Totem e Tabú1913-001/1934.pt
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    I I

    O TABÚ E A AMBIVALENCIA
    DOS SENTIMENTOS

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    [object Object]

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    1.

    Tabú é uma palavra polynesica, cuja traducção
    nos é difficil por isso que não possuimos mais a noção
    correspondente. Essa noção fôra ainda familiar aos
    romanos, cujo sacer equivalia ao tabú dos polynesios.
    tambem o agos dos gregos e o kodauch dos hebreus de-
    viam ter o mesmo sentido que o tabú dos polynesios e
    outras expressões analogas usadas por diversos povos
    da America, Africa (Madagascar) e da Asia septentrio-
    nal e central.

    Para nós representa o tabú duas significações op-
    postas: a do sagrado ou consagrado e a do lugubre,
    perigoso, prohibido ou impuro. O contrario de tabú
    entre os polynesios é noa, quer dizer ordinario,
    accessivel a todos. O conceito de tabú contem, pois,
    uma idéa de reserva; e, de facto, manifesta-se elle, es-
    sencialmente em prohibições e restricções. A nossa
    locução “horror sagrado” apresentaria muitas vezes
    um sentido coincidente com o de tabú.

    As restricções de tabú são algo de muito distincto
    das prohibições puramente religiosas ou moraes. Não
    emanam de nenhum mandamento divino mas prohibem

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    por si proprias; distinguem-se das prohibições moraes
    por falta de classificação num systema, que considere
    a necessidade de abstinencias em geral e tambem funda-
    mente essa necessidade. As prohibições tabús carecem de
    todo fundamento; são de origem desconhecida; incom-
    prehensiveis para nós, parecem logicas para aquelles
    que vivem sob o seu dominio.

    Wundt (na sua “Psychologia dos Povos”, vo-
    lume II. “Mytho e religião”, pag. 308) diz que o tabú
    é anterior aos deuses e precedeu a qualquer religião.

    Tendo necessidade de uma descripção imparcial do
    tabú para estudal-o do ponto de vista psychanalytico, ci-
    taremos aqui um trecho do anthropologo Northco-
    te W. Thomas, no artigo Taboo, da En-
    cyclopedia Britannica” (Edição XI, 1911, onde se en-
    contram os mais copiosos subsidios bibliographicos).

    “Rigorosamente a palavra abrange sómente a) o
    caracter sagrado (ou impuro) de pessoas ou objectos;
    b) a natureza da restricção que desse caracter emana;
    e c) a santidade (ou impureza) resultante da violação
    da prohibição. O contrario de tabú, em polynesio, é
    “noa” que significa “ordinario”, “commum…””

    De um ponto de vista mais amplo, podem distin-
    guir-se varias classes do tabú:

    1. Um tabú natural ou directo, producto
    de uma força mysteriosa (Mana) inherente a uma
    pessoa ou cousa; 2) um tabú transmittido
    ou indirecto, emanado daquella força, mas que póde
    ser ou a) adquirido ou b) transferido de um sacerdote,

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    TOTEM E TABÚ

    um chefe ou qualquer outra pessoa; finalmente. 3) Um
    Tabú intermediario entre os dois antecedentes, quando
    entram em consideração ambos os factores, p. ex.: na
    apropriação de uma mulher por um homem. O nome
    tabú applica-se a uma porção de outras restricções ri-
    tuaes, mas não se deve applical-o a tudo quanto melhor se
    poderia chamar interdicção religiosa”.

    “Os fins do tabú são muito diversos. Assim os
    tabús directos têm por fim: a) a protecção de persona-
    gens importantes como chefes, sacerdotes, objectos e
    outros para preserval-os de possiveis damnos; b) a pro-
    tecção dos fracos — mulheres, crianças e pessoas com-
    muns em geral — contra os perigos resultantes do con-
    tacto com cadaveres, da absorpção de determinados ali-
    mentos etc. d) a precaução contra as perturbações que
    podem sobrevir em determinados actos importantes da
    vida como o nascimento, a iniciação dos adolescentes,
    o matrimonio, as funcções sexuaes; e) a protecção dos
    seres humanos contra o poder ou contra a colera dos
    deuses e demonios (1); f) a protecção dos nascituros
    e das creanças pequenas contra os multiplos perigos que
    as ameaçam por força da dependencia sympathica em
    que estão para com os paes, quando estes p. ex.: reali-
    zam determinados actos ou absorvem certos alimentos
    cujo gozo poderia transferir ás creanças certas quali-
    dades. Outro dos fins do tabú é proteger a proprie-


    (1) Este fim especial do tabú não póde ser considerado como
    primitivo e apresenta, portanto, para nós menos interesse.

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    dade de um individuo, a sua ferramenta, o seu campo
    etc., contra os ladrões.”

    “A punição da violação de um tabú foi originaria-
    mente entregue a uma força interior que havia de actuar
    de modo automatico. O tabú violado vinga-se a si
    mesmo. Mais tarde, quando começa a constituir-se a
    representação da existencia de deuses e demonios, com
    os quaes o tabú entra em relações, espera-se do poder
    divino uma punição automatica. Em outros casos e,
    provavelmente, em consequencia de um desenvolvimen-
    to ulterior dessa noção, toma a sociedade a seu cargo
    o castigo do atrevido, cuja falta attrahiu o perigo sobre
    os seus parceiros. De modo que os primeiros systemas
    penaes da humanidade se ligam ao tabú.”

    “Aquelle que violou um tabú, torna-se por isso
    mesmo tambem tabú. Determinados perigos, resultan-
    tes da violação, podem ser conjurados mediante actos
    de penitencia e cerimonias de purificação.”

    “Suppõe-se o tabú emanado de uma especial força
    magica, inherente a certas pessoas ou espiritos e susce-
    ptivel de ser transferida por estes a diversos objectos
    inanimados. Individuos ou coisas tabús podem ser
    comparados a objectos que receberam uma carga ele-
    ctrica; constituem a séde de uma terrivel força que se
    communica pelo contacto e cuja descarga de effeitos
    desastrosos occorre quando o organismo que a provoca
    não é sufficientemente forte para supportal-a. Por-
    tanto, as consequencias da violação de um tabú não
    dependem tão sómente da intensidade da força magica,

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    TOTEM E TABÚ

    inherente ao objecto tabú, mas tambem da força do
    m a n a que no impio se lhe oppõe. Assim, por
    exemplo, os reis e os sacerdotes são possuidores de uma
    força extraordinaria e aquelles subditos que entrassem
    em contacto immediato com elles, pagariam o seu atre-
    vimento com a vida; mas um ministro ou outra pessoa
    dotada de um mana superior ao commum, póde commu-
    nicar-se com elles sem perigo e taes pessoas interme-
    diarias podem permittir aos seus subordinados uma ap-
    proximação, sem perigo. A importancia de um tabú
    transmittido depende tambem do mana da pessoa de
    quem procede; um tabú transmittido por um rei ou sa-
    cerdote é mais efficaz do que o transmittido por um
    individuo vulgar.”

    A transmissibilidade de um tabú é bem do mesmo
    caracter que permittiu tentar annullal-o por meio de
    cerimonias de expiação.

    “Existem tabús permanentes e temporarios. Os
    sacerdotes e chefes são dos primeiros, da mesma manei-
    ra que os mortos e tudo que lhe pertencia. Os tabús
    passageiros limitam-se a certas circumstancias, assim
    á menstruação e ao parto, ao estado do guerreiro antes e
    depois da expedição, ás actividades da pessoa, da caça
    e semelhante. Existem tambem tabús geraes que podem
    ser lançados, com o interdicto eclesiastico, sobre uma
    extensa região e mantidos durante muitos annos.”

    Creio adivinhar a impressão dos meus leitores,
    suppondo que depois de ter lido essas explicações, não

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    SIG. FREUD

    sabem mais do que antes, da natureza do tabú nem do
    logar que conceder-lhe entre as suas idéas. Isso deve
    ser a consequencia da informação insufficiente, na
    qual prescindi de tudo quanto se refere ás relações do
    tabú com a superstição, a idéa de alma e a religião.
    Mas por outro lado temo que uma exposição mais deta-
    lhada daquillo que sobre o tabú sabemos, venha com-
    plicar ainda mais a questão que, devo assegural-o, já
    por si é fartamente obscura. Trata-se, pois, de uma
    série de restricções a que se submettem os povos primi-
    tivos; isso e aquillo são prohibidos, nem elles mesmos
    sabem por que, nem se preoccupam siquer com investi-
    gal-o e, considerando tudo perfeitamente natural, sub-
    mettem-se ás restricções e estão convencidos de que a
    violação lhes attrahiria automaticamente os peiores
    castigos. Existem relatorios fidedignos de casos em
    que a infracção involuntaria de alguma dessas interdi-
    cções fôra seguida, de facto, de uma punição automa-
    tica. Assim o innocente contraventor que, p. ex.: co-
    meu, sem sabel-o, carne de um animal tabú, cahe em
    depressão profunda, espera a morte e, sériamente, dei-
    xa-se morrer. As prohibições recahem, especialmente,
    sobre a ingestão de alimentos, a liberdade de locomoção
    e communicação; em alguns casos nos parecem muito
    racionaes, pois tendem a impor abstenções e privações;
    em outros casos recahem sobre casos completamente
    incomprehensiveis, referem-se a insignificancias sem
    valor e parecem corresponder a mero cerimonial. To-
    das essas prohibições parece repousarem sobre uma theo-
     

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    Totem e Tabú

    ria, segundo a qual as restricções seriam necessarias
    porque certos individuos ou objectos possuissem uma
    força perigosa, transmissivel pelo contacto, tal como
    um contagio. A quantidade dessa qualidade perigosa
    toma-se tambem em consideração. Pessoas ou cousas
    possuem a dita força em gráo maior do que outras e o
    perigo é directamente proporcional á differença das
    cargas. O mais singular de tudo isso é que aquelles
    que chegaram a violar uma dessas prohibições adqui-
    rem o caracter do prohibido, como si tivessem recebido
    a totalidade da carga perigosa. Essa força é inheren-
    te a todos os que apresentam alguma particularidade
    como reis, sacerdotes, recemnascidos, e tambem a todos
    os estados excepcionaes, como a menstruação, a puber-
    dade, o parto, a todas as coisas horriveis, como a doen-
    ça e a morte e a tudo quanto se lhes relacione pela facul-
    dade de contagio e diffusão.

    São qualificados “tabú” todos os individuos, loga-
    res, objectos e estados passageiros que sejam portado-
    res daquella mysteriosa propriedade. Chama-se tabú
    tambem a prohibição, baseada nessa propriedade e,
    por fim, conforme o sentido literal da palavra, tudo
    aquillo que é sagrado ou superior ao nivel vulgar e, ao
    mesmo tempo, perigoso, impuro ou sinistro.

    Nessa palavra e no sistema que designa, expres-
    sa-se um conjuncto de factos psychicos, cujo sentido nos
    parece, de facto, escapar. Antes de tudo, teriamos que
    suppor que sómente depois de um exame penetrante da
    crença nos espiritos e demonios, caracteristica dessas

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    civilizaçõesz primitivas, nos seria possivel approximar-
    nos á sua comprehensão.

    Mas porque principalmente dedicar o nosso inte-
    resse a esse enygma do tabú? A meu ver não sómente
    porque todo o problema psychologico merece que se ten-
    te a sua solução, mas tambem por outras razões. Sus-
    peitamos que o tabú dos selvagens da Polynesia não
    nos é tão afastado como a principio parece e que a es-
    sencia das prohibições de costumes e moral, a que por
    nossa parte obedecemos, poderia ter certa affinidade
    com esse tabú primitivo e que o esclarecimento deste
    poderia projectar alguma luz sobre a origem obscura
    do nosso proprio “imperativo categorico”.

    Assim, pois, nos interessará profundamente a con-
    cepção que do tabú formou um investigador como W.
    Wundt e tanto mais, quando nos promette “explo-
    rar a idéa de tabú até as ultimas raizes” (Na “Psycho-
    logia de Povos”, vol. II, “Religião e Mytho”, II, pa-
    gina 300 e segg.).

    A noção do tabú, diz Wundt “comprehende todos
    os usos nos quaes se manifestam o temor inspirado por
    determinados objectos relacionados com as representa-
    ções do culto e pelos actos a elles referentes”. (Obra
    citada, pag. 237).

    E em outro logar: “Se entendermos sob a denomi-
    nação tabú, conforme o sentido geral da palavra, toda
    prohibição imposta pelo uso ou costume ou, expressa-
    mente, formulada em leis, de tocar um objecto, aprovei-
    tar-se delle ou servir-se de certas palavras prohibidas…”

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    TOTEM E TABÚ

    teriamos que reconhecer que não existe um unico povo
    nem uma phase da civilização que tenham escapa-
    do aos prejuizos do tabú.

    Depois Wundt explica porque lhe parece mais ade-
    quado estudar a natureza do tabú nas condições primi-
    tivas dos selvagens australianos do que nos povos poly-
    nesios de cultura mais alta. Entre os primeiros, divide
    elle as prohibições tabú em tres classes, segundo se re-
    ferem a animaes, homens ou objectos inanimados. O
    tabú dos animaes, que consiste essencialmente na pro-
    hibição de matal-os e consumir-lhes a carne, constitue
    o nucleo do totemismo. (Veja a esse respeito
    a primeira e ultima partes deste livro). O tabú da se-
    gunda especie que tem por objecto o homem, apresen-
    ta um caracter essencialmente diferente. Está de an-
    temão limitado a condições que dependem de condições
    excepcionaes da vida do individuo tabú. Assim se dá
    com os adolescentes durante a iniciação e as mulheres
    durante a menstruação e immediatamente depois do
    parto; os recemnascidos, os doentes e, antes de tudo,
    os mortos. Os objectos de que um homem se serve
    constantemente, como os seus vestidos, ferramentas e
    armas, são tambem tabú para os demais. O novo nome
    que o adolescente recebe no momento da sua iniciação
    na puberdade, constitue na Australia sua propriedade
    individual; é, portanto, tabú e deve ser mantido em se-
    gredo. Os tabús da terceira categoria, ou seja aquel-
    les que se referem ás arvores, plantas, casas ou locali-
    dades, são mais variaveis e parecem submettidos a uma

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    SIG. FRE UD'

    unica regra: a de ser tabü tudo aquillo que, por qual-
    quer razäo, inspire vergonha ou pavor.

    As modificagöes que o tabtı representa nos povos-
    de cultura algo adeantada, taes como os da Polynesia e
    do archipelago malaio, foram reconhecidas pelo mes-
    mo Wundt como superficiaes. A maior differencia-
    <äo social nestes povos se manifesta no facto de que os.
    seus reis, chefes e sacerdotes exercem um tabü parti-
    cularmente efficaz e ficam elles proprios sujeitos ao-
    constrangimento mais forte do tabü.

    Mas as verdadeiras fontes do tabti devem ser pro-
    curadas mais profundamente do que nos interesses das
    classes privilegiadas; “derivam da mesma origem dos
    impulsos mais primtivos e, ao mesmo tempo, mais du-
    radouros do homem, quer dizer, do temor da
    accäo de forgas demoniacas „(obra
    eitada, pag. 307)”. “Näo sendo, originariamente, mais
    que uma objectivagäo do medo perante o poder demo“
    niaco occulto no objecto tabü, prohibe o tabüı irritar ©:
    dito poder e ordena que se evite a vinganga do’ demo-
    nio sempre que se tenha dado uma violagäo, voluntaria
    ou involuntaria’”.

    O tabtı vae, aos poucos, constituindo-se em poder
    independente, desligado do demonismo. Chega a con-
    verter-se em prohibicäo imposta pelo costume e tradi-

    <äo e, finalmente, pela lei. “Mas o mandamento taci-
    to, dissimulado atraz das prohibigdes tabü, extrema-
    . mente variaveis com as cireumstancias de logar e tem-

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    Totem e Tabú

    po, é originariamente um unico: protege-te contra a
    colera dos demonios”.

    Desta maneira Wundt nos ensina que o tabú é
    uma expressão e uma consequencia da crença dos povos
    primitivos nos poderes demoniacos. Mais tarde o tabú
    desligou-se dessas raizes para construir um poder, sim-
    plesmente porque já o era e em virtude de uma especie
    de inercia psychica; formou assim a raiz de nossas pro-
    prias prescripções moraes e das nossas leis. Por me-
    nos que se possa objectar á primeira dessas affirma-
    ções, creio interpretar a impressão de muitos dos meus
    leitores, classificando a explicação de Wundt como uma
    desillusão. Elle não chegou de certo a descer até ás
    fontes do conceito do tabú e a mostrar-lhe as ultimas
    raizes. Nem o medo nem os demonios pódem ser consi-
    derados, em psychologia, como causa primitiva que des-
    afiasse qualquer outra mais remota. Outra coisa seria
    se demonios tivessem existencia real; mas sabemos que
    são, da mesma maneira como os deuses, creações das
    forças psychicas humanas; surgiram de algo e de algo
    foram creados.

    Sobre a dupla significação do tabú expressa Wundt
    idéas muito significativas, mas não muito claras. A
    seu juizo, a idéa primitiva do tabú não admittia ainda
    a separação dos conceitos sagrado e impu-
    ro. E’ a razão pela qual carecem aquelles conceitos
    da significação antinomica que em breve adquiriram.
    O animal, o homem, a localidade sobre os quaes recahe
    o tabú, são demoniacos, mas não sagrados e, portanto,.

