Totem e Tabú1913-001/1934.pt
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    III

    ANIMISMO, MAGIA E OMNIPO-
    TENCIA DAS IDÉAS

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    [object Object]

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    1.

    Os trabalhos tendentes a applicar ás sciencias do
    espirito os pontos de vista da psychanalyse têm que
    padecer, inevitavelmente, de certa insufficiencia e pou-
    co podem offerecer ao leitor. Limitam-se, assim, ao
    caracter de incitamento; suggerem ao especialista con-
    ceitos que este possa tomar em consideração, no seu
    trabalho. Essa insufficiencia se notará, especialmente,
    num ensaio que pretende tratar daquelle enorme domi-
    nio a que chamamos animismo. 1)

    No sentido estricto da palavra, o animismo é a
    theoria das representações da alma; no sentido mais
    amplo, a dos seres espirituaes em geral. Distinguimos


    1) A necessidade de condensar o assumpto força-nos á re-
    nuncia á uma bibliographia detalhada. Limitar-nos-hemos ás referen-
    cias das conhecidas obras de Herbert Spencer, J. G. Fra-
    zer, A. Lang, E. B. Tylor e Wundt, nas quaes
    colhemos todas as affirmações sobre o animismo e a magia. A in-
    dependencia do autor se evidencia sómente na selecção do material
    e nas opiniões que expende.

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    além disso, o animismo, a doutrina da vifica-
    ção da natureza, apparentemente inanimada, no qual
    se classifica o animalismo e o manismo. O termo ani-
    mismo serviu antigamente para designar um determi-
    nado systema philosophico e parece ter recebido a sua
    significação actual de E. B. Tylor (1).

    O que provocou a creação desse termo foi o exa-
    me das interessantissimas concepções dos povos primiti-
    vos, prehistoricos ou contemporaneos, sobre a natureza
    e o mundo. Elles povoaram o mundo com uma infini-
    dade de seres espirituaes, beneficos ou maleficos; attri-
    buem a determinação dos phenomenos naturaes e taes
    espiritos e demonios e consideram animados por elles
    não sómente os animaes e plantas, mas tambem os obje-
    ctos inanimados. Um terceiro elemento e, talvez, mais
    importante dessa “philosophia natural” primitiva já
    nos parece menos singular, por isso que delle ainda não
    estamos bastante afastados, embora tenhamos muito
    limitado a existencia dos espiritos e embora explique-
    mos os processos naturaes pela admissão de forças phy-
    sicas impessoaes. Os primitivos, de facto, crêem, numa
    “animação” semelhante, dos seres humanos. Os indi-
    viduos possuem almas que podem abandonar a sua séde
    e transmigrar para outras pessoas; essas almas são por-
    tadoras das actividades espirituaes e são, até certo pon-
    to, independentes do corpo. A representação primiti-
    va das almas era muito semelhante á dos individuos e

    (1) E. B. Tylor – Primitive Culture, I. pag. 425, 3ª Edi-
    ção, 1903. Wundt, Mythus und Religion, II, pag. 173, 1906.

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    T O T E M E T A B Ú

    só depois de uma longa evolução ficaram ellas despo-
    jadas do caracter material, adquirindo um alto gráo de
    “espiritualização” (Wundt, op. cit., cap. IV, “Die Se-
    elenvorstellungen.

    A maioria dos autores está disposta a admittir que
    essas representações das almas constituem o nucleo ori-
    ginario do systema animista; que os espiritos corres-
    pondem a almas que se tornaram independentes e que
    as almas dos animaes, das plantas e dos objectos foram
    concebidas analogicamente ás almas humanas.

    Como chegaram os homens primitivos ás conce-
    pções fundamentaes, propriamente dualistas, sobre que
    repousa o systema animista? Suppõe-se que pela ob-
    servação do phenomeno do somno (com o sonho) e des-
    se outro tão semelhante, o da morte e pelo esforço para
    explicar taes estados, tão familiares a cada um. O pon-
    to de partida da formação dessa theoria devia ter sido,
    principalmente, o problema da morte. Para o primiti-
    vo, a continuação da vida — a immortalidade — seria
    o natural. A idéa da morte é alguma coisa mais tar-
    dia e só com difficuldade acceita; até para nós, ainda
    hoje, é vazia e irrealizavel. Sobre a participação que,
    na caracterização das bases da theoria animista, podem
    ter tido outras observações e experiencias, relativas ás
    imagens oniricas, sombras, miragens, etc., tem havido
    discussões muito vivas, mas que ainda não chegaram a
    qualquer conclusão. (1)


    (1) Veja-se sobre este assumpto, além dos trabalhos de Wundt
    e Spencer, os artigos correspondentes da Encyclopedia Britannica
    (Animism, Mythology etc. — 1911).

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    Sig. Freud

    Quando o primitivo reage, ante os phenomenos que
    lhe excitam a reflexão, com a formação das representa-
    ções da alma e as transfere sobre os objectos do mundo
    exterior, considera-se esse seu comportamento como
    muito natural e não mais enygmatico. Referindo-se ao
    facto de que nos povos mais diversos e em todas as
    épocas coincide a existencia das mesmas representações
    animisticas, Wundt diz (loc. cit. pag. 154) que estas
    “são o producto psychologico necessario da consciencia
    creadora dos mythos e que o animismo primitivo deve
    ser considerado como a expressão espiritual do estado
    natural da humanidade, tanto quanto é es-
    te accessivel á nossa observação”. A justificação da ani-
    mação do inanimado já foi feita por Hume na sua
    “Natural History of Religion”, dizendo: There is an
    universal tendency among mankind to conceive all being
    like themselves and to transfer to every object those
    qualities with which they are familiarly acquainted and
    of which they are intimately conscious. (Existe en-
    tre os homens uma tendencia geral a conceber todos os
    seres como semelhantes a elles proprios e a transferir a
    cada objecto aquellas qualidades, com que já se familia-
    rizaram e de que estão intimamente conscientes(1).

