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A REVISTA 23
Sobre a psycho-analyse
Sigismundo FREUD
(Traducgäo do original pelo Dr. 1ago Pimentel.
Minhas senhoras e senhöres! Para mim & uma nova e extranha
sensagäo, apparecer, como expositer, no Novo Mundo, deante de pes-
soas avidas de saber. Sei que devo esta honra A ligagäo de meu nome
a0 thema da psycho-analyse; desta, por isso, tenciono fallar-vas. O
mals sucein'amente possivel, procurarei dar-vos um resumo. sobre a his-
torta da origem e do ulterior desenvolvimento deste novo methodo de
investigagäo e de tratamento,Se ha merito em haver trazido & luz a psycho analyse, näo& es-
se um merito menu. Näo tomei parte em sua origem.Era estudante e achava-me occupado com o preparo das minhas
ullimas provas, quando um outro medico viennense,o dr. Josef Buner,
utilizou aquelle methodu em uma joven hysterica (1880—1882). Da his-
toria dessa doente e de seu tratamento & que nos haveremos de occu-
Par primeiramente; encontral-a-eis. minuciosamente exposta, nos «Stu-
dieuüber Hysterie» (Estudos sobre a hysteria), mais tarde publicados por
inim e por Brener.Äntes de tudo, por&m, uma observagäo ainda. Nio sem conten-
tamento, soube que a maioria dos meus ouvintes näo peıtence ä classe
medica. Näo deveis pensar, com eifeito, que seja necessaria uma edu-
cagäo medica especial, para acompanhar minhas exposigdes. Um certo
tr«cho, andaremos com os medicos, mas, em breve, nos separaremos e@
o dr. Breuer trilharä um caminho todo seu.A paciente do dr. Brener, moga de 21 annos, possuidora de
elevados dotes intellectuaes, desenvolveu, no curso-de sua doenga, que
se esiendia por um espago de 2 annos, uma serie de perturbagöes so-
maticas e psychicas, que bem mereceram ser tomadas a serio. Tinha
uma paralysia espastica de ambas as extremidades direitas, com in-
sensibilidade das mesmas c ds vezes, a mesma affeicgäo nos membros
do lado esquerdo; aprgsentava perturbacdes dos movimentos dos globos
oculares, varias alteragdes da visäo, diffiiculdade em levantar a cabega,
tosse nervosa Intensa, repugnancia de alimentos €, uma vez, por va-
tias semanas, impossibilidade de beber qualquer liquido, apezar de uma
söde cruciante; apresentava ainda diminuigdo da faculdade de expri-
mir-se, que chegou at& a perda da capacidade de fallar e entender a
lingua materna, e, finalmente, esiados de ausencia, confusäo, de-
lirios, alteragdes de toda a sua personalidade. para 0s quaes teremos,
mais tarde, de voltar nossa attenäo.Se, ndo sendo medicos, ouvirdes fallar de um tal quadro morbido,
tendereis a admittir que se trata de uma grave molestia, provavelmente
do cerebro, que pouca esperanga nfferece de restabeleeimento e que,
em breve, dever& eonduzir o doente ä morte. Deixae, entrelanto, queS.
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vos instria 0 medico: para uma serie de casos com phenomenos täo
graves, justifica-se uma concepgäo toda outra e muito mais favoravel.
e um ta] quadro apparece em uma joven, cujos orgäos vitaes inter-
nos (coragao, rins) se mostram normaes ao exame abjectivo, se essa
joven soffreu violentos abalos emotivos e se 05 symptomas insulados se
apartam, em certos caracteres mais finos, daquillo que & esperado, räo
1&m entäo 05 medicos um tal caso por grave. Sustentam que se nüo
trata de uma lesäo organica do cerebro, mas d’aquelle estado eni-
gmatico, chamado «hysteria» desde 0; tempos da medicina grega, que
pode imitar todo um sem numero de graves quadros patlologicos; nio
julgam entäo a vida em nada eompromeitida e, mesmo, tem como pro-
vavel. um completo restabelecimento da saude. A distinegäo entre a
hysteria e uma grave lesio organica, nem Sempre & muito facil. Näo
precisamos, porem, saber como se faz uma differenciag&o diagnostica
desta especie; hasta assegurar-vos que justamente 0 caso da paciente
de Brener era um daquelles em que nenhum medico experimentado
deixaria de fazer o diagnosticn de hysteria. Podemos ainda, aqui, ac-
cerescentar que a doenga da paciente surgiu quande ella cuidava do pae,
ternamente amado, emuma grave enferınidade que o levou &4 morte; e
que ella, em consequencia disso, teve que se afastar d’aquelles desvelos.