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    SIG. FREUD

    tampouco impuros, no sentido ulterior desta palavra.
    Preeisamente a essa significagäo indiferente e inter-
    mediaria do demoniaco, quer dizer, daquillo que näo
    deve tocar-se, € que melhor se adapta a expressäo tabtı,
    pois faz resaltar um caracter que permanece commum
    ‚ao sagrado e ao impuro, atraves de todos os tempos:
    o temor ao sen contacto. Mas essa ambiguidade per
    sistente de um caracter importante € indicio da exis-
    tencia de uma coincidencia primitiva de ambos os con-
    h: ‚ceitos que sö por circumstancias ulteriores foi substi-

    tuida por uma differenciacäo em consequencia da qual
    ‚se estabeleceu a antithese que apresentam entre si.

    A crenga, inherente ao tabü primitivo, em um po-
    der demoniaco occulto em determinados objectos e que
    pune e vinga o contacto ou uso illicito dos mesmos
    com encantamento do culpado, näo passa, de facto, de
    ‘um temor objectivo, Este ainda näo passou pelo des-
    dobramento que logo experimenta em phases mais
    avangadas: veneracgäo e horror.

    Mas como se produz esse desdobramento? Se-
    = ‚gundo Wundt, por meio da passagem das prescripgöes

    ° tabü, da crenga dos demonios para a dos deuses. A
    -opposicäo de sagrado e impuro coincide com a succes-
    säo de duas phases mythologicas, das quaes a primeira
    näo desapparece por completo ao ser dominada pela se-
    gunda, mas que continua subsistindo ao seu lado, sob
    a förma de um valor inferiorizado e que se torna, a0S
    poucos, desprezivel. Na mythologia & lei geral que
    uma phase anterior por isso mesmo que dominada €

    - 8

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    protegida por uma ulterior, se mantenha ao lado desta
    em fórma inferior, de maneira que os seus objectos de
    veneração se transformam em objectos de horror.
    (Obra citada, pag. 313).

    As restantes considerações de Wundt se referem
    ás relações das representações do tabú com a purifica-
    ção e com o sacrifício.

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    51

    2.

    Quem conhecer a psychanalyse, isto é a in-
    vestigação da parte inconsciente da nossa vida psychi-
    ca individual e abordar o problema dos tabús individuaes
    dirá, após breve reflexão que taes phenomenos não lhes
    são desconhecidos. Conhecerá pessoas que crearam
    para si e por si mesmas prohibições, tabús individuaes
    e que as observam com o mesmo rigor que o selvagem as
    de sua tribu ou sociedade. Se não estivesse habituado
    a designar taes individuos com o nome de neuro-
    ticos coactos acharia muito adequado o nome
    de doença do tabú, para caracterizar-lhes
    o estado. A investigação psychanalytica dessa neuro-
    se coacta proporcionou-lhes, porém, tão rico acervo de
    conhecimentos sobre a etiologia clinica e sobre a assen-
    cia do mecanismo psychico, que elle não poderão fur-
    tar-se a applical-os ao esclarecimento dos phenomenos
    correlativos da psychologia dos povos.

    Ao formular essa tentativa temos que fazer
    uma reserva. A analogia entre o tabú e a neurose coa-
     

  • S.

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    cta póde muito bem ser puramente exterior, referindo-
    se apenas á fórma apparente de ambas e não se estende
    mais além, quanto á essencia. Apraz á natureza, de
    facto, servir-se das mesmas fórmas e séries biologicas
    das mais distinctas, p. ex.: nas formações coralinas
    como nas plantas, até em determinados crystaes ou na
    formação de certos precipitados chimicos. Seria, pois,
    pouco prudente e demais leviano deduzir dessas coinci-
    dencias, dependentes de uma analogia de condições me-
    canicas, uma afinidade interna. Teremos pois de con-
    servar presente esta reserva, sem porém nos vermos
    obrigados a renunciar á comparação intentada.

    A primeira e mais evidente analogia que com o
    tabú apresentam as prohibições obsidentes (nos neuro-
    ticos) é a falta de todo e qualquer motivo e o enygma
    das suas origens. Surgiram repentinamente, uma vez
    e desde então o sujeito se vê obrigado a observal-as sob
    a coacção de uma angustia irreprimivel. Uma amea-
    ça exterior de castigo neste caso é superflua, pois o su-
    jeito possue uma convicção interior (uma consciencia)
    de que a violação lhe traria um mal insupportavel. O
    mais que os neuroticos coactos nos pódem transmittir
    é um presentimento indeterminado de que a violação
    traria grave prejuizo para certas pessoas das que
    estão em sua volta. Qual poderia ser esse prejuizo, não
    se chega a saber e, ademais, essas effectivas informações
    nos chegam menos a proposito das prohibições do que
    nos actos de expiação ou defesa de que trataremos
    adeante.

  • S.

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    Totem e Tabú

    A prohibição principal e nuclear da neurose é,
    como no tabú, a do contacto, de onde a denominação
    “delire de toucher”, pavor do contacto. A prohibição
    não recahe sómente sobre o contacto physico, mas es-
    tende-se á significação translata da palavra: pôr-se em
    contacto com alguma coisa. Tudo quanto possa levar
    o pensamento do sujeito para o prohibido e despertar a
    idéa de contacto, é tão prohibido como o contacto ma-
    terial directo; essa mesma extensão encontramos tam-
    bem no tabú.

    Uma parte dessas prohibições é facilmente com-
    prehensivel do ponto de vista do doente; mas a outra,
    ao contrario, nos parece incomprehensivel, estupida e
    absurda. A essas normas chamamos “cerimonial”,
    e vimos que identifica differenciação se nos revela no
    tabú.

    As prohibições obsidentes do coacto são suscepti-
    veis de grandes deslocamentos e aproveitam-se de todo
    o genero de connexões para estender-se de um ob-
    jecto ao outro e tornam esse objecto, conforme expres-
    sivamente dizia uma das minhas doentes “impos-
    sivel”. A impossibilidade, desta maneira, acaba
    muitas vezes de sequestrar o mundo inteiro. Os neu-
    roticos coactos comportam-se como se as pessoas e coi-
    sas “impossiveis” fossem portadoras de um contagio
    perigoso, prompto a transmittir-se a tudo em sua volta
    pelo simples contacto. Estes mesmos caracteres de
    de contagiosidade e transmissibilidade accentuamo-los
    desde o principio, quando tratámos das interdicções do

  • S.

    54

    tabú. Sabemos tambem que aquelle que violou um
    tabú, tocando alguma coisa que é tabú, se torna, por sua
    vez tambem tabú e ninguem póde mais entrar em con-
    tacto com elle.

    Exporei dois exemplos de transferencia (ou me-
    lhor, deslocamento), da prohibição; uma da vida dos
    Maori, o outro de uma observação clinica de uma
    das minhas doentes de neurose coacta.

    “Um chefe Maori não intentará jámais re-
    animar o fogo com o seu proprio sopro, pois o halito
    sagrado communicaria a sua força ao fogo, este á pa-
    nella collocada sobre o lume; a panella ao alimento que
    nelle se está cozendo; o alimento á pessoa que o comerá;
    e assim morrerá a pessoa que comeu alimentos prepa-
    rados na panella que estava ao fogo, no lume reanima-
    do com o sopro sagrado e perigoso do chefe” (Frazer,
    the golden bough, II, Taboo and the perils of the soul,
    1911, p. 136).

    A minha doente exige que um objecto usual que o
    seu marido acaba de comprar, seja afastado da casa,
    pois em caso contrario tornaria o aposento, em que mo-
    ra, impossivel. Ella ouviu dizer que esse objecto fôra
    comprado numa loja, situada, digamos, numa rua cha-
    mada “dos Veados”. Ora bem, uma das suas amigas,
    que reside numa cidade distante e que ella conheceu
    em outros tempos, pelo nome de solteira, é casada com
    uma pessoa que tem o nome de Veado (Entre os povos
    germanicos “Hirsch”; um sobrenome muitissimo usa-
    do. Observação do traductor). Esta amiga é hoje,

  • S.

    55

    Totem e Tabú

    para ella, “impossivel”, tabú, e aquelle objecto, com-
    prado em Vienna é tabú, da mesma maneira que a ami-
    ga, com a qual a doente não quer pôr-se em contacto.

    Da mesma maneira que as prohibições do tabú,
    as da neurose coacta causam na vida do individuo enor-
    mes privações e restricções; mas algumas dessas inter-
    dicções pódem ser neutralizadas, graças á realisação de
    determinados actos que devem ser executados, pois, que
    tambem, têm, por sua vez, caracter coagente – mano-
    bras coagentes ou compulsivas – e que são, incontesta-
    velmente, actos de arrependimento, expiação, defesa e
    purificação. A mais corrente dessas manobras compul-
    visas é a ablução (impulsão de lavar-se). Uma parte das
    prohibições do tabú tambem póde ser assim compensa-
    da; é que a violação do tabú póde ser annullada por um
    “cerimonial” semelhante e tambem neste caso é a ablu-
    ção com agua o meio preferido.

    Resumamos, pois, os pontos nos quaes se manifes-
    ta mais claramente a coincidencia dos symptomas da
    neurose coacta com as prohibições do tabú: 1) A fal-
    ta de motivação das prescripções; 2) a sua imposição
    por uma necessidade interna; 3) a capacidade de des-
    locamento e o perigo de contagio pelo prohibido; 4) o
    cumprimento de actos cerimoniaes e prescripções, ema-
    nado das interdicções.

    A psychanalyse tornou conhecidos a evolução cli-
    nica e o mecanismo psychologico dos casos de neurose
    coacta. Quanto á primeira, exporemos um caso typi-
    co de “pavor do contacto” (angustia de contacto): na

  • S.

    S I G . F R E U D

     mais precoce infancia do individuo manifestou-se um
    intenso prazer de contacto, cujo obje-
    cto se tornou muito mais especializado do que se podia
    suppor. A esse prazer não tardou em oppor-se, d e
    fóra, uma prohibição de realizar exactamente
    aquelles actos de contacto. (Tanto o prazer como a
    prohibição se referiam ao contacto dos proprios mem-
    bros genitaes). A prohibição fóra acceita, pois podia
    apoiar-se em importantes forças interiores (na relação
    com as pessoas amadas pela criança, das quaes emanava
    a prohibição.); graças a estas demonstrou-se mais vigo-
    rosa do que o impulso que aspirava manifestar-se no
    contacto. Mas por causa da constituição psychica pri-
    mitiva do menor, a prohibição não conseguiu supprimir
    o impulso. O resultado da prohibição foi apenas re-
    calcar o impulso — o prazer do contacto — e banil-o´
    para o inconsciente. Prohibição e impulso, continua-
    ram ambos a existir; o impulso, porque sómente fôra
    recalcado, mas não supprimido e a prohibição, porque
    com a sua cessação o impulso teria chegado á conscien-
    cia e imposto a realização. Deste modo creou-se uma
    situação sem solução, uma fixação psychica, e todo o
    desenvolvimento ulterior da doença deriva deste du-
    radouro conflicto entre a prohibição e o impulso.

     O caracter principal da constellação psychologica
    assim fixada reside naquillo que poderiamos chamar a
    attitude ambivalente, (segundo a acertada
    expressão de Bleuler) do individuo em face do objecto,
    ou melhor dito, em face do acto a este referente. Ex-

    — 56 —

  • S.

    57

    TOTEM E TABÚ

    perimenta o doente constantemente realizar o acto —
    o de tocar — mas retem-no sempre o horror que lhe
    inspira. Essa opposição das duas correntes não é fa-
    cilmente comprehensivel, pois — por assim dizer — a
    localização das mesmas na vida psychica é de maneira
    tal que nunca se defrontam as duas correntes. A pro-
    hibição torna-se claramente consciente, o prazer per-
    sistente do contacto é inconsciente, o individuo o des-
    conhece em absoluto. Se não existisse essa circum-
    stancia psychologica, não poderia a ambivalencia man-
    ter-se durante tanto tempo nem produzir as manifesta-
    ções a que acabamos de referir-nos.

    Na historia clinica do caso, assignalamos como fa-
    ctor decisivo a prohibição imposta ao individuo, duran-
    te a sua infancia mais precoce; ulteriormente com o
    progresso da edade cabe esse papel ao mechanismo do
    recalcamento. Em consequencia desse recalcamnto,
    que está ligado a um processo de esquecimento — amne-
    sia — permanece ignorado o motivo da prohibição que
    se tornou consciente e, todas as tentativas de decom-
    pol-o intellectualmente, vêm a fracassar, pois lhes falta
    um ponto de apoio em que basear-se. A prohibição
    deve a sua energia — o seu caracter compulsivo — pre-
    cisamente á sua relação com a parte contraria incon-
    sciente, ao desejo occulo e insatisfeito, quer dizer a
    uma necessidade interior que se furta ao exame con-
    sciente. A possibilidade de transferencia e a faculda-
    de de expansão da prohibição reflectem um processo
    por que passa o desejo inconsciente e cujo desenvolvi-

  • S.

    58

    mento é favorecido pelas condições psychologicas do
    inconsciente. A vontade impulsiva desloca-se con-
    stantemente para escapar á interdicção que sobre ella
    pesa e intenta encontrar substitutos para o prohibido;
    objectos e actos substitutivos. Por isso a prohibição
    varia e recahe, successivamente, sobre todos os novos
    alvos escolhidos pelo desejo prohibido. A cada novo
    ataque da libido recalcada, responde a prohibição com
    outro reforço. A inhibição reciproca das duas forças
    em luta crêa a necessidade de uma derivação, de uma di-
    minuição da tensão existente, necessidade essa na qual
    devemos encontrar o motivo dos actos compulsivos. Na
    neurose revelam-se estes actos como manobras de ac-
    cordo, constituindo por uma parte testemunhos de ar-
    rependimento, esforços para a expiação etc., e por outra,
    actos substitutivos com os quaes o impulso se liberta da
    prohibição. E’ regra da neurose que taes acções com-
    pulsivas venham ficando cada vez mais ao serviço do
    impulso, approximando-se, assim, paulatinamente, do
    acto primitivo prohibido.

    Tentemos agora analysar o tabú como se fosse da
    mesma natureza que as prohibições dos nossos doentes.
    Sabemos, de antemão, claramente que muitas das pro-
    hibições do tabú, de que teremos de occupar-nos, são
    de natureza secundaria, deslocada e deformada e que
    devemos ficar satisfeitos se conseguirmos projectar al-
    guma luz sobre as mais primitivas e significativas; ain-
    da mais, que as differenças entre a situação do selvagem
    e a do neurotico, devem ser sufficientemente profundas

  • S.

    59

    TOTEM E TABÚ

    para excluir a possibilidade de uma completa coinciden-
    cia e para impedir o transporte de uma sobre a outra
    em quadros que coincidam em todos os pontos.

    E’ preciso ainda dizer que não vale a pena inter-
    rogar os selvagens sobre o motivo das suas prohibi-
    ções, ou sobre a genese do tabú. Segundo nossa hypo-
    these, se lhes é impossível dar-nos qualquer informação
    a esse respeito, é que o motivo é para elles “inconscien-
    te”. Mas pelo que sabemos das prohibições dos coa-
    ctos, podemos reconstruir a historia do tabú da seguin-
    te maneira: os tabús seriam prohibições antiquissimas
    impostas de fóra a uma geração de homens primitivos
    quer dizer, aos quaes já foram inculcadas por uma gera-
    ção anterior. Essas prohibições recahiram sobre acti-
    vidades a cuja realização tendia intensamente o indi-
    viduo. As prohibições se mantiveram de geração em
    geração, talvez unicamente por tradição transmittida
    pela autoridade paterna e social. Mas tambem pode-
    mos suppor que se “organizaram” numa geração pos-
    terior, como uma parte da propriedade psychica her-
    dada. Se existem ou não taes “idéas innatas”, se taes
    idéas determinaram a fixação do tabú por si mesmas
    ou com o auxilio da educação, quem poderá resolver
    isso para o caso de que justamente tratamos? Mas da
    persistencia do tabú podemos deduzir que a primitiva
    tendencia a realizar os actos prohibidos ainda perdu-
    ra entre os povos do tabú. Assim pois, estes povos
    adoptaram para as suas interdicções tabús uma atti-
    tude ambivalente; no seu inconsciente nada


  • S.

    60

    mais desejariam do que a violação, mas ao mesmo tempo,
    sentem medo della; têm-lhe medo precisamente porque
    poderiam realizal-a; e o medo é mais forte do que o
    prazer. O prazer é, porém, inconsciente, em cada in-
    dividuo, tal como no neurotico.

    As mais antigas e importantes interdicções do tabú,
    são as duas leis fundamentaes do,totemismo, não
    matar o animal totem e evitar as relações sexuaes com
    os individuos do sexo opposto, pertencentes ao mesmo
    totem.

    Taes deveriam ser, portanto, os dois prazeres mais
    antigos e intensos dos homens. Isso nos parece in-
    comprehensivel e, portanto, não podemos provar a nossa
    hypothese com exemplos deste genero, emquanto o sen-
    tido e a origem do systema totemico continuarem para
    nós totalmente desconhecidos. Mas quem conhece os
    resultados das investigações psychanalyticas no indi-
    viduo, encontrará na propria expressão desses dois ta-
    bús e na sua coincidencia, uma relação com aquillo que
    os psychanalystas consideram como o centro dos dese-
    jos da vida infantil e dahi, como o nucleo da neurose.

    A restante variedade dos phenomenos do tabú que
    provocou os ensaios de classificação antes citados, fica
    substituida para nós, por uma unidade: a base do tabú
    é um acto prohibido para cuja realização existe no incon-
    sciente uma forte tendencia.

    Sabemos, sem comprehendel-o, que todo aquelle
    que realiza o acto prohibido, viola o tabú e se torna,
    por sua vez, tabú. Mas como podemos conciliar esse

  • S.