    O animismo é um systema philosophico; não expli-
    ca apenas um phenomeno isolado mas permitte, par-
    tindo de um ponto, abranger o mundo inteiro como
    uma unidade connexa. Se quizermos acompanhar os


    (1) Apud Tylor, Primitive Culture, I, pag. 477.

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    TOTEM E TABÚ

    autores, a humanidade conheceu successivamente, atra-
    vés dos tempos, tres desses systemas philosophicos, tres
    grandes concepções do univero: a animista
    (mythologica), a religiosa e a scien-
    tifica. De todos esses systemas, o primeiro conce-
    bido, o animismo, é talvez o mais creador e o mais
    logico e tambem o que nos explica, integralmente, a es-
    sencia do mundo. A primeira concepção humana do
    universo é uma theoria psychologica. Foge ao nosso
    proposito demonstrar o quanto della ainda subsiste na
    vida actual, seja depreciado sob a fórma de superstição,
    seja ainda vivo, como base da nossa linguagem, da nos-
    sa crença, da nossa philosophia.

    Na propria successão das tres concepções do mun-
    do se funda a affirmação de que o animismo, sem ser
    ainda uma religião, implica todas as condições prelimi-
    nares sobre as quaes são construidas todas as religiões.
    E’ tambem evidente que o mytho repousa sobre elemen-
    tos animistas; mas os pormenores da relação entre o
    mytho e o animismo ainda não foram esclarecidas, nos
    pontos essenciaes.

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    2.

    O nosso trabalho psychanalytico começará num
    ponto differente. – Não devemos suppor que os homens
    tenham sido levados á creação do seu primeiro con-
    ceito do universo por méra curiosidade especulativa.
    A necessidade pratica de apoderar-se do mundo deve ter
    tido uma participação nesses esforços. Não nos sur-
    prehende pois, averiguar que o systema animista appa-
    rece acompanhado de uma série de indicações sobre a
    fórma como devemos comportar-nos para dominar os
    homens, animaes e os objectos, e respectivamente os
    seus espiritos. A essas indicações, conhecidas sob o
    nome de bruxaria e magia chama-lhes
    S. Reinach(1) a estrategia do animismo; eu, por minha
    parte, prefiro comparal-as, com Hubert e
    Mauss, á technica do animismo(2).

    Póde distinguir-se, bem intelligivelmente, a bru-
     


    (1) Cultes, Mythes et Religions, T. II, Introduction, p. XV, 1909.

    (2) Année sociologique, Vol. VII, 1904.

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    xaria da magia? E’ possivel, se quizermos passar, com
    alguma arbitrariedade, sobre as vacillações da lingua-
    gem usual. A bruxaria se nos apresenta, então, como
    a arte de influir sobre os espiritos, tratando-os em con-
    dições identicas ás dos homens, quer dizer: apaziguan-
    do-os, propiciando-os, predispondo-os, atemorizando-os,
    despojando-os do seu poder, submettendo-os á nossa
    vontade, tudo pelos mesmos processos, que se mostram
    efficazes para com a gente viva. Mas a magia é coi-
    sa differente; no fundo abstrae dos espiritos e usa de
    meios especiaes, não dos banaes methodos psycholo-
    gicos. Não será difficil descobrir que a magia con-
    stitue a parte mais primitiva e importante da techni-
    ca animista, pois entre os meios usados para tratar os
    espiritos, encontramos tambem processos magicos (1)
    e, além disso, encontramos a magia applicada em ca-
    sos em que não parece ter sido levada a effeito a espiri-
    tualização da natureza.

    A magia serve a fins muito diversos, taes como
    submetter os phenomenos naturaes á vontade do ho-
    mem, proteger o individuo contra os seus inimigos e
    todo o genero de perigos e capital-o a prejudicar aos
    seus adversarios. Mas o principio sobre o qual re-
    pousa a acção magica, ou melhor dito, o principio da
    magia, é tão evidente que fôra reconhecido por todos


    (1) Afugentar um espirito, por meio de ruidos e gritos, é um
    procedimento de pura bruxaria; exercer pressão sobre elle, pelo apo-
    derar-se de seu nome, já é usar a magia contra o espirito.

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    TOTEM E TABÚ

    os autores. Podemos exprimil-o de modo mais conci-
    so, abstrahindo-se do excessivo do conceito, segundo
    as palavras de E. B. Tylor: “mistaking an
    ideal connexion for a real one” (tomando erradamen-
    te uma connexão ideal por uma real). Demonstra-
    remos esta circumstancia em dois grupos de actos ma-
    gicos.

    Um dos processos magicos mais generalizados,
    para prejudicar um inimigo, consiste em fazer a sua
    imagem com o material que se queira. A semelhan-
    ça pouco importa. Pode-se tambem “investir” qual-
    quer objecto no vulto da pessoa. Tudo o que se faça
    ao objecto representante, recahirá tambem sobre o ori-
    ginal odiado; toque-se em qualquer parte da imagem,
    em parte analoga será lesada a pessoa. Esta mesma
    technica magica póde empregar-se tambem com fins
    pios, em vez de fins hostis individuaes e assim pro-
    teger os deuses contra os mãos demonios. A citação
    seguinte é de Frazer (The magic art. II, pagi-
    na 67):

