbacdes dos movimentos dos globos
    oculares, varias alteragdes da visäo, diffiiculdade em levantar a cabega,
    tosse nervosa Intensa, repugnancia de alimentos €, uma vez, por va-
    tias semanas, impossibilidade de beber qualquer liquido, apezar de uma
    söde cruciante; apresentava ainda diminuigdo da faculdade de expri-
    mir-se, que chegou at& a perda da capacidade de fallar e entender a
    lingua materna, e, finalmente, esiados de ausencia, confusäo, de-
    lirios, alteragdes de toda a sua personalidade. para 0s quaes teremos,
    mais tarde, de voltar nossa attenäo.

    Se, ndo sendo medicos, ouvirdes fallar de um tal quadro morbido,
    tendereis a admittir que se trata de uma grave molestia, provavelmente
    do cerebro, que pouca esperanga nfferece de restabeleeimento e que,
    em breve, dever& eonduzir o doente ä morte. Deixae, entrelanto, que

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    vos instria 0 medico: para uma serie de casos com phenomenos täo
    graves, justifica-se uma concepgäo toda outra e muito mais favoravel.
    e um ta] quadro apparece em uma joven, cujos orgäos vitaes inter-
    nos (coragao, rins) se mostram normaes ao exame abjectivo, se essa
    joven soffreu violentos abalos emotivos e se 05 symptomas insulados se
    apartam, em certos caracteres mais finos, daquillo que & esperado, räo
    1&m entäo 05 medicos um tal caso por grave. Sustentam que se nüo
    trata de uma lesäo organica do cerebro, mas d’aquelle estado eni-
    gmatico, chamado «hysteria» desde 0; tempos da medicina grega, que
    pode imitar todo um sem numero de graves quadros patlologicos; nio
    julgam entäo a vida em nada eompromeitida e, mesmo, tem como pro-
    vavel. um completo restabelecimento da saude. A distinegäo entre a
    hysteria e uma grave lesio organica, nem Sempre & muito facil. Näo
    precisamos, porem, saber como se faz uma differenciag&o diagnostica
    desta especie; hasta assegurar-vos que justamente 0 caso da paciente
    de Brener era um daquelles em que nenhum medico experimentado
    deixaria de fazer o diagnosticn de hysteria. Podemos ainda, aqui, ac-
    cerescentar que a doenga da paciente surgiu quande ella cuidava do pae,
    ternamente amado, emuma grave enferınidade que o levou &4 morte; e
    que ella, em consequencia disso, teve que se afastar d’aquelles desvelos.
    At& aqui, hovve vantagem em andarmos cam os medicos; agora,

    nos devemos separar. Näo vades esperar que a perspectiva de um
    doente sob assistencia medica haja essencialmente melhorado, porque
    Ihe foi foi feito o diagnostico de hysteria, em vez do de uma grave
    alfeccäo cerebral organica, Na maioria dos casos, aarte medica & im-
    potente deante dasgraves molestias cerebraes, mas tambem, deante da
    hysteria, nada pode o medico fazer. Tem de abandonal-a 4 natnreza
    bondosa, deixando ao arbitrio desta a realizagäo de seu esperangoso
    prognostico. (Sei que esta afirmagäo hoje ndo & exacta, mas, na ex-
    posigZo, reporto-me, com os meus ouvintes, aos {empos anteriores a
    1880. Se, desde entäo, o problema tomou outro aspecto, nisso justa-
    mente tiveram grande parte os trabalhos enja historia estou esbogando),
    Com o facto de ser reconhecida a hysteria, ponca cousa ficou,
    assim, alterada para 0 doente; muito menos parao medico. Este, dean-
    fe do hysterico, colloca-se em posigäo differente d’aquella em que se
    osta deante do doente organico. Näo aifereceri ao primeiro 0 mesmo
    nteresse que ao segundo, peis o soffrimento daquelle & muito menos
    serio que © deste e, todavia, parece reinvindicar o direito de egualdade.
    Mas, para com elle, age ainda 0 medico de outro modo Havendo, por
    seus estudes, aprendido tanta cousa que + omittida ao leigo, pude for-
    mar das causas das doengas e das alteragöes morbidas—por exemplo,
    no cerebro de um doente de apoplexia ou de neoformagAo—ideas que,
    ats certo gräo, devem ser exat ‚ pois Ihe permittem a intelligencia das
    parlicularidades do quadro. Deante das minucias dos phenomenos hys-
    tericos, poröm, toda sua sciencia, o abandona, assim como sua erudicäo
    em pathologiae em anatomo-physiologia. Näb pode cömprehender a
    hysteria; fica deante della, como üm proprio leigo, E näo € isso razoa-
    vel a quem aliäs faz täo grande cabedal do seu saber. Os hystericos
    perderam assim sua sympathia e o medico 08 considera como os or
    thodoxos consideram aos herejes, considera-0s como pessoas que ul“

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    trapassam as leis de sua sciencia; imputa-Ihes toda a maldade possivel,
    culpa-os de exagero e de simulagäo intencional e castiga-os, retirando-
    Ihes seu interesse.

    O dr. Brener, para com asua cliente, näo foi passivel desta cen-
    sura; embora, a principio, nüo contasse prestar-Ihe gualquer auxilio,
    dispensou-Ihe sympathia e interesse. Evidentemente, ella o esclareceu
    com 05 elevados dotes de intelligencia e de caracter, dos quaes Brener
    dä testemunho na historia, que compilou, da doente. Sua observagäo
    benevolente, por outro lado, encontrou 0 caminho, que tornou possivel
    o auxilio medico.