    61

    TOTEM E TABÚ

    facto com aquelles outros que nos mostram que o tabú
    não recae sómente sobre as pessoas que realisaram o
    prohibido, mas tambem sobre outras que se encontram
    em condições especiaes, sobre essas condições e sobre
    os objectos inanimados? Qual póde ser essa qualida-
    de perigosa que sempre permanece a mesma, em cir-
    cumstancias tão diversas? Sómente uma: a capaci-
    dade de atiçar a ambivalencia do homem e induzil-o
    á tentação de infringir a prohibição.

    O homem que infringiu um tabú, torna-se tam-
    bem tabú, porque possue a perigosa faculdade de in-
    citar outros a seguir o seu exemplo. Provoca inveja;
    porque lhe será permittido o que é prohibido aos ou-
    tros. Elle é, pois, realmente, contagioso por-
    quanto o dito exemplo impelle á imitação e, por isso,
    deve ser elle evitado, por sua vez.

    Mas tambem, sem ter infringido um tabú, o ho-
    mem póde tornar-se temporaria ou permanentemente
    tabú, por encontrar-se numa situação susceptivel de
    provocar os desejos prohibidos dos demais e fazer nas-
    cer nelles o conflicto da ambivalencia. A maior parte
    dos estados e condições excepcionaes pertencem a essa
    categoria e possuem essa perigosa força. O rei ou
    chefe provoca a inveja por causa das prerogativas;
    talvez todos desejassem ser reis. O morto, o recém-
    nascido, a mulher’em seus estados de menstruação ou
    parto, são susceptiveis pela condição de desamparo, de
    excitar, no individuo apenas chegado á edade adulta,
    o desejo dos prazeres esperados. Por tal motivo são

  • S.

    62

    tabús taes pessoas e taes condições, pois não convem
    condescender com as tentações.

    Comprehendemos agora porque as forças mana
    de pessoas diversas pódem compensar-se e em parte
    annullar-se, reciprocamente. O tabú de um rei é forte
    demais para um subdito, porque a differença social
    que os separa é immensa. Mas um ministro póde as-
    sumir, entre elles, o papel de mediador inoffensivo.
    Traduzido isso da lingua do tabú á da psychologia nor-
    mal, significaria: o subdito que tem medo da immensa
    tentação que lhe proporciona o contacto com o rei,
    póde supportar, até certa medida, o de seus funcciona-
    rios, que não são tão susceptiveis da sua inveja, visto
    que elle mesmo poderá, qualquer dia alcançar-lhes a po-
    sição. E a inveja que o ministro poderia nutrir, por
    sua parte, com respeito ao rei, fica diminuida pela
    consciencia do seu proprio poder pessoal. Deste mo-
    do as pequenas differenças da força que impelle á in-
    veja, são menos de temer do que as grandes.

    Vemos assim, claramente, porque a transgressão
    de certas interdicções do tabú significa um perigo so-
    cial e constitue um crime que deve ser castigado ou
    expiado por todos os membros do grupo sem o que vi-
    rão a soffrer todos as suas consequencias. Este pe-
    rigo, de facto, persiste se substituimos os desejos in-
    conscientes por impulsos conscientes. Consiste elle na
    possibilidade de uma imitação que teria por consequen-
    cia a dissolução do grupo. Deixando os outros impu-

  • S.

    63

    ne a violação, confessariam sem querer o desejo de fa-
    zer o mesmo que o culpado fez.

    Não nos devemos admirar de que, na prohibição
    tabú, o contacto desempenhe o mesmo papel que no délire
    de toucher, embora o sentido occulto daquella prohibi-
    ção não possa ser, de modo algum, tão especifica como
    na neurose. O contacto é o começo de toda a apro-
    priação, toda a tentativa de pôr ao seu serviço uma pes-
    soa ou cousa.

    Já explicamos o poder contagioso inherente ao
    tabú pela faculdade que possue de induzir em tentação
    e impellir á imitação. Isso porém, não parece harmo-
    nizar-se com a circumstancia de que o poder contagioso
    do tabú se manifeste, sobretudo, em sua transmissão a
    objectos inanimados que, por isso mesmo, se tornam
    portadores do tabú.

    Essa faculdade de transferencia do tabú se repro-
    duz na neurose, pela tendencia comprovada do impulso
    inconsciente a deslocar-se continuadamente sobre novos
    objectos, utilisando as vias de associação de idéas.
    Attenderemos assim a que á perigosa força magica do
    “mana” correspondem duas distinctas faculdades mais
    reaes: a de recordar ao homem os seus desejos prohi-
    bidos e a outra, apparentemente mais importante, de
    impellil-o a satisfazer o desejo, violando a prohibição.
    Mas essas duas actividades se fundem de novo numa
    só, desde que admittirmos que a vida psychica primiti-
    va se constituiu de maneira tal que o despertar da lem-
    brança do acto prohibido determina o da tendencia a.

  • S.

    64

    levar a cabo o dito acto. Sendo assim, coincidirão de
    novo recordação e tentação. Temos que reconhecer
    da mesma maneira que, quando o exemplo de um trans-
    gressor tenha induzido outrem a commetter a mesma
    falta, é que a desobediencia da prohibição se propagou
    como um mal contagioso, da mesma fórma que o tabú
    se transmitte de uma pessoa a um objecto e desse ob-
    jecto a outro.

    Desde que a violação de um tabú possa ser reparada
    por uma expiação ou penitencia, o que significa uma
    renuncia a um bem ou a uma liberdade, temos a
    prova de que a obediencia a uma prescripção tabú era em
    si mesma uma renuncia a alguma coisa que teriamos de-
    sejado de boa vontade. A inobservancia de uma renun-
    cia é resgatada por uma renuncia em outro plano.
    Quanto ao cerimonial do tabú, deduziremos de tudo isso
    que a expiação é mais primitiva do que a purificação.

    Resumamos agora as nossas conclusões quanto ao
    conceito do tabú em comparação com as prohibições
    do neurotico coacto: O tabú é uma prohibição, im-
    posta de fóra (por uma autoridade) e dirigida contra
    os desejos mais intensos do homem. A tendencia a
    transgredil-o persiste no inconsciente; os homens que
    obedecem ao tabú, observam uma attitude ambivalente
    para com o attingido pelo tabú. A força magica,
    attribuida ao tabú se reduz ao poder de induzir o ho-
    mem á tentação; comporta-se como um contagio, por-
     

  • S.

    65

    que o exemplo é sempre contagioso e porque o desejo
    prohibido se desloca no inconsciente sobre outros dese-
    jos. A expiação da violação de um tabú, por uma re-
    nuncia, prova que o cumprimento do tabú tem por base
    uma renuncia.

  • S.

    [object Object]

  • S.

    67

    3.

    Vejamos agora que valor temos de attribuir á
    nossa comparação do tabú com a neurose coacta e á
    concepção do tabú sobre essa base. Para que um tal
    valor venha a existir, será necessario que a nossa con-
    cepção offereça uma vantagem, impossivel de obter por
    outro meio, isto é, que nos offereça um conceito de
    tabú, superior a quantos possiveis. Estamos, talvez,
    inclinados a affirmar que nas considerações que ante-
    cedem, já possuimos uma prova de tal condição; mas
    devemos buscar reforçal-o continuando a nossa inves-
    tigação com o exame minudente das diversas interdi-
    cções e costumes do tabú.

    Mas temos tambem um outro meio para isso.
    Poderiamos investigar se uma parte das hypotheses
    que transferimos da neurose ao tabú, ou das conse-
    quencias deduzidas desta transferencia, póde ser de-
    monstrada directamente pelo exame dos phenomenos
    do tabú. Teremos apenas de decidir, em que direcção
    proseguiremos as pesquizas. A affirmação antes

  • S.

    68

    mencionada de que o tabú procede de uma antiquissi-
    ma prohibição, imposta primitivamente de fóra, esca-
    pa, naturalmente, á prova. Assim, pois, buscaremos
    antes comprovar, quanto ao tabú, aquellas mesmas
    condições psychologicas, que temos encontrado na neu-
    rose coacta. De que maneira, na neurose chegamos
    a conhecer essas condições psychologicas? Por meio
    de estudo analytico dos symptomas, principalmente dos
    actos compulsivos, das medidas de defesa das normas
    obsidentes. Encontramos nelles melhores indicios da
    sua origem em tendencias ou excitações ambiva-
    lentes, correspondendo umas vezes, simultanea-
    mente, ao desejo e ao “contradesejo”, e outras, predo-
    minantemente, ficando ao serviço de uma das tenden-
    cias oppostas. Por tanto, se conseguissemos descobrir
    nas prescripções do tabú, esta ambivalencia e este con-
    flicto entre as duas tendencias oppostas, ou ao menos
    assignalar entre ellas algumas que, como os actos com-
    pulsivos, constituissem uma manifestação simultanea
    das duas correntes, ficaria provada a’ coincidencia do
    tabú com a neurose coacta, pelo menos na sua parte
    fundamental.

    As duas principaes interdicções tabú, como já
    o dissemos antes, resultam inaccessiveis á nossa analy-
    se, por estarem estreitamente ligadas ao totemismo;
    outras prescripções tabú são de origem secundaria e
    como taes, não interessam ao nosso ponto de vista.
    Entre os povos de que nos occupamos o tabú veio a
    tomar a fórma geral de uma legislação e entrou ao ser-
     

  • S.

    69

    Totem e Tabú

    viço de tendencias sociaes que são, com certeza, mais
    recentes do que o proprio tabú, como p. ex.: tabús im-
    postos por chefes e sacerdotes, para assegurar as suas
    propriedades e privilegios. Mesmo assim resta ainda
    um importante grupo de prescripções sobre as quaes
    pódem continuar as nossas pesquizas; destaco entre
    essas, os tabús que se referem a) aos inimigos;
    b) aos chefes; c) aos mortos; e tirarei
    o material referente a essa questão da excellente col-
    lecção, reunida por J. G. Frazer, na sua importante
    obra “The golden bough” (Third edition, part. II, Ta-
    boo and the perils os the soul, 1911).

    a) Conducta para com os inimigos

    Se nos sentimos inclinados a attribuir aos povos
    selvagens e semi-selvagens irrefreada e impenitente
    crueldade para com os inimigos, ficaremos surprehen-
    didos ao averiguar que a consumação de um homicidio
    lhes impõe uma série de prescripções subordinadas aos
    costumes do tabú. Essas normas podem com facilida-
    de ser agrupadas em quatro categorias; exigem: 1ª
    propiciação do inimigo morto; 2ª restricções, 3º actos
    de expiação, purificação do homicida, e 4º certas pra-
    ticas cerimoniaes. Até que ponto são generalizados
    ou isolados esses costumes do tabú, entre os varios
    povos, não o decidem, por um lado, com segurança as
    nossas informações incompletas e, por outro, seria in-
    differente, para os nossos fins. Em todo o caso po-

  • S.

    70

    demos admittir que se trata de costumes largamente es-
    palhados e não de phenomenos singulares, isolados.

    Na Ilha de Timor os costumes de pro-
    piciação, observados depois da volta victoriosa
    dos guerreiros com as cabeças cortadas dos inimigos,
    são particularmente interessantes, por causa das seve-
    ras restricções impostas, como mais adeante veremos,
    ao chefe da expedição. “Por occasião da volta tri-
    umphal dos vencedores, offerecem-se sacrificios, para
    apaziguar as almas dos inimigos; sem o que, seria de
    prever desgraça para os vencedores. Executam uma
    dança acompanhada de um cantico em que se chora o
    inimigo vencido e se implora o seu perdão: “Não te
    encolerizes por termos a tua cabeça comnosco; se a
    ventura não nos tivesse favorecido, estariam talvez as
    nossas cabeças pendentes na tua aldeia. Offerece-
    mos-te um sacrificio, para te acalmar. Ora o teu es-
    pirito póde descançar e deixar-nos em paz. Porque te
    tornaste nosso inimigo? Não seria melhor se tivesse-
    mos ficado amigos? Então o teu sangue não teria
    sido derramado, nem cortada a tua cabeça”. (Frazer,
    pag 166).

    Costume identico observa-se entre os Palu
    na ilha de Celebes; os Gallas, antes de entrar
    na aldeia patria, offerecem sacrificios aos deuses dos
    inimigos mortos (Segundo Paulitschke, Ethnographia
    do Nordeste da Africa).

    Outros povos encontraram meios de transformar
    os inimigos, depois de mortos, em amigos, guardas e

  • S.

    71

    TOTEM E TABÚ

    protectores. O meio consiste em tratar com todo o
    carinho as cabeças cortadas, costume do qual se gabam
    varias tribus selvagens da ilha do Bornéo.
    Quando os Dayaks maritimos de Sarawak, ao
    voltar de uma expedição, trazem para a casa uma ca-
    beça, tratam-na, durante mezes inteiros, com toda a
    especie de amabilidades, dedicando-lhe os nomes mais
    doces e carinhosos, de que a lingua dispõe. Os melho-
    res boccados da refeição, assim como guloseimas e ci-
    garros são-lhe introduzidos na bocca. Rogam-lhe re-
    petidamente que odeie os antigos amigos e que dedique
    o seu amor aos novos hospedeiros, que já agora o con-
    sideram um dos seus. Muito nos equivocariamos
    pensando que nesse costume tão macabro para nós pu-
    desse caber intenção ironica (Frazer: “Adonis, Attis,
    Osiris, pags. 248, 1907. — Conforme Hugh Low, Sa-
    rawak, London 1848).

    Varios exploradores estranharam o luto que cer-
    tas tribus norte-americanas observam em honra do ini-
    migo morto e escalpado. A partir do dia em que um
    Choctaw matara um inimigo,’começa para elle
    um periodo de luto de varios mezes, durante o qual se
    submette a graves restricções. O mesmo succede en-
    tre os indios Dakota. Relata um observador que
    os Osagos, depois de ter commemorado com o
    luto os seus proprios mortos, põem luto pelo inimigo,
    como si tivesse sido um amigo. (J. O. Dorsay, cita-
    do por Frazer, Taboo etc., pag. 181).

    Antes de passarmos a fallar dos restantes costu-

  • S.

    72

    mes tabús, referentes aos inimigos, devemos precaver-
    nos contra uma possivel objecção. O motivo que di-
    cta estas prescripções de propiciação, poder-se-ha dizer
    com Frazer e outros, é bem simples e nada tem de
    commum com uma “ambivalencia”. Esses povos são
    dominados por um medo supersticioso dos espiritos das
    victimas; medo que não era estranho á antiguidade
    classica e que o grande dramaturgo britannico levou á
    scena nas hallucinações de Macbeth e Ri-
    cardo III. Dessa superstição se deduzem longi-
    camente todas as prescripções de propiciação, da mes-
    ma maneira, que as restricções e expiações de que mais
    tarde trataremos; em favor dessa concepção testemu-
    nhariam ainda as cerimonias que reunimos no quarto
    grupo e que não admittem outra interpretação que a de
    esforço para afugentar os espiritos dos mortos, que
    perseguem os seus matadores. (Frazer, Taboo etc.,
    pags. 169 sgg., pag. 174. Essas cerimonias consistem em
    bater com os escudos, gritar, uivar e produzir ruidos
    com instrumentos etc.). Além do mais, os selvagens
    confessam mesmo o seu medo quanto aos espiritos dos
    inimigos mortos e attribuem-lhes esses costumes do
    tabú.

    Essa objecção, de facto, é obvia e se fosse suffi-
    ciente, poderiamos evitar a nossa tentativa de inter-
    pretações. Mais tarde nos occuparemos por extenso
    della, limitando-nos a oppor-lhe a concepção que se de-
    prehende das hypotheses das nossas considerações pre-
    cedentes sobre o tabú. De todas aquellas prescripções

  • S.

    73

    Totem e Tabú

    concluimos nós que no comportamento para com res-
    peito ao inimigo, se manifestam ainda outros senti-
    mentos que os de méra hostilidade. Vemos nellas ma-
    nifestações de arrependimento, de homenagem ao ini-
    migo e de remorsos por tel-o morto. Chega a parecer
    que para aquelles selvagens tambem vigorasse o man-
    damento: não matarás, norma que não po-
    deria ser violada impunemente, e isso já muito antes
    de toda e qualquer legislação, recebida das mãos de um
    deus.

    Voltemos agora ás outras categorias das prescri-
    pções do tabú. As restricções impostas ao
    matador victorioso são muito frequentes e na maioria
    dos casos, muito rigorosas. Na ilha de Timor
    (compare-se os costumes de propiciação, já menciona-
    dos) o chefe da expedição não póde, sem mais nem
    menos, voltar á sua casa. Constroem-lhe uma caba-
    na, na qual passa tres mezes, praticando differentes
    ritos de purificação. Durante esse tempo não deve vêr
    a esposa, não se póde alimentar por si mesmo, devendo
    outrem servir-lhe a comida na bocca. (Frazer: Ta-
    boo, pag. 166. Segundo Muller: Reizen en Onderzoe-
    kingen in den Indischen Archipel, Amsterdam 1857). —
    Entre algumas tribus Dayaks devem os homens.
    que retornam de uma expedição victoriosa, ficar iso-
    lados do resto da povoação, durante varios dias, deven-
    do abster-se de certas iguarias, como de tocar em quaes-
    quer alimentos, além de ficar afastados da esposa.

  • S.