    “Todas as noites quando o deus do sol, Ra
    (entre os Egypcios antigos) voltava ao seu lar no oc-
    cidente, em chammas, tinha que sustentar luta renhi-
    da contra um exercito de demonios, que o atacavam,
    commandados por Apepi, seu mortal inimigo. Ra lu-
    tava com elles durante a noite inteira e, muitas vezes,
    as potencias das trevas eram fortes bastantes para
    ensombrecer de dia o céo azulado com as negras nu-
    vens, enfraquecendo as forças do deus e impedir a sua
    luz. Para ajudar a este, celebravam-se quotidianamen-
     


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    te no seu templo de Thebas as seguintes cerimonias:
    fabricava-se de cera uma imagem do seu inimigo Ape-
    pi, com a fôrma de um terrivel crocodillo ou de uma
    serpente de numerosos anneis e trazendo escripto, com
    tinta verde, o nome do demonio. Collocada num estojo
    de papyrus, sobre o qual se traçava a mesma ins-
    cripção, a figura era envolta em cabellos negros, o sa-
    cerdote cuspia sobre ella, cortava-a com um canivete
    de pedra e atirava-a ao chão. Depois pisava-a com o
    pé esquerdo e queimava-a num fogo, alimentado por
    plantas de determinada especie. Destruido Apepi des-
    se modo, o mesmo succedia com todos os demonios do
    seu sequito. Esse serviço divino, acompanhado de cer-
    tas palavras rituaes, repetia-se de manhã, ao meio dia
    e á noite; e tambem em qualquer momento do dia,
    quando rugisse tempestade, chovesse torrencialmente
    ou negras nuvens encobrissem no céo o disco do sol.
    Os mãos inimigos experimentavam os effeitos do cas-
    tigo infligido á sua imagem tal como se este lhes hou-
    vesse sido applicado directamente; fugiam e o deus do
    sol triumphava de novo” (1).

    Da immensa copia de actos magicos fundados em
    principios analogos, citarei mais dois, apenas, que sem-
    pre desempenharam papel importante entre os povos


    (1) A prohibição biblica de reproduzir as imagens de seres
    vivos não foi dictada por uma aversão de principios á arte plastica,
    mas visava retirar o instrumento á magia, condemnada pela reli-
    gião hebraica. (Frazer, l. cit. p. 87, nota).

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    TOTEM E TABÚ

    primitivos e que ainda se conservam, parcialmente, no
    mytho e no culto dos povos mais avançados; especial-
    mente quanto ás praticas magicas relativas á chuva e
    boa colheita. Provoca-se a chuva por meios magicos,
    imitando-a ou ainda arremedando as nuvens chuvosas
    ou a tempestade. E' como se quizessem “brincar de
    chuva”. Os Ainos japonezes, p. ex., julgam provo-
    car a chuva despejando agua através de uma peneira
    grande e passeando, pela aldeia e pelas plantações um
    grande alguidar equipado de remos e vela, como se
    fosse um barco. A fertilidade do solo, porém, fica
    magicamente assegurada, offerecendo-se-lhe o especta-
    culo de relações sexuaes entre pessoas. Assim, para ci-
    tar um, entre innumeros exemplos, em determinadas
    regiões da ilha de Java, quando se approxima o mo-
    mento da florescencia do arroz, camponezes e campone-
    zas costumam sahir á noite para os campos, com o fim
    de estimular, mediante o seu exemplo, a fertilidade do
    arroz. Mas ao contrario temem as prohibidas rela-
    ções sexuaes incestuosas, que determinariam a escas-
    sez da colheita e a esterilidade do solo. (The magic art.
    II, pag. 98) (No Edipo Rei de Sophocles encontramos
    um éco desta crença).

    Neste primeiro grupo podem incluir-se, egualmen-
    te, determinadas prescripções negativas, isto é medidas
    magicas de precaução. Quando uma parte dos habitan-
    tes de uma aldeia dayak sáe á caça de um javali, os
    que permanecem em casa, não devem tocar com as mãos
    em azeite nem agua, pois os dedos dos caçadores se tor-
     

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    nariam molles e a caça lhes escaparia das mãos. (The
    magic art. I, pag. 120). Ou, quando um caçador
    Gilyak segue no bosque a pista da caça, os fi-
    lhos, em casa, não devem traçar desenhos na madeira
    ou areia, pois se o fizessem, a pista, no bosque, se con-
    fundiria com as linhas do desenho e o caçador não en-
    contraria o caminho de volta (The magic art. I. pagi-
    na 122).

    Se nesse, como em tantos outros exemplos de ef-
    feito magico, a distancia não representa papel algum e
    a telepathia é, pois, acceita como facto obvio, assim,
    não é difficil entender aquellas peculiaridades da ma-
    gia.

    Não resta duvida quanto ao que temos a consi-
    derar como mais efficaz em todos esses exemplos. E' a
    semelhança entre o acto realizado e o phenome-
    no esperado. Frazer denomina, por isso, imita-
    tiva ou homeopathica esta classe de magia.
    Se quero que chova, basta-me fazer alguma coisa que
    imite ou recorde a chuva. Numa phase mais avança-
    da de civilização, em vez dessa magia da chuva, fazem-
    se procissões á morada de um deus, para implorar a
    chuva ao santo que alli habita. Finalmente se renun-
    ciará á essa tecnica religiosa, para investigar por que
    influencias sobre a atmosphera póde a chuva ser pro-
    vocada.

    Em outro grupo de actos magicos, o principio da
    semelhança é substituido por outro que os exemplos
    seguintes nos revelarão sem difficuldade.