At& aqui, hovve vantagem em andarmos cam os medicos; agora,nos devemos separar. Näo vades esperar que a perspectiva de um
doente sob assistencia medica haja essencialmente melhorado, porque
Ihe foi foi feito o diagnostico de hysteria, em vez do de uma grave
alfeccäo cerebral organica, Na maioria dos casos, aarte medica & im-
potente deante dasgraves molestias cerebraes, mas tambem, deante da
hysteria, nada pode o medico fazer. Tem de abandonal-a 4 natnreza
bondosa, deixando ao arbitrio desta a realizagäo de seu esperangoso
prognostico. (Sei que esta afirmagäo hoje ndo & exacta, mas, na ex-
posigZo, reporto-me, com os meus ouvintes, aos {empos anteriores a
1880. Se, desde entäo, o problema tomou outro aspecto, nisso justa-
mente tiveram grande parte os trabalhos enja historia estou esbogando),
Com o facto de ser reconhecida a hysteria, ponca cousa ficou,
assim, alterada para 0 doente; muito menos parao medico. Este, dean-
fe do hysterico, colloca-se em posigäo differente d’aquella em que se
osta deante do doente organico. Näo aifereceri ao primeiro 0 mesmo
nteresse que ao segundo, peis o soffrimento daquelle & muito menos
serio que © deste e, todavia, parece reinvindicar o direito de egualdade.
Mas, para com elle, age ainda 0 medico de outro modo Havendo, por
seus estudes, aprendido tanta cousa que + omittida ao leigo, pude for-
mar das causas das doengas e das alteragöes morbidas—por exemplo,
no cerebro de um doente de apoplexia ou de neoformagAo—ideas que,
ats certo gräo, devem ser exat ‚ pois Ihe permittem a intelligencia das
parlicularidades do quadro. Deante das minucias dos phenomenos hys-
tericos, poröm, toda sua sciencia, o abandona, assim como sua erudicäo
em pathologiae em anatomo-physiologia. Näb pode cömprehender a
hysteria; fica deante della, como üm proprio leigo, E näo € isso razoa-
vel a quem aliäs faz täo grande cabedal do seu saber. Os hystericos
perderam assim sua sympathia e o medico 08 considera como os or
thodoxos consideram aos herejes, considera-0s como pessoas que ul“S.
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trapassam as leis de sua sciencia; imputa-Ihes toda a maldade possivel,
culpa-os de exagero e de simulagäo intencional e castiga-os, retirando-
Ihes seu interesse.O dr. Brener, para com asua cliente, näo foi passivel desta cen-
sura; embora, a principio, nüo contasse prestar-Ihe gualquer auxilio,
dispensou-Ihe sympathia e interesse. Evidentemente, ella o esclareceu
com 05 elevados dotes de intelligencia e de caracter, dos quaes Brener
dä testemunho na historia, que compilou, da doente. Sua observagäo
benevolente, por outro lado, encontrou 0 caminho, que tornou possivel
o auxilio medico.Notou-se que a doente, em Seus estados de ausencia e de altera-
40 psychica, com confusäo, costumava murmurar, comsigo mesma, al-
gumas palavras, que davam a impressäo de se originarem de um con-
Juneto que Ihe occupava o pensamento. Inteirad» d’aquellas palavras,
mergulhava-a entäoo medico em uma especie de hypnose e Ih’as repe-
tia, induzindo-a a estabelecer um nexo entre as mesmas. Com 0 seu
consenlimento, reproduziv, assim, a doente, as creagöes psychicas que a
dominavam durante as ausencias e se deixam trahir por äquellas pala-
vras insuladamente exteriorisadas. Eram phantasias profundamente tris-
tes, muitas vezes lindamente poetices—«sonhos diurnos» diriamos nös—
que, habitualmente, tinham. como ponto de parlida, a situagäo de uma
joven junto ao Jeito do pae enfermo. E, depois de referir um certo nu-
mero de taes phantasias, ficava como que livre e reconduzida 4 vida
psychica normal. O bem estar, que se mantinha por varias horas, cedia
entäo logar, no dia immediato, a uma nova ausencia, que era reinovida
do mesmo modo, mediante a expressäo das phantasias recem-formadas.