    74

    Na ilha Logea, perto da Nova Guiné, ficam
    fechados em casa, por uma semana, os que mataram
    inimigos e tambem os que nisso tomaram parte. Evi-
    tam toda e qualquer relação com as esposas e os
    amigos; não tocam com as mãos em qualquer materia
    alimenticia e sustentam-se unicamente de vegetaes pre-
    parados para elles, em vasilhas especiaes. Para jus-
    tificar esta ultima restricção, se diz que não devem
    cheirar o sangue do morto; do contrario, adoeceriam e
    morreriam. – Nas tribus Toapiri ou Mo-
    tumotu da Nova Guiné, um homem que tenha mor-
    to outro, não póde approximar-se da esposa nem tocar
    os alimentos com os dedos. Recebe um alimento es-
    pecial das mãos de outras pessoas. Esse regime dura
    até a lua nova proxima.

    Deixo de citar os multiplos casos de restricções
    impostas ao matador victorioso e citados por Fra-
    zer, indicando apenas aquelles exemplos cujo cara-
    cter de tabú resalta com particular evidencia ou cuja
    restricção apparece ligada a expiação, purificação e
    cerimonial.

    Entre os Monumbos da Nova Guiné al-
    lemã, todo aquelle que tenha morto um inimigo em
    combate, torna-se “impuro” e o seu estado é designa-
    do pela mesma palavra applicada á mulher menstruada
    ou parida. Por muito tempo não póde sahir da casa
    destinada aos homens, emquanto os demais habitantes
    da aldeia se lhe reunem em volta e lhe celebram a vi-
    ctoria com cantos e danças. A ninguem deve tocar,

  • S.

    75

    Totem e Tabú

    nem mesmo á esposa e aos filhos; se o fizesse ficariam
    elles cobertos de ulceras. Por ultimo, purifica-se por
    meio de abluções e outras cerimonias.

    Entre os Natchez da America do Norte,
    os jovens guerreiros que conquistam o seu primeiro
    “scalp”, eram submettidos, durante seis mezes, a de-
    terminadas expiações. Não podiam dormir com as
    esposas, nem comer carne; nutriam-se sómente de pei-
    xes e de pudim de milho. Quando um Choctaw
    houvesse morto e escalpado um inimigo, começava para
    elle o luto de um mez, durante o qual não podia pen-
    tear-se. Se a cabeça lhe picasse, não devia coçar-se
    com a mão, mas servir-se de uma varinha, para isso.

    Quando um indio Pima tivesse morto um
    Apache, tinha que submetter-se a rigorosas ceri-
    monias de purificação e de expiação. Durante um pe-
    riodo de jejum de 16 dias, não lhe era permittido tocar
    nem em carne, nem em sal; não podia contemplar fogo
    acceso nem dirigir palavra a quem quer que fosse.
    Ficava sózinho nos bosques, servido por uma mulher
    velha que lhe trazia pouca comida; tomava frequente-
    mente banhos no riacho proximo, e, como signal do
    seu luto, levava na cabeça um torrão de barro. No
    decimo -setimo dia verificava-se a cerimonia publica de
    purificação solemne do homem e das suas armas. Como
    os indios Pima consideravam o tabú do homicida
    muito mais rigorosamente do que os seus inimigos e
    não deixavam, como estes, a expiação e a purificação
    para o final da campanha, póde dizer-se que a sua mo-
     

  • S.

    76

    ralidade e piedade eram, para elles, um motivo de in-
    ferioridade militar. Apesar da sua extraordinaria
    bravura, consideravam-nos os americanos como um
    auxilio muito mediocre nas luctas contra os a p a -
    c h e s .

    Apesar do interesse que apresentaria um exame
    mais profundo dos detalhes e variações das cerimonias
    de expiação e purificação, prescriptas depois de ter
    sido morto um inimigo, darei aqui por terminada a
    minha exposição, por isso que ella não nos póde abrir
    novos pontos de vista. Apenas accrescentarei, talvez,
    que se prende ao mesmo circulo de idéas o isolamento
    temporario ou permanente a que é submettido o car-
    rasco profissional, costume conservado até em nossos
    dias. A posição do “Freimann” na sociedade medie-
    val nos proporciona, de facto, uma idéa muito appro-
    ximada do tabú dos selvagens. (A proposito destes
    exemplos, veja Frazer: Taboo, pags. 165-190; “Man-
    slayers tabooed”.) .

    Na explicação corrente de todas estas prescri-
    pções de propiciação, restricção, expiação e purificação,
    apparecem combinados dois principios: a extensão do
    tabú do morto a tudo o que entrou em contacto com
    elle e o medo do espirito do morto. Mas não se disse
    de que maneira devem combinar-se os dois factores,
    para explicar o cerimonial, nem se possuem valor igual
    ou se um delles tem que ser considerado como prima-
    rio e o outro como secundario e qual delles; e não se-
    ria facil, de facto, dirimil-o. A tudo isso, porém, op-

  • S.

    77

    pomos a unidade do nosso conceito, segundo o qual to-
    das essas prescripções derivam da ambivalencia dos
    sentimentos para com o inimigo.

    b) O tabú dos soberanos

    O comportamento dos povos primitivos para com
    os seus chefes, reis e sacerdotes é regido por dois prin-
    cipios que parece antes completarem-se do que con-
    tradizerem-se. E’ necessario delles preservar-se e
    protegel-os (1). Estes dois fins são conseguidos por
    meio de uma infinidade de prescripções do tabú. Já
    sabemos por que é necessario preservar-se dos sobe-
    ranos: são portadores daquella força magica, myste-
    riosa e perigosa que se communica pelo simples conta-
    cto como uma carga electrica e determina a morte e
    perdição a quem não esteja protegido por uma carga
    equivalente. Evita-se, portanto, todo contacto dire-
    cto ou indirecto com a santidade perigosa e, para os
    casos em que esse contacto não possa ser evitado, in-
    ventou-se um cerimonial destinado a afastar as con-
    sequencias temidas. Assim, os Nubas da Africa
    Oriental acreditam, p. ex.: que haveriam de morrer,
    se penetrassem a casa do seu rei-sacerdote, mas que
    podem escapar a esse perigo se, ao entrar, descobrirem


    (1) Frazer, Taboo etc. p. 132: “He must not only be guarded, he must also be guarded against” Elle não deve ser apenas pro-
    tegido; elle deve ser tambem contra-protegido).

  • S.

    78

    o hombro esquerdo e deixarem que o rei alli toque com
    a mão. Desse modo se chega ao singular resultado
    de que o contacto do rei se converte em meio de cura e
    protecção contra os males resultantes daquelle mesmo
    contacto; mas devemos observar que nesse caso se tra-
    ta de força curativa do contacto realizado intencional-
    mente pelo rei, em contraste com o perigo de que lhe
    toquem, ou seja o contraste entre passividade e activi-
    dade para com o rei.

    Para bem patentear os exemplos do poder cura-
    tivo do contacto real, não é preciso ir procural-os entre
    os selvagens. Em época não muito remota exerciam esse
    poder os reis da Inglaterra, para curar as escrofulas
    que, por essa razão, tinham o nome de “the king’s evil”
    (a doença real). Nem a rainha Isabel nem nenhum
    dos seus successores renunciaram a essa prerogativa
    real. Contam que Carlos I, no anno de 1633 curou,
    de uma só vez, uma centena de enfermos. Sob o rei-
    nado do seu leviano filho, Carlos II, e depois de ven-
    cida a grande revolução ingleza, alcançou a cura real
    das escrofulas o seu maior florescimento.

    Dizem que durante o seu reinado esse soberano
    tocou em uma centena de milhares de escrofulosos. A
    affluencia dos enfermos era tão grande que, de uma
    feita, em vez de cura, seis ou sete encontraram a morte
    por suffocação. O sceptico Guilherme III de Oran-
    ge, que depois da expulsão do Stuarts se tornou rei da
    Inglaterra, recusou-se a exercer a cura magica; e a
    unica vez que consentiu em exercer o toque curativo,

  • S.

    79

    Totem e Tabú

    fel-o com estas palavras “Que Deus vos dê melhor
    saude e mais razão” (Frazer, “The magic art. I,
    pag. 368).

    Do temivel effeito do contacto activo, ainda que
    não intencional, contra o rei ou o que lhe pertence,
    sirva de testemunho o presente exemplo: Um chefe
    de posição elevada e de grande santidade, da Nova Ze-
    landia, abandonara, um dia, no caminho, os restos da
    sua refeição. Um escravo jovem, robusto, que tinha
    fome, passou por alli, viu-os e apressou-se em consu-
    mil-os. Mal porém acabára de comer, communicou-
    lhe um espectador apavorado que elle se servira dos
    restos do almoço do chefe. O escravo era um guer-
    reiro forte e valoroso, mas ouvindo a nova do seu cri-
    me, cahe por terra, presa de terriveis convulsões e mor-
    re ao anoitecer do dia seguinte (“Old New Zeeland”,
    by a Pakeha Maori, (London 1884), citado por Fra-
    zer, Taboo, pag. 135). Uma mulher Maori
    comera algumas frutas e verifica logo que procediam
    de determinado logar eivado de tabú. Exclamou então
    que o espirito do chefe a quem assim offendera, havia
    de matal-a. O facto dera-se pela tarde e, no dia se-
    guinte, ao meio,dia, estava ella morta. (W. Brown:
    New Zeeland and its Aborigines (London 1845); ci-
    tado por Frazer). O isqueiro de um chefe Maori
    causou, uma vez, a morte de varias pessoas. O chefe
    perdera-o; outros o encontraram e serviram-se delle
    para accender os cachimbos. Quando souberam quem

  • S.

    80

    era o proprietario do isqueiro, morreram de pavor
    (Frazer).

    Nada ha pois de estranho em que haja necessida-
    de de isolar pessoas tão perigosas, como os chefes e
    sacerdotes e rodeal-os de um muro que os torne in-
    accessiveis aos outros. Tem-se a vaga impressão de
    que ainda hoje, nos cerimoniaes das cortes, exista aquel-
    le muro, composto primitivamente de prescripções do
    tabú.

    Mas a maioria, talvez, desses tabús dos soberanos
    não se deixa reduzir á necessidade de protecção contra
    elles. Na creação do tabú e no estabelecimento das
    etiquetas de côrte tomou ainda parte evidente o outro
    ponto de vista, no tratamento das pessoas privilegia-
    das: a necessidade de protegel-as contra os perigos que
    as ameaçavam.

    A necessidade de proteger o rei contra todos os
    perigos imaginaveis, emana da enorme importancia do
    papel que elle desempenhava para o bem e mal dos seus
    subditos. Rigorosamente fallando, é a sua pessoa que
    regula a marcha do mundo; seu povo deve ser-lhe reco-
    nhecido, não sómente pela chuva e pelo brilho do sol
    que fazem medrar os fructos da terra, mas tambem
    pelo vento que lhes traz os navios á costa e pelo sólo
    firme onde lhes pousam os pés.

    Esses reis dos selvagens possuem uma somma de
    poderes e faculdades de distribuir a felicidade, proprios
    unicamente de deuses e nos quaes, nas phases mais

  • S.

    81

    TOTEM E TABÚ

    avançadas da civilização, sómente os cortesãos mais
    servis fingiram acreditar.

    Parece contradicção manifesta que pessoas dota-
    das de tal plenitude de poderes precisem de tão gran-
    des cuidados contra os perigos que as ameaçam; mas
    essa não é a unica contradicção que existe entre os sel-
    vagens no tratamento dos seus soberanos. Esses povos
    acreditam ser necessario vigiar os reis, para que estes
    empreguem convenientemente as suas forças; não es-
    tão em nada seguros de lealdade ou das boas intenções
    do chefe.

    Na origem das prescripções do tabú, referentes
    ao rei, transparece uma certa desconfiança. “A idéa
    de que a realeza primitiva é sempre um despotismo“ –
    diz Frazer “em consequencia da qual o povo existe
    unicamente para o seu soberano, não se applica ás mo-
    narchias de que estamos fallando. Ao contrario:
    nestas o soberano vive sómente para os seus subditos;
    a sua vida só tem valor emquanto elle cumpre as obri-
    gações do seu cargo e regula o curso da natureza para’
    o bem do seu povo. Desde que elle disso se descuide
    ou a tal se recuse, o cuidado, a dedicação, a veneração
    religiosa de que até então era elle o objecto principal
    se tranforma em odio e desprezo. Expulsam-no ver-
    gonhosamente e póde estimar-se feliz quando consegue
    salvar-se com vida. Adorado hoje como deus, póde
    dar-se que venha a ser trucidado no dia seguinte, co-
    mo criminoso. Mas não temos o direito de ver na
    mudança da attitude do seu povo um acto de inconstan-
     

  • S.

    82

    cia ou contradicção; pelo contrario, o povo permanece
    consequente até o fim. Se o seu rei é o seu deus, pen-
    sam elles, deve mostrar-se tambem o seu protector;
    e desde que elle não quer protegel-os, deve ceder o pos-
    to a outro mais inclinado a fazel-o. Mas emquanto
    corresponde ao que esperam delle, os cuidados dos sub-
    ditos não conhecem limites e elles obrigam-no a cuidar
    de si mesmo com igual zelo. Tal rei vive como cerca-
    do por uma muralha de um systema de cerimonias e
    etiquetas e preso numa rêde de costumes e interdi-
    cções que absolutamente não tem por objecto realçar-
    lhe a dignidade e muito menos augmentar-lhe o bem-
    estar, mas unicamente impedil-o de commetter actos
    que possam perturbar a harmonia da natureza e pro-
    vocar, assim, a sua propria perdição, a do seu povo e
    a do mundo inteiro. Essas prescripções, longe de lhe
    dar commodidade, interferem em todas as suas acções,
    tolhem-lhe a liberdade, e, pretendendo proteger-lhe a
    vida, fazem della uma carga e uma tortura”.

    Um dos exemplos mais impressionantes de seme-
    lhante agrilhoamento e tolhimento de um monarcha
    sagrado, pelo cerimonial do tabú, nos é offerecido pela
    vida que, em remotos seculos, levava o Mikado japo-
    nezes. Uma descripção, que actualmente conta mais
    de duzentos annos, conta-nos (Kaempfer, History of
    Japan, citado por Frazer, I. pag. 3): “O Mikado con-
    sidera incompativel com sua dignidade e seu caracter
    sagrado o tocar o solo com os pés, de modo que quan-
    do pretende ir a alguma parte, faz-se carregar nos

  • S.

    83

    hombros dos seus homens. Mas ainda menos lhe con-
    vém expor a sua sagrada pessoa ao ar livre e é recusa-
    da ao sol a honra de illuminar-lhe a cabeça. A todas
    as partes do seu corpo se attribue caracter tão sagrado,
    que nunca lhe devem ser cortados os cabellos nem a
    barba; nem tampouco as unhas. Mas para que não
    fique de todo sem ser cuidado, lavam-no á noite, em-
    quanto dorme: dizem que tudo aquillo que se lhe retire
    ao corpo em tal estado, póde ser considerado como
    roubado; mas esse roubo não póde affectar-lhe a di-
    gnidade nem a santidade. Em épocas mais antigas
    ainda devia permanecer, todas as manhãs, durante
    algumas horas, sentado no throno, com a coroa impe-
    rial na cabeça e immovel como uma estatua, sem mo-
    ver as mãos, os pés, a cabeça nem os olhos, pois só-
    mente assim pensavam que poderia manter a paz e a
    tranquillidade do imperio. Se, por desgraça, se vol-
    tasse para um lado ou para o outro, ou dirigisse o olhar
    durante certo tempo, para uma parte do seu impe-
    rio, poderiam vir a devastar o paiz a guerra, a fome,
    o incendio, a peste ou qualquer outra grande calami-
    dade”.

    Alguns dos tabús, a que são submettidos reis bar-
    baros, recordam flagrantemente as restricções im-
    postas aos assassinos. Em Shark Point,
    perto do Cabo Podron, na Guiné Inferior (Oeste afri-
    cano), vive um rei sacerdote, Kukulu, sózinho,
    num bosque. Não póde tocar em mulher nenhuma;
    não póde sahir de casa nem siquer levantar-se da pol-
     

  • S.

    84

    trona, na qual dorme sentado. Se se deitasse, deixa-
    ria de soprar o vento, perturbando com isso a nave-
    gação. A sua funcção consiste em refreiar as tem-
    pestades e cuidar, em geral, de manter a atmosphera
    em estado relativamente normal. (A. Bastian: “A
    expedição allemã na costa de Loango”, Jena
    1874, citado por Frazer, I, pag. 5). Quanto mais po-
    deroso é um rei de Loango, diz Bastian, tanto
    mais numerosos são os tabús que deve observar. O
    principe herdeiro é tambem submettido a tabús desde
    a infancia, mas estes se accumulam em sua volta, á
    medida que elle vae crescendo; e quando chega ao
    throno, abafam-no os tabús.

    O espaço não nos permitte, nem tampouco o exi-
    ge o nosso interesse, que levemos adeante a descripção
    dos tabús inherentes á dignidade dos reis ou sacerdo-
    tes. Accrescentemos apenas que as restricções rela-
    tivas ao movimento e á dieta desempenham ahi o papel
    principal. Para demonstrar até que ponto são tenazes
    os costumes impostos a essas pessoas privilegiadas, ci-
    taremos dois exemplos do cerimonial tabú, tomados
    aos povos civilizados, até mesmo aos que alcançaram
    phases mais elevadas de cultura.

    O Flamen Dialis, o grão sacerdote de
    Jupiter, na Roma antiga, tinha que observar um ex-
    traordinario numero de tabús. Não podia montar a
    cavallo; nem ver um cavallo nem um homem armado;
    não podia usar anel que não fosse partido; nem usar
    nós nas vestes; nem tocar em farinha de trigo nem fer-
     

  • S.