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    Para prejudicar a um inimigo, pode-se ainda lan-
    çar mão de outro processo que consiste em apoderar-se
    de cabellos seus, cahidos ou pedaços de unhas cortados
    ou mesmo de partes da sua roupa e submetter esses ob-
    jectos a manobras hostis. A posse desses objectos equi-
    vale ao dominio sobre a pessoa de onde provêm e que
    experimenta todos os effeitos do mal que elles soffre-
    ram. Segundo os primitivos constitue o nome uma
    parte essencial da personalidade; assim pois, quem co-
    nhece o nome de uma pessoa ou de um espirito adquire
    certo poder sobre o portador do nome. Dahi as notaveis
    precauções e restricções no emprego do nome e a que
    nos referimos no capitulo dedicado ao tabú. Nestes casos
    a analogia fica substituida pela contiguidade.

    O cannibalismo dos primitivos tem a sua origem
    elevada em phenomeno semelhante. Absorvendo por
    ingestão partes do corpo de uma pessoa, apro-
    pria-se o cannibal das qualidades de que a mesma era
    dotada. Isso tem como consequencia precauções e res-
    tricções no regimen alimenticio, sob condições especiaes.
    A mulher gravida evitará comer da carne de certos ani-
    maes, pois os caracteres indesejaveis destes, p. ex.: a
    covardia, poderiam transmittir-se ao filho que ella traz
    no ventre. Não faz differença para o effeito magico
    que a connexão ou contiguidade haja desapparecido ou
    tenha apenas consistido num contacto instantaneo e si-
    gnificativo. Assim, durante millenios, póde persistir
    immudada a crença em uma relação magica que o des-
    tino tenha estabelecido entre a ferida e a arma que a.

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    145

    espaço, a contiguidade, ao menos a conti-
    guidade imaginada, a recordação da sua preexistencia.
    Mas como a analogia e a continuidade são os dois prin-
    cipios essenciaes dos processos de associação, resulta
    que todo o absurdo das prescripções magicas fica expli-
    cado pelo regime de associação de idéas. Vemos pois,
    quanto é verdadeira a definição que Tylor deu á
    magia: Mistaking an ideal connexion for a real one;
    ou como Frazer (The magic art. I, pag. 420) se
    exprime, quasi nos mesmos termos: Men mistook the
    order of their ideas for the order of nature, and hence
    imagined that the control which they have, or seem to ha-
    ve, over their thoughts permitted them to exercise a cor-
    responding control over things. (Os homens tomaram
    erradamente a ordem das suas idéas pela ordem da na-
    tureza e por isso imaginaram que o controle que têm
    ou suppõem ter, sobre os proprios pensamentos, lhes
    permittisse controle correspondente sobre as coisas).
     

    Causa-nos, pois, estranheza, a principio, que mui-
    tos autores recusem, por insatisfactoria, essa luminosa
    explicação da magia. (Conf. o art. “Magic” (N. W. T.)
    na 11ª Edição na Encyclopedia Britannica). Mas refle-
    ctindo um pouco mais, póde-se justificar-lhes a objecção,
    pois a theoria das associações de idéas applicada á ma-
    gia, só esclarece os caminhos seguidos por esta, mas
    não lhes explica a essencia mesma, isto é, não explica
    o malentendido de substituir as leis naturaes pelas
    psychologicas. A intervenção de um factor dynamico
    faz-se aqui indispensavel, mas se a investigação desse
     

  • S.

    146

    Sig. Freud

    factor induz em erros os criticos da theoria de Frazer,
    será facil dar uma explicação satisfactoria da magia,
    se quizermos continuar e aprofundar a applicação da
    theoria das associações.

    Consideremos, em primeiro logar, o caso mais
    simples e significativo da magia imitativa. Segundo
    Frazer, só esta póde ser praticada isoladamente, em-
    quanto a magia contagiosa presuppõe, sempre, a imi-
    tativa (liv. cit. pag. 54) | Os motivos que forçam ao
    exercicio da magia, são faceis de reconhecer, são os de-
    sejos do homem. Teremos apenas de admittir que o
    homem primitivo tem confiança desmedida no poder dos
    seus desejos. No fundo, tudo o que elle intenta obter
    pelos meios magicos, deve assim succeder, porque elle
    o quer assim. Assim, em principio, é o seu desejo le-
    vado em conta.

    Com respeito á creança que se encontra em condi-
    ções psychicas analogas, mas ainda não possue a mes-
    ma capacidade motora, admittimos já antes que ella co-
    meça por satisfazer os seus desejos de modo allucina-
    torio, fazendo nascer a situação satisfactoria por meio
    de excitações centrifugas dos seus orgãos senso-
    riaes1). Para o adulto primitivo existe outro ca-
    minho. O seu desejo depende de um impulso motor,
    a vontade, que mais tarde, ao serviço da satisfacção do


    1) Formulierungen Ueber die zwei Prinzipien des psychischen Geschehens. Annuario para pesquizas psychanalyticas, vol. III. 1912 pag. 2.

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    T O T E M E T Á B Ú

    desejo, será bastante para alterar a face da terra, mas
    essa vontade é, por ora, utilizada para lograr a satis-
    facção e o individuo anima-se egualmente por uma
    allucinação motora. Tal a p r e s e n t a ç ã o do de-
    sejo satisfeito é perfeitamente comparavel ao b r i n -
    q u e d o das crenças que resolve, para ellas, a techni-
    ca puramente sensorial da satisfacção. Se o brinquedo
    e a representação imitativa bastam á crença e ao pri-
    mitivo, não é isso um signal de modestia, no sentido
    actual da palavra, nem de resignação derivada da con-
    sciencia da sua impotencia real mas sim uma conse-
    quencia naturalissima do valor exaggerado do desejo,
    da vontade que delle depende e dos tramites adoptados.
    Com o tempo, o accento psychico dos motivos do acto
    magico desloca-se para os meios empregados e para o
    proprio acto. Talvez fosse mais certo dizer que são
    antes os ditos meios o que torna evidente o valor exag-
    gerado, conferido aos actos psychicos. Parece então
    como se fosse o acto magico que impuzesse a realiza-
    ção do desejado, por sua semelhança com elle. Na pha-
    se animista do pensamento, não existe ainda opportuni-
    dade para evidenciar objectivamente a situação real,
    o que só se torna possivel em phases posteriores, quan-
    do, embora ainda usados os mesmos processos, já come-
    ça a surgir o phenomeno psychico da duvida, como ma-
    nifestação de uma tendencia ao recalcamento. Então
    admittirão os homens que de nada serve invocar os es-
    piritos se não se tem a fé e que a força magica da ora-

    — 147 —

  • S.