    Notou-se que a doente, em Seus estados de ausencia e de altera-
    40 psychica, com confusäo, costumava murmurar, comsigo mesma, al-
    gumas palavras, que davam a impressäo de se originarem de um con-
    Juneto que Ihe occupava o pensamento. Inteirad» d’aquellas palavras,
    mergulhava-a entäoo medico em uma especie de hypnose e Ih’as repe-
    tia, induzindo-a a estabelecer um nexo entre as mesmas. Com 0 seu
    consenlimento, reproduziv, assim, a doente, as creagöes psychicas que a
    dominavam durante as ausencias e se deixam trahir por äquellas pala-
    vras insuladamente exteriorisadas. Eram phantasias profundamente tris-
    tes, muitas vezes lindamente poetices—«sonhos diurnos» diriamos nös—
    que, habitualmente, tinham. como ponto de parlida, a situagäo de uma
    joven junto ao Jeito do pae enfermo. E, depois de referir um certo nu-
    mero de taes phantasias, ficava como que livre e reconduzida 4 vida
    psychica normal. O bem estar, que se mantinha por varias horas, cedia
    entäo logar, no dia immediato, a uma nova ausencia, que era reinovida
    do mesmo modo, mediante a expressäo das phantasias recem-formadas.
    Nüo havia como fugir ä impressäo de que & perturbagäo psychica, que
    se manifestava nas ausencias, era uma consequencia da incitagdo parti-
    aa d’aqueilas formagdes phantasistas, altamente affectivas. propria
    paciente, que, nesta phase da doenga, apenas entendia e fallava de um
    modo singular © inglez, dava a este novo tratamento o nome de «tal-
    king cure» ou designava-o, gracejando, «chimney sweeping».

    Verificou-se logo, como por acaso, que, com tal limpeza da
    alma, podia-sealcangar mais do que a passageira remogäo das pertur-
    bagdes psychicas, sempre reinceidentes Symptomas somnaticos tambem
    desappareciam quando, em estado de hypnose, sob exteriorizagdo effer-
    tiva, era recordado por que motivo e por meio de que ligagfo aquelles
    symptomas haviam surgido pela primeira vez. «lira no veräo, tempo de
    calor imtenso, € & paciente soffria de uma sede ardente: pois sem mötivo
    apparenle, sibitamente sehe tornara impossivel o beber, Tomava o ap-
    petecido copo d’agua na mıäo, mas, ‚oB0 due Ihe tocava os labios, re-
    pellia-o, como uma hydrophoba. 1% assim ficava, por alguns segundos
    em uma evidente ausencta. Para abandonar a sede, vivia apenas de
    Tructos, melöes, etc. Depois que esse estado durara, mais ou menos,
    seis semanas, uma vez, em estado de hypuose, raciocinou sobre uma
    ingleza, sua dama de companhia, de quem näo gostava, e contou en-
    130, com todas as mostras de repugnaneia. como, entrando no quarto
    d’aqnella, ali virao seu cäosinho, um nojento animal, bebendo em wem
    <copo. Por delicadeza, nada havia dito, Depois de haver exprimido,ainda
    eriergicamente, reprimido enfado pediu para beber; bebeu sem impedi.-

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    menio uma grande quantidade de agua e desperton da hypnose com o
    copo nos labios. Com isso desappareceu-Ihe para sempre a Ppertnrbagäo.
    (Siudien über Hysterie, pag. 26).

    Permitti que vosdetenha um momento sobre esta experiencia. Nin-
    guem aında havia removido um symptoma hysterico por tal meio, nem
    {10 prorundamente penetraraa intelligencla de sua causa. Seria uma
    descoberta cheia deconsequencias, se a espectativa sc pudesse confir-
    mar, de que ainda outros, talvez a maioria dos symplomas que apre-
    sentava a doente, de tal modo se haviam originado e de tal modo eram
    removiveis. Para se convencer disso, nAo se atemorizou Brener deante
    do trabalhoe, methodicamente, pesquizou entäo a pathogenese dos ou-
    tros e mais graves symptomas. Asstın era realmente; quasi todos se ha-
    viam originado como restos, como residuos, se quizerdes, de impres-
    söes alfeclivas, que, por isso, chamamos mais tarde, =«traumas PSy-
    chicos» e sua singularidade se explicava pela relagdo com ss scenas
    dramaticas que os haviam causado, Eram, na accepeäo technica do
    termo, «determinados= pelas scenas Cujas memvrias residuaes elles re-
    presentavam e näo havla mais mister de descrevel-0s como producgdes
    solimtarias ou enigmaticas de neurose.

    Um desvio apenas do que se esperava seja mencionado. Nem
    sempre o symptoma erao resultado de uma impressfo unica, mas, na
    maioria das vezes, para este efleito, reuniram-se numerosos, frequente-
    mente muito semelhantes e repeliaos traumas. Toda aquella cadeia de
    recurdagöes pathogenicas devia entäo ser reproduzida em serie chronolo-
    gica e, em verdade, inverlidamente; os ultimos em primeiro logar e os
    primeiros em ultimo lagar e era inteiramente impossivel chegar ao
    primeiro trauma, frequentemente 0 mais activo, saltando pelo que se Ihe
    seguin.

    (Continda no proximo numero)