    85

    T O T E M E T A B Ú

    mento; nem tampouco chamar pelo nome uma cabra,
    um cão; nem a carne crua, as favas ou a hera; os seus ca-
    bellos só podiam ser cortados por um homem livre e
    com tesoura de bronze; os seus cabellos e unhas de-
    viam ser enterrados sob uma arvore portadora de for-
    tuna; não podia tocar em mortos e lhe estava prohi-
    bido sahir ao ar livre com a cabeça descoberta etc. A
    sua mulher, a Flaminica, tinha além disso
    suas restricções particulares: em determinadas esca-
    das não podia subir mais de tres degráos; em certos
    dias de festa não podia pentear o cabello; o couro para
    o seu calçado não podia provir de um animal que ti-
    vesse soffrido morte natural, mas sómente de um aba-
    tido ou sacrificado; o facto de ter ouvido trovoadas, fa-
    zia-a impura até que houvesse offerecido um sacri-
    ficio de expiação. (Frazer. pag. 13).

    Os antigos reis da Irlanda eram sujeitos a uma
    porção de singularissimas restricções, de cuja obser-
    vancia se esperavam todas as bençãos e de cuja tran-
    sgressão todas as desgraças para o paiz. A enumera-
    ção completa destes tabús encontra-se no livro Book of
    Rights, cujos manuscriptos mais antigos datam de
    1390 e 1418. As prohibições são detalhadissimas e
    recaem sobre determinados actos, logares e tempos;
    em tal cidade o rei não deve permanecer em certo dia
    da semana; não deve passar aquelle rio em tal hora;
    não deve acampar nove dias inteiros em tal planicie
    etc. (Frazer, pag. 11).

    A severidade das prescripções impostas aos reis

  • S.

    86

    sacerdotes teve entre muitos povos selvagens uma con-
    sequencia muito importante do ponto de vista histori-
    co e, particularmente, interessante do nosso ponto de
    vista actual. A dignidade de sacerdote-rei deixou de
    ser uma coisa desejada; assim quem estava designado
    para assumil-a usava de todos os meios, para livrar-se
    della. Assim, em Cambodja, onde existe um
    rei de fogo e um de agua, é frequentemente necessa-
    rio compellir violentamente o successor á acceitação
    dessas dignidades. Na ilha Nine ou Savage-Is-
    land, ilha coralina do Oceano Pacifico, extinguiu-se
    praticamente a monarchia, pois ninguem se mostrava
    disposto a assumir as funcções reaes, cheias de respon-
    sabilidades e perigos. Em certas partes da Africa
    Occidental, celebra-se, immediatamente depois da mor-
    te do rei, um conselho secreto, para designar-lhe o suc-
    cessor. Aquelle sobre quem recae a escolha, é captu-
    rado e preso na casa dos fetiches, até que se declare
    disposto a acceitar a corôa. Em certas occasiões o
    successor presumptivo encontra meios e modos, para
    subtrahir-se á honra que lhe querem impor; conta-se
    assim por exemplo, de um chefe que tinha o costume de
    não abandonar as armas, nem de dia, nem de noite,
    com o fim de poder resistir, á força, a qualquer tenta-
    tiva de enthronizal-o. Entre os negros da Serra
    Leôa era tão grande a resistencia á acceitação da
    dignidade real, que a maioria das tribus se viu obriga-
    da, a escolher extrangeiros para seus reis.

    Frazer refere isso á circumstancia de que na evo-
     

  • S.

    87

    TOTEM E TABÚ

    lução historica, a realeza sacerdotal primitiva veio a
    desdobrar-se em um poder temporal e um espiritual.
    Prostrados sob a carga da sua santidade, chegaram os
    reis a ser incapazes de exercer effectivamente o seu
    poder real e se viram obrigados a entregar esse encar-
    go a personagens menos importantes, mas com força
    activa que estavam dispostos a renunciar ás honras da
    dignidade real. Desse modo se formaram os sobera-
    nos temporaes, emquanto a praticamente insignifican-
    te supremacia espiritual ficou reservada aos antigos
    reis tabú. A historia do Japão antigo nos offerece
    uma exacta confirmação desta maneira de ver.

    Perante este quadro das relações entre o homem
    primitivo e os seus soberanos surge-nos a esperança de
    que a passagem da sua descripção á sua comprehensão
    psychanalytica não ha de ser muito difficil. Essas re-
    lações são excessivamente complicadas e não lhes fal-
    tam contradicções. Concedem-se aos soberanos gran-
    des prerrogativas acobertadas pelas prescripções do
    tabú impostas aos outros. São pessoas privilegiadas:
    tem o direito de fazer ou gozar aquillo que aos de-
    mais está prohibido pelo tabú. Mas em contraposição
    a essa liberdade, estão cercados por outros tabús, que
    não pesam sobre os individuos ordinarios. Temos
    pois aqui um contraste, quasi uma contradicção entre
    um maximo de liberdade e um maximo de restricção,
    relativos ás mesmas pessoas. Attribue-se-lhes um
    poder magico extraordinario e teme-se, por isso, todo
    o contacto com a sua pessoa ou a sua propriedade,

  • S.

    88

    quando se esperava, por outro lado, desse contacto os
    effeitos mais beneficos. Isso parece-nos uma nova
    contradicção, particularmente flagrante; mas já sabe-
    mos que o é sómente na apparencia. O contacto do
    rei só é salvador e protector, quando a iniciativa parte
    da real vontade com um proposito benevolo; perigoso
    é o contacto, só quando’ realizado pelo homem commum
    sobre o rei ou sobre o que lhe pertence; e isso, prova-
    velmente porque poderia significar uma tendencia
    aggressiva. Outra contradicção menos facil de ex-
    plicar é a de que, não obstante attribuir ao soberano tão
    grande poder sobre as forças naturaes, o povo se crê
    obrigado a protegel-o com particular solicitude dos pe-
    rigos que o ameaçam, como se o poder real, capaz de
    tantas cousas, não pudesse tambem fazel-o, por si mes-
    mo. Outra difficuldade para a comprehensão daquel-
    las relações é o facto de não confiarem em que o sobe-
    rano empregue o seu enorme poder em favor do seu
    povo e da sua propria protecção; desconfiam delle e
    por isso se julgam no direito de vigial-o. A etiqueta
    tabú a que está sujeita a vida régia, corresponde, ao
    mesmo tempo, a todos aquelles propositos dessa tutela do
    rei – á protecção deste contra os perigos em geral, como
    á protecção dos subditos contra os outros perigos que
    da pessoa do rei lhes possam advir.

    Parece-nos obvia a seguinte explicação dessas re-
    lações tão complicadas e contradictorias entre os pri-
    mitivos e os seus soberanos: por motivos supersticio-
    sos e por outras causas, manifestam-se no tratamento

  • S.

    89

    TOTEM E TABÚ

    do rei, diversas tendencias, cada uma das quaes se des-
    envolve até o extremo, sem repercutir sobre as restan-
    tes. Deste modo nascem todas as contradicções que
    entretanto não repugnam ao intellecto do selvagem
    mais do que ao do homem altamente civilizado aquel-
    las relações referentes á religião ou á lealdade politica.

    Até este ponto tudo estaria bem; mas a technica
    psychanalytica vae permittir-nos penetrar mais pro-
    fundamente nessa questão e nos approximará mais do
    conhecimento dessas tendencias tão diversas. Sub-
    mettendo á analyse o conteudo esboçado tal como se
    se tratasse do quadro symptomatico de uma neurose,
    demorar-nos-emos em primeiro logar no excesso de
    cuidados altamente angustiosos que vem dar-nos as ba-
    ses do cerimonial do tabú. Tal excesso de carinho é phe-
    nomeno corrente nas neuroses, especialmente, na neu-
    rese coacta, que escolheremos em primeiro logar para
    tamente comprehensivel. Esse excesso apparece sem-
    uma comparação. A sua origem tornou-se-nos comple-
    pre naquelles casos em que, junto ao carinho predomi-
    nante, existe uma corrente contraria e inconsciente de
    hostilidade, quer dizer, nos quaes se realiza o caso
    typico da ambivalencia affectiva. A hostilidade fica
    então abafada por um incremento desmedido do cari-
    nho, que se manifesta sob a fórma de angustia e que
    se torna compulsiva, pois de outro modo não seria ca-
    paz de cumprir sua funcção de manter reprimida a
    corrente inconsciente. Todos os psychanalystas têm
    verificado com que segurança a excessiva ternura an-
     

  • S.

    90

    gustiosa revela essa solução, através das relações mais
    inverosimeis, como p. ex.: entre mãe e filho ou entre
    conjuges carinhosos. Applicando o facto ao trata-
    mento das pessoas privilegiadas, podemos admittir que
    á adoração ou mesmo divinização dellas se contrapõe no
    inconsciente uma forte corrente hostil, que tambem
    aqui realiza, como era de esperar, a situação de am-
    bivalencia das representações affectivas. A descon-
    fiança que se nos mostra, como factor incontestavel,
    na origem dos tabús impostos aos reis, seria assim uma
    manifestação mais directa da mesma hostilidade in-
    consciente. Dadas as multiplas fórmas a que póde
    conduzir o desenlace desse conflicto, nos diversos po-
    vos, não seria demais determo-nos em exemplos que
    nos dessem, ainda mais facilmente, a prova de tal hos-
    tilidade. Conta-nos Frazer (obra citada, pag. 18, con-
    forme Zweifel e Monstier: Voyage aux sources du
    Niger, 1880) que os selvagens Timmes, da
    Serra Leôa, reservaram o direito de espancar na ves-
    pera de coroação o rei eleito e exercem essa preroga-
    tiva constitucional com tanta convicção que o desdito-
    so soberano, ás vezes, não chega a sobreviver muito ao
    enthronamento; por isso os grandes da tribu costumam
    elevar á dignidade do rei o homem contra o qual nu-
    trem alguma inimizade especial. Mesmo nestes casos
    clarissimos, a hostilidade, longe de confessar-se como
    tal, dissimula-se sob as apparencias do cerimonial.

    Outro aspecto da conducta do homem primitivo
    para com os seus soberanos recorda um processo mui-
     

  • S.

    91

    to frequente na neurose que apparece, particularmen-
    te accentuado, no chamado “delirio de perseguição”.
    Nestes casos, exaggera-se extraordinariamente a im-
    portancia de determinada pessoa, attribuindo-se-lhe um
    poder inverosimilmente illimitado, com o fim de poder
    imputar-lhe, dessa maneira, a responsabilidade de to-
    das as cousas adversas que ao doente se lhe deparem.
    A dizer verdade, os selvagens não tratam os seus reis
    de outra maneira, quando lhes conferem poder sobre a
    chuva ou sobre o sol, sobre o vento ou sobre o tempo e
    os desthronam ou matam, porque a natureza os tenha
    enganado nas suas esperanças de caça abundante ou
    boa colheita. O quadro que o paranoico reproduz no
    seu delirio de perseguição, é o das relações entre o fi-
    lho e o seu pae. O filho, de facto, attribue ao pae uma
    omnipotencia analoga e pode provar-se que a sua des-
    confiança para com o pae está intimamente ligada á
    alta estima que lhe vota o filho. Quando um paranoi-
    co designa o seu “perseguidor” entre as pessoas que
    lhe estão em volta, promove-o, com isso, á categoria
    de pae e dá-lhe as condições que permittem fazel-o res-
    ponsavel por todas as desgraças que imagina. Esta
    segunda analogia entre o primitivo e o neurotico póde
    dar-nos a idéa de quanto a relação do selvagem para
    com o seu rei deriva da attitude infantil do filho para
    com o pae.

    Mas os pontos mais poderosos em favor do nosso
    ponto de vista, fundado numa comparação entre as
    prescripções do tabú e os symptomas da neurose, en-
     

  • S.

    92

    contramo-los no proprio cerimonial do tabú, cujo pa-
    pel na posição da realeza já indicámos anteriormente.
    O duplo sentido desse cerimonial e a sua origem em
    tendencias ambivalentes mostrar-se-nos-ão com toda a
    evidencia, se admittirmos que os effeitos dahi deriva-
    dos já desde o principio eram previstos. Os reis não
    são apenas distinguidos e elevados acima de todos os
    communs mortaes, mas ainda a vida lhe é transforma-
    da em tormento e em carga insupportaveis; e lhes é
    imposta uma servidão muito mais onerosa do que a
    dos subditos. Isso mostra o parallelo perfeito com o
    acto compulsivo da neurose, na qual o impulso repri-
    mido e repressor se libertam simultaneamente, em com-
    mum. O acto compulsivo é apparentemente
    uma defesa contra o acto prohibido, mas podemos di-
    zer que, na realidade, não passa da reprodu-
    cção do prohibido. A “apparencia” se refere, neste
    caso, á instancia physica consciente; a “realidade” á
    instancia inconsciente. Deste modo o cerimonial ta-
    bú dos reis é, em apparencia, uma expressão do mais
    profundo respeito e da sua mais completa segurança;
    mas em realidade é um castigo pela sua elevação e uma
    vingança dos subditos. As experiencias que o San-
    cho Pança, de Cervantes, faz, como go-
    vernador, na ilha, deixaram-lhe reconhecer esse concei-
    to do cerimonial palaciano como o unico digno de nota.
    E’ bem possivel que alcançassemos novas provas em
    favor deste ponto de vista, se pudessemos ouvir as con-
    fidencias dos actuaes reis e chefes.

  • S.

    93

    TOTEM E TABÚ

    A razão pela qual a attitude affectiva para com
    os soberanos comporta tão poderoso elemento de hos-
    tilidade inconsciente, eis o problema interessantissimo,
    mas que ultrapassa os limites deste trabalho. A al-
    lusão ao complexo paterno, já a fizemos; accrescente-
    mos agora que a pesquiza da prehistoria da realeza
    poderia fornecer-nos a explicação definitiva. Segun-
    do as explicações de Frazer, muito impressionantes,
    mas pouco comprobatorias, como elle proprio diz, os pri-
    meiros reis eram estrangeiros que, depois de curto rei-
    nado, foram sacrificados como representantes das di-
    vindades, em meio a festas solemnes ( Frazer
    “The magic art and the evolution of kings”, 2. vol.
    1911. The golden bough). Até mesmo nos mythos do
    christianismo encontramos ainda o éco desta evolução
    historica das realezas.

    c) O tabú dos mortos

    Já sabemos que os mortos são soberanos podero-
    sos; ficaremos admirados ao verificar que são consi-
    derados como inimigos.

    Continuando no terreno do confronto com a in-
    fecção, podemos dizer que o tabú dos mortos, na maior
    parte dos povos primitivos, mostra particular virulen-
    cia. Manifesta-se, em primeiro logar, nas conse-
    quencias que o contacto com o morto traz comsigo e no
    tratamento dos que põem luto pelo fallecido. Entre os
    Maoris, todo aquelle que houvesse tocado num

  • S.

    94

    cadaver ou assistido a um enterro, ficava extraordi-
    nariamente “impuro” e era privado de toda e qualquer
    communicação com os seus semelhantes, por assim di-
    zel-o. Não podia entrar em casa nem tocar uma pes-
    soa ou objecto, sem contagial-o com a mesma qualida-
    de. Nem no proprio alimento devia tocar com as
    suas mãos: estas haviam-se tornado, pela impureza
    completamente imprestaveis. Os alimentos eram de-
    postos no chão e só lhe restava apanhal-os com os la-
    bios ou com os dentes, conforme o pudesse, emquanto
    conservava as mãos cruzadas, nas costas. A's vezes
    era permittido que outra pessoa lhe désse de comer;
    esta devia fazel-o com o braço estendido, para não to-
    car o desgraçado, mas esse intermediario tambem es-
    tava forçado a restricções não menos rigorosas que as
    do proprio impuro. E' certo que existia em cada al-
    deia um individuo completamente degradado, repelli-
    do da communhão e que vivia do modo mais misera-
    vel, de escassas esmolas. Este era o unico que se po-
    dia approximar, á distancia do braço estendido, dos
    que houvessem prestado os ultimos serviços a um mor-
    to. Mas quando o periodo do isolamento tivesse che-
    gado ao fim e o homem impurificado pelo cadaver hou-
    vesse de voltar para junto dos companheiros, teriam
    de ser destruidos todos os utensilios de que se tivesse ser-
    vido durante o periodo perigoso e inutilisadas todas as
    roupas de que tivesse usado. (Frazer, Taboo, p. 138).

    Os costumes tabús, impostos em consequencia do
    contacto com um morto, são iguaes em toda a Polyne-
    ses

  • S.

    95

    Totem e Tabú

    sia, Melanesia e parte da Africa; a parte mais cons-
    tante nelles é a prohibição de tocar nos alimentos e a
    conseguinte necessidade de deixar-se alimentar por
    outras pessoas. E’ de notar que na Polynesia, ou tal-
    vez sómente nas Ilhas Hawaii os reis-sacerdotes
    ficam submettidos ás mesmas restricções durante o
    exercicio de suas funcções sagradas. Na ilha Ton-
    g a resalta claramente, quanto ao tabú dos mortos,
    o declinio gradual e a supressão das interdicções pela
    propria força do tabú. Quem tivesse tocado o cada-
    ver de um chefe, ficava impuro durante dez mezes; se
    fosse o chefe a tocar, ficava tambem impuro durante
    tres, quatro ou cinco mezes, conforme a classe do de-
    funto; mas, tratando-se do cadaver do chefe supremo,
    divinizado, até os chefes mais altos, ficavam tabús du-
    rante dez mezes. Os selvagens crêem com toda a fir-
    meza que aquelles, que transgridam as prescripções ta-
    bús dos mortos, enfermam gravemente e vêm a mor-
    rer; e essa crença é tão firme, que segundo relata um
    observador, nunca tentaram convencer-se do contrario.
    (W. Mariner: “The natives of the Tonga Islands”
    1818, citado p. Frazer, p. 140).