    148

    ção fica inefficaz se não é dictada por uma piedade ver-
    dadeira.(1)

    A possibilidade de uma magia contagiosa, baseada
    na associação por contiguidade, nos mostrará que a va-
    lorização psychica do desejo e da vontade se estendeu a
    todos os actos psychicos subordinados a esta ultima. Re-
    sulta disso uma supervaloração geral dos processos psy-
    chicos, isto é, uma attitude perante o mundo, em que
    este nos apparece, segundo a nossa concepção da relação
    entre realidade e pensamento, como uma supervaloração
    deste ultimo. As coisas recuam antes as suas repre-
    sentações; o que se pretende com estas deve applicar-se,
    tambem, áquellas. As relações existentes entre as re-
    presentações, presuppõe-se que existam tambem entre
    as coisas; como o pensamento não conhece distancias e
    reune no mesmo acto consciente as coisas afastadas no
    espaço e as mais diversas no tempo, assim o mundo ma-
    gico abstrahirá telepathicamente das distancias do es-
    paço e trará as connexões passadas como se fossem
    actuaes. A miragem do mundo interior torna invisi-
    vel, na época animista, aquella outra imagem do mundo
    que nós julgamos conhecer.

    Salientamos ademais que os dois principios da as-
    sociação – semelhança e a contiguidade – vão encon-
     


    (1)O rei em “Hamlet” (III, 4): My words fly up, my
    thoughts remain below; Words without thoughts never to heaven go.
    (As minhas palavras voam no alto, os meus pensamentos ficam em
    baixo; palavras sem pensamentos nunca vão para os céos!).

  • S.

    149

    trar-se numa unidade mais alta, a do contacto.
    Associação por contiguidade é contacto directo; associa-
    ção por semelhança é contacto em sentido translato.
    A possibilidade de designar com a mesma palavra estas
    duas classes de associações, já nos indica a identidade
    ainda não comprehendida do processo psychico. Esta
    mesma extensão da noção de contacto se nos revelou
    antes na analyse do tabú (veja-se o capitulo prece-
    dente).

    Resumindo, podemos dizer: o principio que rege a
    magia, como a technica do modo de pensar animista,
    é “o omnipotencia das idéas.”

  • S.

    [object Object]

  • S.

    151

    3.

    A expressão “omnipotencia das ideias” devo-a a
    um enfermo muito intelligente que padecia de represen-
    tações obsidentes e que, uma vez curado pelo tratamen-
    to psychanalytico, poude dar tambem provas de intel-
    ligencia e prudencia. Criara elle aquella expres-
    são para significar o fundamento de todos aquelles pheno-
    menos singulares e inquietantes que pareciam perse-
    guil-o, como a outros affectados do mesmo mal. (Veja
    tomo X, das obras completas: Observações sobre um
    caso de neurose coacta). Quando pensava numa
    pessoa, já lhe vinha esta ao encontro, como se a tivesse
    evocado; se repentinamente pedia noticias de uma pes-
    soa desde muito tempo não vista, vinha a saber que
    esta acabara de morrer, de maneira que tinha a impres-
    são que, por via telepathica, se houvesse communicado
    com ella; se, embora sem ser a serio, lançava uma praga
    contra um estranho, podia esperar que este logo em se-
    guida havia de morrer e que o sobrecarregaria com a
    responsabilidade da sua morte. Com respeito á maior

  • S.

    152

    parte desses casos poude elle explicar-me, por si mes-
    mo, no decurso do tratamento, como se produzira a ap-
    parencia enganadora e o que de supposição elle, por sua
    parte, accrescentara, para dar mais força aos seus temo-
    res supersticiosos (1). Todos os doentes coactos são su-
    persticiosos dessa maneira e, na maioria, contra as
    suas proprias e melhores convicções.

    A conservação da omnipotencia das ideias apre-
    senta-se-nos com a maior clareza na neurose coacta
    onde os resultados daquella primitiva maneira de pen-
    sar estão mais proximos ao consciente. Mas não de-
    vemos ver nisso um caracter distinctivo dessa neurose,
    pois a pesquiza analytica nos revela o mesmo nas outras
    neuroses. Em todas ellas é a realidade da ideia e não
    a do facto o que importa, para a creação dos sympto-
    mas. Os neuroticos vivem num mundo especial onde,
    conforme eu disse alhures, só vale o “apreço neurotico”
    (neurotische Waehrung), quer dizer, só é efficiente
    para elles o intensivamente pensado, o representado
    com affecto e cuja coincidencia com a realidade exter-
    na é tida como secundaria. O hysterico reproduz, nos
    seus ataques e fixa, nos seus symptomas, factos que
    se lhe desenvolveram apenas na imaginação, embora
    em ultima analyse, taes phantasias se refiram a factos


    (1) Parece que emprestamos o caracter de “sinistras”
    áquellas impressões que pretendem affirmar a omnipotencias das
    idéas e o modo de pensar animista em geral, justamente porque já
    os abandonou o nosso raciocinio.

  • S.