Nüo havia como fugir ä impressäo de que & perturbagäo psychica, que
se manifestava nas ausencias, era uma consequencia da incitagdo parti-
aa d’aqueilas formagdes phantasistas, altamente affectivas. propria
paciente, que, nesta phase da doenga, apenas entendia e fallava de um
modo singular © inglez, dava a este novo tratamento o nome de «tal-
king cure» ou designava-o, gracejando, «chimney sweeping».Verificou-se logo, como por acaso, que, com tal limpeza da
alma, podia-sealcangar mais do que a passageira remogäo das pertur-
bagdes psychicas, sempre reinceidentes Symptomas somnaticos tambem
desappareciam quando, em estado de hypnose, sob exteriorizagdo effer-
tiva, era recordado por que motivo e por meio de que ligagfo aquelles
symptomas haviam surgido pela primeira vez. «lira no veräo, tempo de
calor imtenso, € & paciente soffria de uma sede ardente: pois sem mötivo
apparenle, sibitamente sehe tornara impossivel o beber, Tomava o ap-
petecido copo d’agua na mıäo, mas, ‚oB0 due Ihe tocava os labios, re-
pellia-o, como uma hydrophoba. 1% assim ficava, por alguns segundos
em uma evidente ausencta. Para abandonar a sede, vivia apenas de
Tructos, melöes, etc. Depois que esse estado durara, mais ou menos,
seis semanas, uma vez, em estado de hypuose, raciocinou sobre uma
ingleza, sua dama de companhia, de quem näo gostava, e contou en-
130, com todas as mostras de repugnaneia. como, entrando no quarto
d’aqnella, ali virao seu cäosinho, um nojento animal, bebendo em wem
<copo. Por delicadeza, nada havia dito, Depois de haver exprimido,ainda
eriergicamente, reprimido enfado pediu para beber; bebeu sem impedi.-S.
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menio uma grande quantidade de agua e desperton da hypnose com o
copo nos labios. Com isso desappareceu-Ihe para sempre a Ppertnrbagäo.
(Siudien über Hysterie, pag. 26).Permitti que vosdetenha um momento sobre esta experiencia. Nin-
guem aında havia removido um symptoma hysterico por tal meio, nem
{10 prorundamente penetraraa intelligencla de sua causa. Seria uma
descoberta cheia deconsequencias, se a espectativa sc pudesse confir-
mar, de que ainda outros, talvez a maioria dos symplomas que apre-
sentava a doente, de tal modo se haviam originado e de tal modo eram
removiveis. Para se convencer disso, nAo se atemorizou Brener deante
do trabalhoe, methodicamente, pesquizou entäo a pathogenese dos ou-
tros e mais graves symptomas. Asstın era realmente; quasi todos se ha-
viam originado como restos, como residuos, se quizerdes, de impres-
söes alfeclivas, que, por isso, chamamos mais tarde, =«traumas PSy-
chicos» e sua singularidade se explicava pela relagdo com ss scenas
dramaticas que os haviam causado, Eram, na accepeäo technica do
termo, «determinados= pelas scenas Cujas memvrias residuaes elles re-
presentavam e näo havla mais mister de descrevel-0s como producgdes
solimtarias ou enigmaticas de neurose.Um desvio apenas do que se esperava seja mencionado. Nem
sempre o symptoma erao resultado de uma impressfo unica, mas, na
maioria das vezes, para este efleito, reuniram-se numerosos, frequente-
mente muito semelhantes e repeliaos traumas. Toda aquella cadeia de
recurdagöes pathogenicas devia entäo ser reproduzida em serie chronolo-
gica e, em verdade, inverlidamente; os ultimos em primeiro logar e os
primeiros em ultimo lagar e era inteiramente impossivel chegar ao
primeiro trauma, frequentemente 0 mais activo, saltando pelo que se Ihe
seguin.(Continda no proximo numero)
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