    Analogas em essencia, mas muito mais interessan-
    tes para o nosso proposito, são as restricções tabús a
    que se sujeitam as pessoas cujo contacto com o mor-
    to deve comprehender-se num sentido figurado, como
    os parentes enlutados, especialmente o viuvo ou viuva.
    Se entre as prescripções citadas apenas vimos a ex-
    pressão typica da virulencia e do poder de propagação

  • S.

    96

    do tabú, estas outras, de que ora vamos occupar-nos
    permittem-nos entrever os motivos do mesmo: tanto
    os apparentes, como os que consideramos os mais pro-
    fundos e verdadeiros.

    Entre os Shuswap, na Colombia britanni-
    ca, os viuvos e as viuvas devem viver isolados durante
    o periodo de luto; não devem tocar com as mãos na ca-
    beça nem no corpo; toda a louça de que se servem fica
    subtrahida ao uso dos outros. Nenhum caçador terá
    vontade de approximar-se de uma cabana em que mo-
    ram enlutados; pois isso lhe traria infelicidade; caso
    cahisse sobre elle a sombra de uma pessoa de luto,
    elle ficaria doente. Os enlutados dormem sobre ra-
    mos espinhosos e circumdam com estes o leito. Esta
    ultima pratica tem por fim manter afastado o espiri-
    to do morto. Mais significativo ainda é o costume de
    certas tribus norte-americanas, segundo as quaes a viu-
    va, durante certo tempo, após a morte do marido, de-
    ve usar umas calças feitas de hervas seccas, para tor-
    nar-se inaccessivel ao espirito do defunto. Assim es-
    tamos autorizados a pensar que o contacto em “senti-
    do figurado” deve ser entendido apenas como conta-
    cto corporal, desde que o espirito dos mortos não se
    separa dos seus parentes e continua pairando em sua
    volta durante o tempo do luto.

    Entre os Agutainos, que vivem na Ilha
    de Palawan, do archipelago das Philipinas, a
    viuva não deve sahir da cabana durante os primeiros
    sete ou oito dias subsequentes á morte do marido, a

  • S.

    97

    Totem e Tabú

    não ser durante a noite, quando não se expõe a en-
    contros. Quem a avistar, fica ameaçado de morte in-
    stantanea; para evital-o, ella dá aviso de sua
    approximação, batendo com um bastão nas arvores;
    mas essas arvores seccam. Outra observação vae
    mostrar-nos em que consiste a periculosidade inherente
    a taes viuvas. No districto de Mekeo, da Nova
    Guiné Britannica, perde o viuvo todos os direitos ci-
    vis e vive, por algum tempo, como banido. Não póde
    cultivar jardim algum, nem mostrar-se em publico,
    nem andar na aldeia ou nas estradas. Vaga como uma
    féra por entre as hervas altas ou pelas moitas e deve
    esconder-se na espessura do bosque, quando alguem
    se lhe approxime, principalmente em se tratando de
    mulher. Esta ultima circumstancia nos permitte ver
    com facilidade a relação entre a periculosidade do
    viuvo ou viuva e o risco da tentação. O homem
    que perdeu a mulher deve evitar o desejo de uma sub-
    stituta; a viuva tem que lutar contra igual desejo tan-
    to mais que, não tendo senhor, póde provocar a cubi-
    ça de outros homens. Toda a satisfação substitutiva
    seria contraria ao sentido do luto; poderia despertar
    a colera do espirito.(1)

    Um dos costumes mais singulares mas tambem


    (1) A mesma enferma cujas “impossibilidades” comparei mais
    acima com os tabús confessou que se indignava sempre que encon-
    trava na rua uma pessoa de luto. Taes pessoas deviam ser prohi-
    bidas de sahir á rua!

  • S.

    98

    instruitivos do tabú, durante o luto dos primitivos, é
    a prohibição de mencionar o nome do morto. O
    costume é extremamente diffundido, recebeu numero-
    sas variantes e teve importantissimas consequencias.

    Além dos povos australianos e polynesios que, em
    geral nos demonstram os costumes do tabú no seu maior
    desenvolvimento, ainda se encontra a mesma interdicção
    em outros povos tão afastados uns dos outros e differen-
    tes entre si como os Samoiedos da Siberia e os
    Todas das Indias do Sul; os Mongoes da Tar-
    taria e os Tuaregos do Sahára; os Ainos
    do Japão e os Akamba e Nandi da Africa
    Central; os Tinguanos nas Philipinas e os ha-
    bitantes das ilhas Nicobar, Madagascar e Bor-
    neo (Frazer, pag. 353). Entre alguns destes povos
    a prohibição e as consequencias que della derivam fi-
    cam em vigor sómente durante o tempo do luto; entre
    outros são permanentes, mas parece que em todos os
    casos se atenuam com o afastamento do ponto de vista
    do fallecimento.

    Esse evitar do nome do defunto é observado, em
    geral, com extraordinario rigor. Assim certas tribus
    sul-americanas consideram que o pronunciar do nome
    de um defunto, na presença dos parentes sobreviven-
    tes, é-lhes offensa gravissima; a pena applicada é nada
    menos do que a correlata ao homicidio. (Frazer, pa-
    gina 352 sgg.). A’ primeira vista não é facil comprehen-
    der a razão de tamanha repulsa pelo enunciar do nome,
    mas os perigos que se relacionam com ella fizeram nas-
    cer uma multidão de informações que são muito inte-
     

  • S.

    99

    ressantes e significativas, sob varios aspectos. Assim
    os Masai, na Africa, encontram um subterfugio,
    mudando o nome do defunto, immediatamente após a
    morte; assim, póde este ser chamado, sem medo, pelo
    novo nome, pois todas as prohibições se referem só-
    mente ao nome anterior. Assim parece preestabeleci-
    do que o espirito não conheça o seu novo nome nem ve-
    nha a conhecel-o. As tribus australianas das bahias de
    Adelaide e Encounter são tão conse-
    quentes na sua precaução, que em caso de morte, todas
    as pessoas de nome igual ou parecido ao do defunto,
    tomam outro distincto. A's vezes seguem essa con-
    ducta todos os parentes do morto, independentemente
    da semelhança de nome; assim se dá entre algumas tri-
    bus de Victoria e do Noroeste da America.
    Entre os Guaycurús do Paraguay, costumava
    dar o chefe, nessas tristes occasiões, novos nomes a todos
    os membros da tribu, que passavam a attender por elles,
    como se os tivessem usado desde sempre. (Frazer, pa-
    gina 357, conforme um antigo observador hespanhol).

    Ainda mais: quando o defunto levava um nome
    identico ao de um animal, objecto etc., alguns desses
    povos julgavam necessario dar tamber a esses animaes
    ou objectos novos nomes, para que o uso do antigo não
    fizesse recordar o defunto. Desse costume resaltam
    continuas variações do vocabulo que difficultavam ex-
    traordinariamente o trabalho dos missionarios, espe-
    cialmente entre aquellas tribus onde a prohibição do
    nome era permanente. Durante os sete annos que o

  • S.

    100

    missionario Dobrizhofer passou entre os Abiponos
    na Paraguay, o nome do jaguar foi trocado tres vezes;
    destino analogo tiveram as denominações do jacaré,
    dos espinhos e da matança dos animaes. (Frazer, pa-
    gina 360).. Esse horror a pronunciar um nome que
    pertence a um defunto, estende-se no sentido de evitar
    a referencia a tudo em que o morto tenha intervindo;
    e como uma consequencia significativa desse processo
    de repressão temos que esses povos não possuem tradi-
    ção nem reminiscencias historicas, difficultando dessa
    maneira extraordinariamente as investigações da sua
    prehistoria. Alguns desses povos primitivos adopta-
    ram costumes compensadores, para resuscitar, depois
    de um longo periodo de luto, os nomes de mortos, dan-
    do-os ás creanças que assim ficam consideradas como
    reincarnação daquelles.

    A estranheza desse tabú do nome diminue, se nos
    lembrarmos de que os selvagens vêem no nome uma
    parte essencial e uma propriedade importante da sua
    personalidade, pois attribuem um pleno valor objecti-
    vo ás palavras. Como já mostramos em outra parte,
    as nossas creanças procedem da mesma maneira, pois
    nunca se contentam com uma simples analogia verbal
    isenta de significação, mas deduzem dahi, logicamente,
    uma coincidencia mais profunda entre os objectos desi-
    gnados por palavras homophonas. Tambem o adulto
    civilizado, por certas singularidades do seu comporta-
    mento, póde revelar que não está tão longe, como julga,
    de dar conceito e valor aos nomes proprios, e que o seu

  • S.

    T O T E M E T A B Ú

     individual, de certa maneira, está ligado á sua pessoa.
     Isso corrobora o que faz a pratica psychanalytica, que
     sempre encontra opportunidade para insistir na im-
     portancia dos nomes para o pensamento inconsciente.
     (Stekel, Abraham).

     Os neuroticos coactos, como fôra de esperar, com-
     portam-se, em relação aos nomes, da mesma maneira,
     que os selvagens. Mostram (o que póde dar-se em
     outras neuroses) a plena “sensibilidade do complexo”
     perante a pronuncia ou percepção auditiva de determi-
     nados nomes proprios e communs e derivam da attitude
     para com o seu proprio nome grande numero de graves
     inhibições. Conheci uma doente de tabú, que se absti-
     nha de assignar o nome, pelo medo de que este pudesse
     cahir nas mãos de alguem que, desse modo, entraria na
     posse de uma parte da sua personalidade. Na sua fide-
     lidade espasmodica, com a qual se defendia contra as
     tentações da sua fantasia, ella se impuzera o manda-
     mento de “nada ceder da sua pessoa”. A esta perten-
     cia, em primeiro logar, o nome, em seguida a letra e,
     por isso, deixou de escrever, em absoluto.

     Assim já não estranhamos que os selvagens vejam
     no nome do morto uma parte da pessoa deste e o en-
     globem no tabú, relativo ao defunto. Mas o facto de
     pronunciar o nome do morto póde referir-se tambem ao
     contacto com este e devemos, por isso, agora abordar
     com mais amplitude o problema de saber porque será
     tal contacto objecto de um tabú tão rigoroso.

     A explicação mais obvia seria attribuil-o ao natu-

    — 101 —

  • S.

    102

    S I G . F R E U D

    ral horror inspirado pelo cadaver e pelas alterações que
    logo se percebem nelle. A isso poderiamos accrescen-
    tar o luto, como motivo para tudo quanto tenha relação
    com o morto. Apenas o horror que o cadaver inspira
    não basta, certamente, para explicar todas as peculia-
    ridades das prescripções do tabú e o luto não explica
    claramente, por que razão a allusão ao morto possa
    constituir grave offensa para os sobreviventes. Os
    enlutados, ao contrario, gostam de occupar-se com o
    morto, apurar-lhe as recordações e conserval-as o ma-
    ximo de tempo possivel. Para as particularidades do
    tabú deve, pois, existir outra razão que o luto, alguma
    coisa que tenda, certamente, a outros fins que os men-
    cionados. São precisamente os tabús dos nomes que
    nos revelam esse motivo desconhecido; se não nol-o in-
    dicassem os costumes, bastariam para tanto as infor-
    mações dos selvagens em luto.

    Estes não usam de simulação alguma, quando têm
    medo da presença e da volta do espirito do defunto;
    recorrem a uma porção de cerimonias, para mantel-o
    a distancia e expulsal-o, (como exemplo cita Frazer
    (pag. 353) os Tuaregs do Sahára). Pronunciar o
    seu nome parece-lhes constituir uma evocação á qual se
    seguirá o apparecimento immediato do morto (Talvez
    convenha aqui a reserva seguinte: emquanto ainda
    existe alguma coisa dos seus restos mortaes. Frazer,
    pag. 372). Em consequencia disso fazem tudo, para
    evitar tal evocação e resurreição. Disfarçam as
    vestes para que o espirito não os conheça, (nas ilhas de

  • S.

    103

    TOTEM E TABÚ

    Nicobar, Frazer, pag. 382), alteram os proprios no-
    mes ou o delle; enfurecem-se contra o estrangeiro im-
    prudente que, pronunciando o nome do morto, lhe exci-
    ta o espirito contra os sobreviventes. E’ impossivel
    subtrahir-se ás consequencias que estes soffrem, pelo
    medo que lhes inspira, segundo a expressão de Wundt
    (“Religião e Mytho”, vol II, pag. 49) “a alma do de-
    funto convertida em demonio”.

    Accitando esta opinião, teriamos chegado á con-
    firmação do conceito de Wundt que, como já vimos,
    explica o tabú pelo temor aos demonios.

    A hypothese em que se basea essa theoria, de que a
    pessoa querida da familia se transforme desde o mo-
    mento da morte num demonio, do qual os sobreviventes
    só podem esperar actos de hostilidade e contra cujas
    más intenções é preciso precaver-se por todos os meios
    possiveis, – é tão singular que, antes de mais nada,
    não se lhe póde dar credito. Mas quasi todos os auto-
    res competentes estão de accordo em attribuir aos pri-
    mitivos esse conceito. Westermarck que, a meu
    ver, na sua obra “Origem e desenvolvimento das idéas
    moraes” concede ao tabú uma importancia por demais
    escassa, diz textualmente no capitulo “O comporta-
    mento para com os mortos”: “Os factos que conheço
    me autorizam a formular a conclusão geral que os
    mortos são considerados mais vezes inimigos do que
    amigos e que Jevons e Grant Allen se
    equivocam quando affirmam que, antigamente, se acre-
    ditava que, em regra, os mortos só mostrassem má von-
     

  • S.

    104

    tade para com os estranhos, velando, ao contrario, pa-
    ternalmente pela vida e bem-estar dos seus descenden-
    tes e companheiros de clan” (1).

    R. Kleinpaul aproveitou no seu impressio-
    nante livro os restos das antigas crenças sobre a alma
    entre os povos civilizados para uma exposição das rela-
    ções entre os vivos e mortos. Conclue tambem pela
    convicção de que os mortos, sedentos de morte, attra-
    hem os vivos após si. Os mortos matam; o esqueleto
    com que hoje a morte é representada, exprime bem que
    a morte tambem não passa de um morto. Um vivo não
    se sente seguro da perseguição de um morto, emquanto
    não conseguir que um trecho de agua os separe. Por
    isso os mortos eram enterrados nas ilhas ou transpor-
    tados para a outra margem dos rios; as expressões
    “além” e “aquem” (Diesseits, Jenseits) tem origem
    nesses costumes. Uma atenuação ulterior limitou a
    malquerença dos mortos áquellas categorias para as
    quaes era mistér reconhecer certo direito ao rancor,


    (1) Westermarck, vol. II. pag. 424. Quer a nota
    quer a sequencia do texto, contêm numerosos testemunhos, ás ve-
    zes muito caracteristicos, assim p. ex.: Os Maoris acreditam que
    “os parentes mais proximos e amados alteram a sua natureza, depois
    da morte e se tornam malevolos, até mesmo para aquelles a quem
    preferiam”. Os negros australianos crêm que os mortos são ma-
    leficos durante muito tempo; quanto mais proximo o parentesco,
    tanto maior o medo. Os esquimós centraes possuem a convicção
    de que os mortos muito tarde se acalmam sendo, de principio, temi-
    dos como espiritos malfeitores que vagam, frequentemente, em redor
    da aldeia, semeando a doença, a morte e outras calamidades
    ( Boas ).

  • S.

    105

    isto é, aos assassinados que perseguem os seus assassi-
    nos ou aquelles que morrem sem ter satisfeito os seus
    desejos, como os noivos. Mas primitivamente, pensa
    Kleinpaul, todos os mortos eram vampiros, todos odia-
    vam os vivos e tratavam de prejudical-os para roubar-
    lhes a vida. O cadaver é que proporcionou, primitiva-
    mente, a noção de um máu espirito.

    A hypothese de que os mortos mais queridos se
    convertem, depois da morte, em demonios, permitte-
    nos, naturalmente, uma outra questão. Que razão mo-
    veu os primitivos a attribuir aos seus caros mortos uma
    transformação affectiva desta especie? Por que os
    fizeram demonios? Westermarck pensa que não é
    difficil responder á pergunta: “Sendo a morte a maior
    desgraça que póde cahir sobre um homem, julgam que
    os mortos devem ficar descontentissimos com a sua
    sorte. Conforme a concepção dos selvagens, só se
    morre por homicidio, realizado ou por violencia ou por
    magia; e já por isso se concebe a alma como cheia de
    irritação e avida de vingança; presume-se o morto com
    inveja aos vivos e saudades da companhia dos antigos
    parentes – é pois comprehensivel que trate de matal-os,
    por doenças, para se verem novamente, reunidos…
    “Ainda outra explicação da maldade attribuida ás
    almas consiste no medo instinctivo que ellas inspiram,
    medo que, por sua vez, deriva do temor ante a morte.”

    O estudo das perturbações psychoneuroticas nos
    indica uma explicação mais ampla, englobando tambem
    a de Westermarck.

  • S.