    152

    parte desses casos poude elle explicar-me, por si mes-
    mo, no decurso do tratamento, como se produzira a ap-
    parencia enganadora e o que de supposição elle, por sua
    parte, accrescentara, para dar mais força aos seus temo-
    res supersticiosos (1). Todos os doentes coactos são su-
    persticiosos dessa maneira e, na maioria, contra as
    suas proprias e melhores convicções.

    A conservação da omnipotencia das ideias apre-
    senta-se-nos com a maior clareza na neurose coacta
    onde os resultados daquella primitiva maneira de pen-
    sar estão mais proximos ao consciente. Mas não de-
    vemos ver nisso um caracter distinctivo dessa neurose,
    pois a pesquiza analytica nos revela o mesmo nas outras
    neuroses. Em todas ellas é a realidade da ideia e não
    a do facto o que importa, para a creação dos sympto-
    mas. Os neuroticos vivem num mundo especial onde,
    conforme eu disse alhures, só vale o “apreço neurotico”
    (neurotische Waehrung), quer dizer, só é efficiente
    para elles o intensivamente pensado, o representado
    com affecto e cuja coincidencia com a realidade exter-
    na é tida como secundaria. O hysterico reproduz, nos
    seus ataques e fixa, nos seus symptomas, factos que
    se lhe desenvolveram apenas na imaginação, embora
    em ultima analyse, taes phantasias se refiram a factos


    (1) Parece que emprestamos o caracter de “sinistras”
    áquellas impressões que pretendem affirmar a omnipotencias das
    idéas e o modo de pensar animista em geral, justamente porque já
    os abandonou o nosso raciocinio.

  • S.

    154

    tinados a evitar as ameaças de desgraças com que sóe co-
    meçar a neurose. Sempre que me foi possivel penetrar o
    segredo, pude verificar que essa desgraça esperada tinha
    como conteudo a morte. O problema da morte, segundo
    Schopenhauer é o principio de toda philoso-
    phia; já vimos que tambem a idéa da alma e a crença
    no demonio, caracteristicas do animismo, derivam das
    impressões que a morte produz no homem. E’ diffi-
    cil decidir se os primeiros actos obsidentes ou defensi-
    vos seguem o principio da analogia e o do contraste,
    respectivamente, pois dadas as condições da neurose,
    apparecem, geralmente deformados por deslocamento
    sobre uma ninharia, sobre um acto em si, completamen-
    te insignificante. (Mais adeante teremos opportuni-
    dade de mostrar a existencia de outro motivo para esse
    deslocamento sobre um acto insignificante.) As for-
    mulas de defesa da neurose coacta tambem têm sua
    parelha nas formulas de encantamento da magia. A
    historia da evolução dos actos compulsivos póde, po-
    rém descrever-se, levando em conta que esses actos, tal-
    vez muito afastados do sexual, começam como mano-
    bras magicas contra os máos desejos para terminar co-
    mo substitutivos do acto sexual prohibido, que imitam,
    com a maior fidelidade possivel.

    Acceitando a historia antes referida da evolução
    do conceito humano do mundo segundo o qual a phase
    animista foi substituida pela religiosa e
    esta pela scientifica, não nos será difficil acom-
    panhar os destinos da omnipotencia das ideias, através

  • S.

    155

    dessas phases. Na phase animista, o homem attribue
    a si mesmo a omnipotencia; na religiosa cede aos deu-
    ses essa faculdade, sem porém renunciar a ella por com-
    pleto, pois se reserva o poder de guiar os deuses, por
    influencias variadas ao sabor dos seus desejos. Na
    concepção scientifica do mundo, já não ha mais logar
    para a omnipotencia do homem; reconheceu elle a sua
    propria pequenez e resignou-se á morte como a todas
    as necessidades naturaes. Mas a propria confiança
    no poder da intelligencia humana, que conta com as
    leis da realidade, guarda ainda vestigios da fé primi-
    tiva naquella omnipotencia.

    Remontando o curso da evolução das tendencias
    libidinaes, desde as suas formas na idade adulta até
    os seus primeiros começos na infancia, encontramos
    primeiramente uma importante distincção, que deixa-
    mos exposta, desde 1905 em os nossos “Tres ensaios
    sobre a theoria sexual”. As manifestações dos instin-
    ctos sexuaes podem ser reconhecidas desde o princi-
    pio, mas ainda não se dirigem contra objecto exte-
    rior algum. Cada uma das componentes do impulso da
    sexualidade age por sua propria conta em procura do
    prazer e encontra a satisfação no proprio corpo. Esta
    é a phase do autoerotismo, e vem a ser sub-
    stituida pela phase da escolha do objecto.

    Um estudo mais acurado fez resaltar a utilidade,
    a quasi necessidade, de intercalar-se entre estas duas
    phases uma terceira ou, se se prefere, de decompor em
    duas a primeira phase do autoerotismo. Nessa phase

  • S.

    156

    intermediaria, que sempre mais se impõe á investiga-
    ção, os impulsos sexuaes, antes independentes, appare-
    cem reunidos numa unidade e já encontram o seu obje-
    cto; mas esse objecto não é exterior, alheio ao indivi-
    duo, mas é o proprio Ego, constituido naquella época.
    Tendo em conta certas fixações pathologicas desse es-
    tado, observadas mais tarde, chamamos a essa nova
    phase narcisismo. O individuo se comporta
    como se fosse apaixonado por si mesmo; os instinctos
    do Ego e os desejos libidinaes apresentam-se, á analyse,
    ainda não isolados uns dos outros.