    106

    SIG. FREUD

    Quando uma mulher perde o marido, ou uma filha
    a mãe, succede com frequencia que se tornem presa de
    penosas duvidas que qualificamos de “accusações ob-
    sidentes” sobre se não haveriam contribuido por alguma
    negligencia ou imprudencia para a morte da pessoa
    amada. Nem a recordação de ter assistido o enfermo
    com a maior solicitude, nem os argumentos objectivos,
    contrarios á culpa imputada, podem pôr um fim a taes
    tormentos que constituem, de certo modo, a expressão
    pathologica de um luto e com o tempo se vão desvane-
    cendo. A investigação psychanalytica desses casos
    nos revelou as razões secretas desses soffrimentos. Des-
    cobrimos que taes accusações obsidentes até certo ponto
    estão justificadas, o que lhes permitte resistir victorio-
    samente a todas as objecções e protestos. Não que o
    individuo enlutado fosse, de facto, culpado da morte ou
    que tivesse havido, de facto, negligencia, como o affir-
    ma a accusação obsidente; mas é que nelle preexistia
    alguma coisa, um desejo inconsciente para elle mesmo e
    que, não insatisfeito com a morte, tel-a-ia causado se
    dispuzesse de tal poder.Contra esse desejo inconsciente
    reage a accusação, depois da morte da pessoa querida.
    Em quasi todos os casos de intensa fixação do senti-
    mento em determinada pessoa, encontramos tal hostili-
    dade occulta no inconsciente, por detraz de um terno
    amor o que é o caso classico, o prototypo da ambiva-
    lencia da affectividade humana. Essa ambivalencia é
    mais ou menos accentuada, conforme os individuos;
    normalmente não costuma ser tão forte que provoque as

  • S.

    107

    accusações obsidentes de que tratamos. Mas nos casos
    mais accentuados, manifesta-se exactamente nas rela-
    ções do sujeito com as pessoas que lhe são mais que-
    ridas e onde menos tal fôra de esperar. A disposição
    da neurose coacta que tantas vezes nos tem servido para
    comparação, na questão do tabú, parece-nos caracteri-
    zada por uma somma particularmente elevada de taes am-
    bivalencias affectivas originarias.

    Conhecemos, pois, a circumstancia que nos póde ex-
    plicar o pretenso demonismo das almas dos mortos,
    como a necessidade da defesa contra a sua hostilidade,
    pelas normas do tabú. Se admittirmos que a vida affe-
    ctiva dos primitivos admitte uma somma de ambivalen-
    cias, analoga áquella que a investigação psychanalytica
    attribue aos neuroticos coactos, poderemos comprehen-
    der que, depois de uma perda dolorosa, se torne neces-
    saria uma reacção contra a hostilidade latente no seu
    inconsciente, tal como a exprimem as accusações obsi-
    dentes. Essa hostilidade penosamente soffrida no in-
    consciente, como satisfação após o caso de morte, alcan-
    ça porém, no primitivo, um destino differente: soffre
    resistencia, deslocando-se para o objecto da hostilidade,
    isto é, para o morto. A esse processo de defesa, mui-
    to frequente, tanto na vida psychica normal, como na
    morbida, chamamos nós projecção. O sobre-
    vivente nega ter jámais experimentado sentimentos hos-
    tis para com o querido morto; a alma deste, porém, é
    que alimenta taes sentimentos e tratará de proval-os,
    durante todo o tempo de luto. O caracter de castigo

  • S.

    108

    e arrependimento dessa reacção affectiva manifestar-
    se-ha, apesar de conseguida a defesa pela projecção, de
    modo tal, que o individuo tem medo, impõe renuncias a
    si proprio e submette-se a restricções, que, ficam, em
    parte, disfarçadas sob a fórma de medidas de prote-
    cção contra o demonio hostil. Descobrimos, pois, mais
    uma vez que o tabú nasceu no terreno de uma represen-
    tação affectiva ambivalente. Tambem o tabú dos mor-
    tos deriva de uma opposição entre a dor consciente e a
    satisfacção inconsciente, occasionada pela morte. Dada
    essa origem á colera dos espiritos, póde-se comprehen-
    der que sejam exactamente os sobreviventes mais pro-
    ximos e mais amados os que mais hajam de temel-o.

    As prescripções tabús apresentam-se aqui, como
    os symptomas neuroticos, dissociadamente. De um lado
    pelo seu caracter exprimem o luto como uma série de
    restricções, por outro deixam transparecer muito cla-
    ramente o que querem esconder, isto é, a hostilidade
    para com o morto, o que passa a ser levado á conta de
    legitima defesa. Certa parte das prohibições do tabú,
    chegamos a compreendel-as como angustias da tenta-
    ção: o morto é indefeso e isso deve incitar á satisfacção
    do sentimento de hostilidade; e a essa tentação deve ser
    opposta a prohibição.

    Mas Westermarck tem razão, quando
    affirma que, no conceito dos selvagens, não existe diffe-
    rença entre a morte violenta e a morte natural. Para
    o pensamento inconsciente, aquelle que teve morte na-
    tural é tambem assassinado; mataram-no os mãos de-
     

  • S.

    109

    T O T E M E T A B Ú

    sejos. (Veja-se o ensaio seguinte desta série: ani-
    mismo, magia e omnipotencia das idéas). Quem quer
    que se interesse pela origem e significação dos sonhos
    referentes á morte de parentes queridos (paes e irmãos)
    poderá assegurar que o sonhador, a creança e o selva-
    gem se conduzem de maneira absolutamente identica
    para com o morto, em virtude da ambivalencia affecti-
    va que lhes é commum.

    Ha pouco nos declarámos contrarios áquelle con-
    ceito de Wundt que encontra a essencia do tabú
    no medo aos demonios; e apesar disso, concordamos
    agora mesmo com a idéa de que o tabú dos mortos se
    refira ao medo ante a alma do defunto, transforma-
    da em demonio. Parece uma contradicção; mas não
    nos seria difficil esclarecel-a Acceitámos a concepção
    dos demonios mas não como ultima instancia e algo de
    irreductivel para a psychologia. Penetrámos mais
    além dos demonios, concebendo-os como projecções dos
    sentimentos hostis que os sobreviventes nutrem contra
    os mortos.

    Os sentimentos que, segundo o nosso conceito bem
    fundamentado, são dissociados – carinhosos e hostis, ao
    mesmo tempo – querem manifestar-se de ambas as
    fórmas no momento da perda, quer como luto, quer
    como satisfacção. Entre esses dois adversarios tem
    que travar-se o conflicto e como um delles, a hostilidade,
    é inconsciente de todo ou em parte, não se póde o con-
    flicto resolver por uma subtracção das duas intensida-
    des com acceitação consciente da differença, como na-
     

  • S.

    110

    quelles casos em que perdoamos a uma pessoa querida
    o aggravo que nos fez. O processo resolve-se antes
    por um mecanismo psycho particular que se designa,
    habitualmente, em psychanalyse, como projec-
    ção. A hostilidade que ignoramos e queremos con-
    tinuar a ignorar, é projectada, da percepção interna so-
    bre o mundo exterior e, ao mesmo tempo, desligada da
    propria pessoa e attribuida a outra. Agora não esta-
    mos mais nós, os sobreviventes, satisfeitos por nos
    vermos desembaraçados do morto; não, choramos a sua
    morte; mas, de um modo estranho tornou-se elle um
    mão demonio a quem satisfaria a nossa propria des-
    graça e que intenta trazer-nos a morte. Os sobreviven-
    tes têm, pois, de defender-se desse mão inimigo; estão
    livres de uma oppressão interna, mas apenas trocaram-
    na por uma coerção de origem externa.

    Não podemos negar que esse phenomeno da pro-
    jecção que transforma o morto em inimigo malefico,
    encontra apoio nas hostilidades reaes que ainda são
    lembradas e das quaes podiam com acerto accusal-o os
    sobreviventes. Assim seriam a sua severidade, tiran-
    nia, injustiça e tudo mais quanto fôrma os fundamen-
    tos, até mesmo das relações mais carinhosas entre hu-
    manos. Mas não póde ser tão simples o phenomeno
    que baste esse factor para fazer-nos comprehender a
    creação de demonios pelo processo da projecção. As
    faltas do defunto pódem de certo explicar, em parte, a
    hostilidade dos sobreviventes, mas seriam inefficazes
    se os ultimos não desenvolvessem essa hostilidade por

  • S.

    111

    si proprios; e o momento da morte seria de certo a
    opportunidade menos adequada para evocar a recorda-
    ção das accusações que os vivos tivessem direito de fa-
    zer-lhe. Não podemos, pois, deixar de ver na hosti-
    lidade inconsciente o motivo regularmente efficiente e
    propriamente estimulante. Essa corrente hostil para
    com os parentes mais proximos e queridos podia muito
    bem permanecer latente durante a sua vida, quer dizer,
    não revelar-se á consciencia directa nem indirectamen-
    te, por alguma imagem substitutiva. Pelo fallecimen-
    to das pessoas queridas e odiadas, ao mesmo tempo,
    isso não fôra mais possivel e o conflicto se tornaria
    agudo. A dôr nascida de uma ternura exaggerada
    seria, por um lado impiedosa para com a hostilidade la-
    tente e não poderia, por outro, admittir que essa hosti-
    lidade engendrasse apenas um sentimento de satisfacção.
    Deste modo constitue-se o recalcamento da hostilidade’
    inconsciente por meio de projecção e surge o cerimo-
    nial em que se exterioriza o pavor do castigo por parte
    dos demonios. A medida que passa o tempo de luto,
    perde o conflicto cada vez mais a sua intensidade e o
    tabú desses mortos se vae enfraquecendo ou chega a
    afundar-se no esquecimento.

  • S.

    [object Object]

  • S.

    113

    4.

    Depois de termos estudado o terreno sobre o qual
    se edificou o ademais instructivo tabú dos mortos, não
    podemos de deixar de accrescentar algumas observa-
    ções que podem ser grandemente significativas para a
    comprehensão do tabú em geral.

    A projecção da hostilidade inconsciente sobre os
    demonios, que caracteriza o tabú dos mortos, é apenas
    um exemplo de uma serie de processos a que temos que
    attribuir grande influencia na formação da vida psy-
    chica primitiva. No caso que apreciamos, a projecção
    serve para resolver um conflicto affectivo; ella encon-
    tra a mesma applicação em grande numero de situa-
    ções psychicas que conduzem á neurose. Mas a pro-
    jecção não é realizada para defesa; podemos obser-
    val-a mesmo em casos em que não existe conflicto. A
    projecção de percepções internas para o exterior é um
    mecanismo primitivo, ao qual tambem estão sujeitas,
    p. ex. as nossas percepções sensoriaes e que, portanto,
    desempenham um papel capital na conceituação do

  • S.

    114

    nosso mundo exterior. Em condições ainda insuffici-
    entemente estabelecidas, quer as percepções internas,
    de processos affectivos e ideativos, quer as percepções
    sensoriaes são projectadas de dentro para fóra e utili-
    zadas para a conceituação do mundo exterior, quando
    deveriam permanecer na do mundo interior. Do ponto
    de vista genetico isso se explica pelo facto de que, pri-
    mitivamente, a funcção de attenção não era applicada
    ao mundo interior, mas sim aos estimulos provenientes
    do exterior e recebia dos processos endopsychicos só-
    mente os avisos referentes ao desenvolvimento do prazer
    e desprazer. Sómente com a formação de uma lingua-
    gem abstracta, pelo entrelaçamento dos residuos senso-
    riaes das representações verbaes aos processos inter-
    nos, chegaram estes, pouco a pouco, a tornar-se perce-
    ptiveis. Até então haviam desenvolvido os homens pri-
    mitivos uma imagem do mundo exterior pela projecção
    das percepções internas sobre o ambiente, imagem que
    a nossa percepção consciente mais avigorada agora per-
    mitte referir a um conceito psychologico.

    A projecção das proprias tendencias malignas so-
    bre os demonios formam apenas uma parte de um sys-
    tema que veio a ser a “concepção do mundo” (Weltans-
    chauung) do primitivo e que nos capitulos seguintes
    conheceremos como “animista”. Teremos então fi-
    xado os caracteres psychologicos deste systema em cuja
    analyse voltaremos a encontrar o nosso ponto de apoio
    que nos levará ao encontro das neuroses. Por emquan-
    to nos limitaremos a indicar que o processo conhecido-
     

  • S.

    115

    TOTEM E TABÚ

    sob o nome de “elaboração secundaria” do conteúdo dos
    sonhos, constitue o prototypo para a formação de todos
    os systemas. Não devemos esquecer que a partir do
    momento da formação do systema temos duas directi-
    vas para todo acto submettido ao juizo da consciencia:
    a systematica e a real, mas inconsciente (1).

    Wundt (“Mythus und Religion, II, pag. 129)
    faz notar que “entre os effeitos que os mythos de todos
    os povos attribuem aos demonios, predominam os
    maleficos, de maneira que nas crenças dos po-
    vos, os demonios mãos são sensivelmente mais melhos do
    que os bons.” E’ pois muito possivel que a idéa de de-
    monio tenha as suas origens principalmente nas rela-
    ções para com os mortos. A ambivalencia inherente
    a estas relações se manifesta no percurso ulterior do
    desenvolvimento humano, de maneira que, do mesmo
    tronco surgiram duas formações psychicas inteiramen-
    te contrarias: o temor aos demonios e aos phantasmas,
    de um lado, e o culto dos antepassados, do outro (1).
    A influencia exercida pelo luto sobre a formação da


    (1)A’ creações projectivas dos primitivos estão, perto as per-
    sonificações, por meio das quaes o poeta exterioriza, sob a fórma de
    individualidades autonomas, as tendencias oppostos que lutam em
    sua alma.

    (1)Nas psychanalyse das pessoas neuroticas que soffrem, ou
    soffreram, na infancia do medo de phantasmas, acontece com fre-
    quencia descobrir-se, sem difficuldade, que taes phantasmas eram os
    paes. Confrontar, a esse respeito, a communicação intitulada “Phan-
    tasmas sexuaes” de P. Haeberlin (Problemas sexuaes,
    Fevereiro 1912) em que se trata de outra pessoa de attributos eroti-
    cos, já sendo morto o pae).

  • S.

    116

    crença nos demonios, é confirmada, antes de mais nada,
    pelo facto de serem estes concebidos sempre como espi-
    ritos de pessoas recentemente fallecidas. O
    luto tem que desempenhar uma missão psychica defini-
    da, que consiste em desligar dos mortos as recordações
    e as espectativas dos sobreviventes. Feito esse traba-
    lho, a dor diminue e com ella os remorsos e as repre-
    hensões e, em consequencia disso, tambem o medo ao
    demonio. Então, aquelles mesmos espiritos que eram
    temidos como demonios, convertem-se em objectos de
    sentimentos mais amistosos, sendo venerados como an-
    tepassados, cujo auxilio se passa a invocar.

    Seguindo através dos tempos a evolução das rela-
    ções entre os vivos e os mortos, verificaremos que a
    sua ambivalencia diminuiu consideravelmente. E' fa-
    cil reprimir, actualmente, sem grandes esforços psychi-
    cos, a inconsciente hostilidade, ainda subsistente, para
    com os mortos. Onde antigamente existiam em luta
    um odio satisfeito e uma ternura dolorida, eleva-se,
    hoje, como uma formação cicatricial, a piedade e exige:
    de mortuis nil nisi bene. Só os neuroticos perturbam
    ainda a dor que lhes causa a perda de um caro, com
    accessos de accusações obsidentes, que durante a psy-
    chanalyse, trahem o segredo da ambivalencia affectiva
    de outros tempos. Que caminhos seguiu essa evolução,
    que interferencia podiam ter tido nella possiveis trans-
    formações constitucionaes e a real melhora das rela-
    ções familiares — não são questões para ser versadas
    aqui. Mas poderiamos, mercê desse exemplo, admittir

  • S.

    117

    Totem e Tabú

    que na vida psychica do primitivo
    existe a ambivalencia em gráo
    muitissimo maior do que se possa
    descobrir no homem civilizado de
    nossos dias. Com a diminuição
    dessa ambivalencia desapparece,
    tambem, lentamente, o tabú, sym-
    ptoma de compromisso do confli-
    cto de ambivalencia. Quanto aos neuro-
    ticos que se vêem obrigados a reproduzir essa luta e o
    tabú que della resulta, diriamos que nasceram com uma
    constituição archaica, como sobrevivencia atávica, cuja
    compensação, imposta pelas conveniencias da vida civi-
    lizada, os fôrça a enorme gasto psycho.

    Recordamo-nos, neste ponto, das indicações con-
    fusas e obscuras que Wundt nos impoz sobre a
    dupla significação da palavra tabú: sagrado e impuro.
    Primitivamente a palavra tabú não teria significado o
    sagrado nem o impuro, mas simplesmente o demoniaco,
    o que se não deve tocar; e, deste modo, faz resaltar um
    caracter importante commum ás duas noções, o que
    provaria que entre o impuro e o sagrado existiu, no
    principio, uma coincidencia que sómente mais tarde ce-
    deu logar á uma differenciação.

    Em opposição a isso deduzimos das nossas pes-
    quizas, sem grande esforço, que a palavra tabú repre-
    sentou, desde o principio, a dupla significação citada,
    servindo para designar determinada ambivalencia
    e tudo aquillo que no terreno de tal ambivalencia se hou-
     

  • S.

    118

    Sig. Freud

    vesse desenvolvido. Tabú é mesmo uma palavra ambi-
    valente e podemos accrescentar que apenas pelo sentido
    exacto dessa palavra, se poderia ter decifrado tudo
    quanto veio a demandar investigações demoradas, a sa-
    ber, que a prohibição inherente ao tabú deve ser concebi-
    da como o resultado de uma ambivalencia affectiva. O
    estudo dos idiomas mais antigos nos ensina que existiam
    muitas dessas palavras que encerravam noções oppostas
    e que eram ambivalentes em certo sentido, embora não
    de todo no mesmo sentido que a palavra tabú. Peque-
    nas modificações phoneticas da primitiva palavra de
    dois sentidos, serviram mais tarde para dar expressão
    linguistica distincta a cada uma das significações an-
    tinomicas até então reunidas. (Veja-se minha critica
    da obra de Abel “Gegensinn der Urworte” no
    “Jahrbuch f. psychoanalytische und psychopathologis-
    che, Forschungen, tomo 2º, 1910).