    Apesar de ainda não ser possivel dar uma cara-
    cteristica sufficientemente precisa dessa phase narci-
    sica, na qual os instinctos sexuaes, até então dissocia-
    dos, apparecem fundidos numa unidade e tomam,
    como objecto o Ego, já podemos presentir, no emtan-
    to, que a organização narcisica não mais desapparece-
    rá por completo. O homem permanece até certo ponto
    nascisico, ainda mesmo depois de ter encontrado para a
    sua libido um objecto exterior. As applicações da carga
    sobre o objecto, tal como as executa, são as emanações
    da libido que resta no seu Ego e podem voltar a ella.
    Os estados psychologicamente tão notaveis da paixão
    amorosa, os prototypos normaes da psychose, corres-
    pondem ao gráo mais elevado dessas emanações em
    comparação com o nivel do amor do Ego.

    Isso nos leva a approximar do narcisismo e a
    considerar parte essencial deste, o alto valor que o pri-
    mitivo e o neurotico attribuem aos actos psychicos, e

  • S.

    157

    valoração. Dir-se-ia que o pensamento, entre os pri-
    mitivos ainda está altamente sexualizado; de onde, a
    crença da omnipotencia das idéas, a convicção inaba-
    lavel da possibilidade de dominar o mundo e a inacces-
    sibilidade ás experiencias faceis de realizar e que po-
    deriam ensinar ao homem o seu verdadeiro logar no
    universo. No neurotico ficou, por um lado, como con-
    stitucional, uma parte consideravel dessa attitude pri-
    mitiva e, por outro, o recalcamento sexual, que elle
    soffreu, veiu a determinar nova sexualização dos seus
    processos mentaes. Os effeitos psychicos têm que ser
    forçosamente os mesmos em ambos os casos, quer na
    sobrecarga libidinal primitiva, que na obtida regressi-
    vamente: o narcisismo intelectual e a omnipotencia
    das idéas. 1)

    Se acceitarmos a hypothese de que a omnipoten-
    cia das idéas, no primitivo, constitue um testemunho a
    favor do narcisismo, poderemos tentar a experiencia
    de comparar as phases evolutivas da concepção huma-
    na do mundo com as phases da evolução da libido indi-
    vidual. Correspondem assim, tanto na successão como
    no conteudo: a phase animista, ao narcisismo; a phase
    religiosa á da busca do objecto, caracterisada pelo
    apego aos paes; a phase scientifica tem o seu equiva-
    lente naquelle estado de maturidade em que o indivi-
    duo renuncia ao principio de prazer e, subordinando-se


    1) It is almost an axiom with writers on this subject, that,
    a sort of solipsism or berkleianism (as professor Sully terms

  • S.

    158

    a que nós, do nosso ponto de vista, chamamos super-
    á realidade, procura o seu objecto no mundo exte-
    rior. (2).

    A arte é o unico dominio da nossa civilização em
    que se mantem a “omnipotencia das idéas”. Sómente
    na arte succede ainda que um homem atormentado
    pelos desejos, creie alguma coisa semelhante á uma
    satisfação e que esse jogo — mercê da illusão artistica
    — provoque effeitos affectivos como se se tratasse de
    algo real. Com razão se fala da magia de arte e se
    compara o artista ao magico. Mas essa comparação é
    talvez mais significativa do que parece. A arte que,
    certamente, não começou como l'art pour l'art, estava a
    principio ao serviço de tendencias hoje extinctas em
    grande parte. Por entre estas podemos presumir um
    certo numero de intenções magicas. (3).

    it as he finds it in the child) operates in the savage to make him
    refuse to recognise death as a fact. ( Maret, Pre-animistic
    religion, Folklore, vol. XI, 1900, pag. 178) — E' quasi um axioma
    entre os escriptores que tratam deste assumpto, que existe no sel-
    vagem uma especie de solipsismo ou berkleianismo (segundo o ter-
    mo que o prof. Sully applica ao caso das creanças) e o leva a re-
    cusar-se a reconhecer a morte como um facto).

    (2)Limitar-nos-hemos a indicar aqui que o narcisismo primario da
    creança é importante para o desenvolvimento do seu caracter e ex-
    clue a hypothese de um primitivo sentimento infantil de inferioridade.

    (3)S. Reinach ,L'art et la magie, na collecção “Cultes,
    mythes et réligions, vol I, pags.125-136. Pensa Reinach que os pin-
    tores primitivos que gravaram ou pintaram imagens de animaes nas
    cavernas da França, não o fizeram para “provocar um prazer”, mas
    sim para “conjurar espiritos”. Por esta razão, diz elle, se encontram.


  • S.

    159

    taes desenhos nas partes mais escuras e inaccessiveis das cavernas e
    nunca reproduzem as imagens de animaes perigosos”. “Les modernes
    parlent souvent, par hyperbole, de la magie du pinceau ou du ciseau
    d’un grand artiste et, en général, de la magie de l’art. Entendu
    au sens propre, qui est celui d’une contrainte mystique exercée par
    la volonté de l’homme sur d’autres volontés ou sur les choses, cette
    expression n’est plus admissible; mais nous avons vu qu’elle était
    autrefois rigoureusement vraie, du moins dans l’opinion des artistes
    (pag. 136). Os modernos costumam falar, por hyperbole, da ma-
    gia do pincel ou cinzel de um grande artista e, em geral, da magia,
    da arte. Comprehendida no seu sentido proprio que é o de uma coa-
    cção mystica exercida pela vontade do homem sobre outras vontades
    ou sobre as coisas, essa expressão não é mais admissivel; mas vimos
    que outrora ella era rigorosamente verdadeira, pelo menos na opinião
    dos artistas.

  • S.

    [object Object]

  • S.

    161

    4.