    A palavra tabú teve uma outra sorte; com a
    importancia decrescente da ambivalencia que ella si-
    gnifica, não só essa palavra, como todas as outras ana-
    logas desappareceram do vocabulo. Espero mais
    adeante poder mostrar, como verosimil, que os destinos
    dessa noção escondam uma sensivel transformação his-
    torica e que a palavra tabú, usada primeiramente para
    designar relações humanas, perfeitamente definidas e
    caracterizadas por grande ambivalencia affectiva, te-
    nha chegado a estender-se, mais tarde, á designação de
    outras relações analogas.

    Se não estamos enganados, o conhecimento do tabú

  • S.

    119

    projecta tambem certa luz sobre a natureza e origem
    da consciencia moral. Sem violar os
    conceitos, podemos falar de uma consciencia moral do
    tabú e de um sentimento de culpa do tabú, resultantes
    ambas da transgressão de um tabú. A consciencia
    moral do tabú constitue, provavelmente, a fórma mais
    antiga em que encontramos o phenomeno da conscien-
    cia moral (1).


    (1) Difficil é a traducção, neste passo. Duas palavras alle-
    mãs traduzem o vocabulo portuguez “consciencia”; são ellas “Ge-
    wissen” e “Bewusstsein”. A primeira corresponde á noção philoso-
    phica antiga. Os classicos chamavam “consciencia” a percepção
    interna, isto é, a percepção dos factos subjectivos, do dominio da
    alma espiritual e immortal. Dahi as expressões correntes “homem
    sem consciencia”, por “homem sem escrupulos”, ou “tenha conscien-
    cia do mal que vae fazer” ou ainda “ter consciencia dos seus actos”, etc.

    Algumas dessas locuções se prendem ao dominio moral, envol-
    vem a noção do bem e do mal: é ao que se chamava conscien-
    cia moral e é quasi a accepção unica em que os allemães
    empregam a palavra Gewissen.

    Bewusstsein tem expressão menos espiritualistica e não in-
    clue noção moral. Significa uma possibilidade de formar imagem
    com o estimulo que determinou a percepção ou a faculdade de per-
    ceber como imagem as representações que são factos internos.
    Freud emprega essa palavra em contraposição a Unbewusste, o
    inconsciente; a nomenclatura da Sociedade Brasileira de
    Psychanalyse traduziu aquella por o consciente.

    A palavra Gewissen entrou para a linguagem vulgar, como en-
    tre nós consciencia; é nesse sentido classico-vulgar que
    o autor a emprega; o vulgo dá-lhe principalmente a accepção de
    consciencia moral, ali, como aqui. Em allemão, a palavra remor-
    so se diz Gewissenbiss, o que etymologicamente quer dizer mor-
    dedura da consciencia; tambem remorso é
    mordedura repetida, continua e a expressão remorso da
    consciencia não nos é estranha.

  • S.

    120

    Sig. Freud

    A consciencia moral é a percepção interna da re-
    pulsa de determinados estimulos volitivos que existem
    dentro de nós: a sua particular caracteristica é que essa
    repulsa não tem necessidade de invocar razões e pos-
    sue uma plena certeza de si mesma. Este caracter tor-
    na-se mais claro no sentimento de culpa, na percepção
    da condemnação interna daquelles actos, por meio dos
    quaes executámos os determinados desejos. Parece-
    nos superflua qualquer fundamentação: todo aquelle
    que possue uma consciencia moral deve, em si mesmo,
    a justificação da dita condemnação e a reprehensão pelo
    acto executado. Isso caracteriza precisamente a atti-
    tude do selvagem em relação ao tabú: o tabú é um
    mandamento de sua consciencia moral, a transgressão
    determina um pavoroso sentimento de culpa, tão com-
    prehensivel quanto desconhecido em sua origem(1).

    Assim pois a consciencia moral tambem nasce de
    uma ambivalencia affectiva inherente a determinadas
    relações humanas e tem como condição aquella mesma


    O traductor verteu Gewissen por consciencia moral ou sim-
    plesmente consciencia; nem sempre isso traduz bem o
    pensamento do autor, que chega mesmo a fazer jogo de palavras
    impossivel de reproduzir. E' o caso de appellar para a benevolen-
    cia e para a... consciencia do amavel leitor. J. P. Porto
    Carrero.

    (1)E' interessante o parallelo: o sentimento de culpa do tabú
    em nada diminue, ainda mesmo no caso em que a transgressão se
    tenha dado inconscientemente; tambem no mytho grego, a culpa
    de Edipo, em nada se reduz, apesar de que fôra adquirida até contra
    a sua sciencia e vontade.

  • S.

    TOTEM E TABU

     que assignalamos no tabú e na neurose coacta, isto é,
    que um dos termos da antinomia permaneça inconscien-
    te e fique recalcado pela coacção dominante do outro.
    Esta conclusão fica confirmada por um grande nume-
    ro de dados que a analyse da neurose nos proporcio-
    na. Vimos, em primeiro logar, que no caracter do
    neurotico coacto, a investida dos escrupulos penosos ap-
    parece como symptoma da reacção á tentação que o
    espreita no inconsciente e que, á medida que a doença
    se aggrava, a consciencia da culpa se desenvolve até o
    mais alto gráo. Podemos ousar a affirmação de que
    se não nos fôr possivel descobrir a origem do sentimen-
    to de culpa pela analyse do doente coacto, não devemos
    esperar descobri-la por outro meio. A solução deste
    problema convem ao caso isolado do individuo neuro-
    tico; quanto aos povos, esperamos chegar a resultado
    semelhante.

     Em segundo logar devemos notar que o sen-
    timento de culpa tem muita coisa da natureza da an-
    gustia: podemos descrevel-o, sem vacillar, como uma
    “angustia de consciencia”. Sabemos, porém, que a an-
    gustia nasce no inconsciente; a psychologia das neuro-
    ses ensinou-nos que, quando se dá o recalcamento de
    desejos, a libido dos mesmos se transforma em angus-
    tia. A proposito disso recordaremos que no sentimen-
    to de culpa existe algo de desconhecido e inconsciente,
    isto é, o motivo da accusação. A esse desconhecido cor-
    responde o caracter angustioso do sentimento de culpa.

     Dado que o tabú se manifesta, principalmente, por

    — 121 —

  • S.

    122

    prohibições, poderiamos suppor, sem necessidade de
    procurar mais confirmações na analogia com a neuro-
    se, que elle tenha sua base em correntes positivas im-
    periosas. Aquillo que ninguem pretende fazer não é
    necessario prohibil-o, mas ao contrario, aquillo que é
    mais expressamente prohibido, vem a ser objecto de
    premente desejo. Se applicarmos aos nossos primiti-
    vos essa phrase tão plausivel, teremos que concluir que
    entre as suas tentações mais fortes está a de matar os
    seus reis e sacerdotes, commetter incestos, maltratar os
    mortos etc. Isso nos parece pouco verosimil e mos-
    tra-se-nos totalmente absurdo quando o applicamos
    a casos em que nós julgamos ouvir claramente a voz da
    nossa consciencia moral. Nesses casos, affirmamos
    logo, com uma certeza inquebrantavel, que não expe-
    rimentamos a menor tentação de transgredir manda-
    mentos como p. ex.: o de “não matarás” e que a idéa de
    uma semelhante transgressão só nos inspira horror.

    Se concedemos a esse testemunho de nossa con-
    sciencia a significação a que aspira, toda a prohibi-
    ção – o tabú como a nossa prohibição moral – tornar-
    se-ha superflua e, de outro lado, fica inexplicado o fa-
    cto da consciencia e desapparecem as relações entre
    consciencia, tabú e neurose; deste modo fica restaura-
    da aquella condição do nosso conhecimento que ainda
    hoje subsiste, emquanto não applicamos ao problema os
    pontos de vista da psychanalyse.

    Mas se levarmos em conta um dos factos verifica-
    dos pela psychanalyse nos sonhos da gente sã, que a

  • S.

    123

    tentação de matar é mais forte e frequente em nós do que
    o julgamos e que se manifesta por effeitos psychicos,
    ainda quando escapa ao nosso consciente; se reconhe-
    cermos, ainda mais, que as prohibições obsidentes de
    determinados neuroticos não passam de precauções e
    auto-punições contra o impulso avigorado de matar,
    então chegaremos de novo á phrase, ha pouco citada:
    onde quer que exista uma prohibição, deve existir
    desejo occulto e prompto a voltar em outras imposi-
    ções. Admittiremos que este desejo de matar real-
    mente existe no inconsciente e que o tabú, como o man-
    damento moral, não é psychologicamente superfluo, mas
    ao contrario, se explica e justifica, por uma attitude
    ambivalente contra o impulso homicida.

    O caracter, tantas vezes apontado como fundamen-
    tal, dessa relação ambivalente, isto é, que a corrente
    positiva do desejo é inconsciente, nos faz entrever no-
    vas connexões e novas possibilidades de explicação. Os
    processos psychicos do inconsciente, longe de serem
    completamente identicos aos que conhecemos da nossa
    vida consciente, gozam de determinadas liberdades,
    dignas de nota e que escapam a estes ultimos. Um im-
    pulso inconsciente não precisa de ter surgido precisa-
    mente onde o encontramos exteriorizado; póde origi-
    nar-se de um ponto completamente distincto, ter recahi-
    do, a principio, sobre outras pessoas e outras relações
    pelo mecanismo do deslocamento, vir a ma-
    nifestar-se onde vamos percebei-o. Dada a indestru-
    ctibilidade e incorrigibilidade dos processos inconscien-

  • S.

    124

    tes, póde o impulso ter-se transportado, de uma época
    remota a qual se tinha adaptado, para épocas e outras
    circumstancias ulteriores, nas quaes a sua interioriza-
    ção póde parecer estranha. Tudo isso são apenas indi-
    cações, cujo desenvolvimento cuidadoso mostrará quão
    importantes pódem ser para a comprehensão do desen-
    volvimento cultural.

    Para concluir estas considerações, não queremos
    perder a opportunidade de mencionar uma observação,
    que nos vae preparar para uma investigação ulterior.
    Sem deixar de affirmar a identidade entre a natureza
    da prohibição tabú e a do mandamento moral, não que-
    remos contestar que entre os dois deve existir uma di-
    versidade psychologica. Se o mandamento moral já
    não apparece mais sob a fórma do tabú, é isso de-
    vido unicamente á uma alteração das condições da am-
    bivalencia basica.

    Até agora deixámo-nos guiar na apreciação psy-
    chanalytica dos phenomenos tabús, pela analogia pro-
    vada entre estes e a neurose coacta; mas o tabú não
    é uma neurose e sim uma formação social; assim,
    pois, nos cabe o dever de indicar em que consiste a dif-
    ferença entre a neurose e uma formação cultural como
    o tabú.

    De novo tomarei como ponto de partida um unico
    facto. Os primitivos, transgredindo um tabú ,receiam
    um castigo, na maioria dos casos uma grave enfermi-
    dade ou a morte. Esse castigo ameaça aquelle que é
    culpado da transgressão. Na neurose coacta o caso é

  • S.

    125

    TOTEM E TABÚ

    differente. Quando o enfermo tem de levar a cabo
    algo de prohibido, receia o castigo, não para si mes-
    mo, mas para outra pessoa que, na maioria dos casos,
    é indeterminada, mas que na analyse revela ser uma
    daquellas que são das mais proximas e queridas. Neste
    caso o neurotico nos apparece como altruista, o primi-
    tivo como egoista. Só quando a transgressão de um
    tabú não é punida automaticamente sobre o transgres-
    sor, é que se desperta nos selvagens um sentimento col-
    lectivo de que os ameaça um perigo por causa do crime
    e se apressam a pôr em pratica o castigo que deixara de
    ser applicado. Não nos será difficil explicar o meca-
    nismo de tal solidariedade. Está aqui em jogo o medo
    do exemplo contagioso, da tentação para a imitação e,
    portanto, o medo á infecciosidade, do tabú. Quando
    um individuo conseguiu satisfazer um desejo recalca-
    do, todos os demais membros da collectividade hão de
    experimentar o desejo de fazer o mesmo; para repri-
    mir essa tentação, é necessario matar aquelle que é in-
    vejado em razão do fruto da sua audacia; e succede,
    não raro, que o proprio castigo proporciona aos que o
    impõem, occasião de commetter, por sua vez, o mesmo
    acto impuro, criminoso, sob a desculpa da expiação. E'
    este um dos principios fundamentaes da ordem penal
    humana e tem como certamente justo o presupposto da
    identidade dos desejos prohibidos do criminoso e os
    da sociedade vingada.

    A psychanalyse confirma aqui a opinião dos pie-
    dosos de que todos somos grandes peccadores. Como

  • S.

    126

    explicaremos agora esta inesperada nobreza do neuro-
    tico que nada teme para si e tudo para uma pessoa ama-
    da? O exame analytico nos mostra que o facto não
    é primario. Primitivamente, isto é, no principio da
    doença o paciente temia, como o selvagem, a ameaça do
    castigo para si mesmo; temia por sua propria vida em
    todos os casos; sómente mais tarde foi deslocada a an-
    gustia de morte sobre outras pessoas. Como base da
    prohibição temos, geralmente, um máo desejo – um
    desejo de morte – contra uma pessoa amada. Este é
    recalcado por uma prohibição; a prohibição fica ligada
    a determinado acto que substitue, mais ou menos, por
    deslocamento, o acto hostil contra a pessoa amada e á
    execução desse acto ameaça com pena de morte. Mas
    o processo para por um desenvolvimento ulterior e o
    desejo de morte contra a pessoa amada é substituido
    pelo temor de vel-a morta. Assim pois, ao offerecer-
    nos a prova de tal altruismo carinhoso, a neurose apenas
    compensa a sua attitude basica contraria, que é
    a de um brutal egoismo. Chamando sociaes
    áquelles sentimentos determinados pelo respeito a ou-
    tras pessoas e que não as tomem, propriamente, como
    objecto sexual, podemos deduzir que o apagamento des-
    ses factores sociaes é um traço fundamental da neuro-
    se, encoberto, mais tarde, por uma supercompensação.

    Sem nos estendermos sobre a origem destas ten-
    dencias sociaes e sobre as suas relações com os demais
    impulsos fundamentaes do homem, queremos fazer re-
    saltar, apoiando-nos em exemplos, o segundo caracter

  • S.

    127

    Totem e Tabú

    fundamental da neurose. Na sua fórma apparente, os
    tabú apresenta a maxima semelhança com a “angustia
    de contacto” dos neuroticos, o délire de toucher. Nes-
    sa neurose trata-se, por via de regras, de prohibição
    de contactos sexuaes; e a psychanalyse já provou de
    modo geral que as forças impulsivas, derivadas e des-
    locadas para a neurose, são de origem sexual. No tabú,
    evidentemente, o contacto prohibido não tem apenas si-
    gnificação sexual, antes encerra muito mais, os concei-
    tos mais geraes de aggredir, apoderar-se, fazer valer
    a propria pessoa. Com a interdicção de tocar no chefe ou
    em tudo quanto esteve em contacto com elle, intenta-
    se inhibir o impulso respectivo, que é manifestado em
    outras occasiões, pela vexatoria vigilancia a que é su-
    jeito o chefe e tambem nos máos tratos corporaes que-
    lhe são infligidos antes da coroação. Vemos pois
    que o predominio dos impulsos se-
    xuaes sobre os sociaes constitue
    caracteristica da neurose. Mas os
    proprios impulsos sociaes nasceram, com unidades espe-
    ciaes, da concurrencia de componentes egoisticos e ero-
    ticos.

    O simples exemplo da comparação entre o tabú e a
    neurose coacta, revela as relações existentes entre as
    diversas fórmas da neurose e as formações sociaes e,
    ao mesmo tempo, a importancia que representa o estudo
    da psychologia da neurose para a intelligencia do des-
    envolvimento da civilização.

    As neuroses apresentam, por um lado, surprehen-
    dentes e profundas analogias com as grandes produ--

  • S.

    128

    cções sociaes da arte, da religião e da philosophia, por
    outro se nos apresentam como deformação das mesmas.
    Poder-se-ia ousar a expressão de que a hysteria seja
    a imagem deformada de uma obra de arte; a neurose
    coacta a de uma religião; o delirio paranoico a de um
    systema philosophico. Essa derivação nos leva, em
    ultima analyse, ao conceito de que as neuroses são for-
    mações associaes; ellas buscam, por meios particulares, o
    que a sociedade realiza por um trabalho collectivo. Ana-
    lysando os impulsos da neurose, reconhece-se que nesta
    as forças impulsivas, de origem sexual exercem influen-
    cia determinada, emquanto as formações culturaes cor-
    respondentes, repousam sobre impulsos sociaes nasci-
    dos de uma união de factores egoisticos e eroticos. A
    necessidade sexual não é capaz de unir os homens
    de maneira analoga á das necessidades da conservação;
    a satisfacção sexual é, antes de mais nada, uma ques-
    tão privada do individuo.

    Do ponto de vista genetico, a natureza associal da
    neurose deriva da sua tendencia originaria de fugir á
    realidade insatisfactoria, para refugiar-se num mundo
    de phantasia mais cheio de prazer. Neste mundo real, a
    que foge o neurotico, reina a sociedade humana com
    todas as instituições forjadas em commum; o voltar
    costas á realidade é, ao mesmo tempo, excluir-se da
    communidade humana.