    A primeira concepção do mundo a que a humani-
    dade consegue chegar, a do animismo, foi, assim, mero
    facto psychologico; não precisava ainda de sciencia
    para as suas bases, pois a sciencia só intervem depois
    que o homem verifica que não conhece o mundo e tem,
    portanto, que procurar caminhos para conhecel-o. Mas,
    para o homem primitivo, o animismo era uma conce-
    pção natural e immediata; elle sabia como eram as
    coisas do mundo, que eram taes como elle, segundo a
    si proprio concebia. Estamos pois preparados a con-
    cluir que o homem primitivo applicasse ao mundo exte-
    rior a estructura da sua propria psyche (reconhecida
    pela chamada percepção endopsychica), e teremos que
    tentar, por outro lado, a applicação á alma humana da-
    quillo que o animismo nos ensina sobre a natureza das
    coisas.

    A technica do animismo, a magia, nos revela clara
    e precisamente a isenção de submetter as coisas reaes
    ás leis da vida psychica, não só quando os espiritos

  • S.

    162

    ainda não desempenham papel algum, mas tambem
    quando estes já podem ser objecto de manobras magi-
    cas. As hypotheses da magia são, portanto, mais pri-
    mitivas e antigas do que a theoria dos espiritos que
    forma o nucleo do animismo. A nossa concepção psy-
    chanalytica coincide, neste ponto, com uma theoria de
    E. R. Marett que admitte uma phase pre-
    animista, do animismo, e cujo caracter fica per-
    feitamente indicado pelo nome animatismo
    (theoria do hylozoismo universal). Pouco mais se
    póde dizer sobre o preanimismo, pois ainda não se co-
    nheceu povo algum a quem faltasse a crença nos espi-
    ritos (R. R. Marett., Pre-animistic religion, Folk-
    lore, vol. XI, Nr. 2, London 1900. Veja Wundt,
    Mythus und Religion, vol. II, pag., 171 sgg.).

    Emquanto a magia conserva ainda toda a omni-
    potencia das idéas, cedeu o animismo uma parte desta
    omnipotencia aos espiritos, abrindo desta maneira o
    caminho para a formação de uma religião. Mas que é
    que moveu os primitivos a esta primeira renuncia?
    Difficilmente pudera sel-o a descoberta da inexactidão
    dos seus principios, pois a technica magica foi con-
    servada.

    Os espiritos e demonios, como já o indicámos
    alhures, nada mais são que projecções das tendencias
    affectivas (1); o primitivo applica sobre pessoas as


    (1) Admittimos que nessa phase narcisica primitiva, estives-
    sem reunidos, ainda indistinctas, as cargas libidinaes e as prove-
    nientes de outras fontes de excitação.

  • S.

    163

    suas cargas affectivas, povoa o mundo com ellas e
    torna a encontrar a sua propria vida psychica interna
    fóra de si mesmo, exactametne como o engenhoso pa-
    ranoico Schreber que reflectiu as ligações e
    desligamentos da sua libido nos destinos dos “raios
    divinos” que elle combinara. (2).

    Evitaremos agora, como já antes fizemos (3), os
    problemas da origem da tendencia para projectar no
    exterior os processos psychicos. Mas numa coisa po-
    demos confiar: é que essa tendencia fica accentuada
    quando a projecção implica a vantagem de um allivio
    psychico. Essa vantagem é de esperar, precisamente,
    nos casos de conflicto entre as tendencias que aspiram
    á omnipotencia; então é evidente que nem todas se
    podem tornar omnipotentes. O processo pathologico
    da paranoia utiliza, de facto, o mecanismo da proje-
    cção para resolver esses conflictos surgidos na vida
    psychica. Ora, o caso typico dos conflictos deste ge-
    nero é o que surge entre os dois termos de uma anti-
    nomia, o caso da attitude de ambivalente que analy-
    sámos antes, ao examinar a situação das pessoas que
    choram a morte de um parente querido. Um caso
    assim nos parece particularmente apropriado para
    motivar a creação de imagens de projecção. Estamos


    (2) Schreber: Denkwuerdigkeiten eines Nervenkranken, 1903.
    — Freud, Psychoanalytische Bemerkungen ueber einen beschriebenen Fall von Paranoia, 1911. Val. VIII, das Obras Completas.

    (3) Veja o ensaio citado sobre Schreber; obras completas, Vol.
    VIII, pag. 418.

  • S.

    164

    ainda uma vez de accordo com os autores que consi-
    deram os espiritos maleficos como os primogenitos
    entre os espiritos e fazem derivar a crença na alma,
    das impressões que a morte provoca entre os sobrevi-
    ventes. Fazemos apenas uma differença: não situa-
    mos em primeiro plano o problema intellectual que a
    morte offerece aos vivos, mas vemos no conflicto de
    sentimentos em que esta situação lança os sobreviven-
    tes, a força que impelle o homem a investigar.

    A primeira creação theorica do homem – a crea-
    ção dos espiritos – proviria, pois, da mesma fonte que
    as primeiras restricções moraes a que elle se submette,
    as normas do tabú. Mas da identidade da origem não
    se deverá prejulgar quanto á simultaneidade do appa-
    recimento. Se a situação dos sobreviventes ante os
    mortos foi realmente o que fez o homem reflectir e o
    obrigou a ceder aos espiritos uma parte da sua omni-
    potencia e a sacrificar-lhes uma parte da sua liberdade
    de acção, podemos dizer que essas creações culturaes
    representam um primeiro reconhecimento da Anagké
    que se oppõe ao narcisismo humano. O primitivo se
    inclinaria perante a supremacia da morte com o mes-
    mo gesto com que parece negal-a.

    Se nos animarmos a proseguir na analyse das
    nossas hypotheses, poderemos perguntar quaes os ele-
    mentos essenciaes da nossa propria estructura psycho-
    logica que se reflectem e reproduzem nas formações
    projectivas das almas e dos espiritos. E’ então difficil
    negar que a representação primitiva da alma – embo-

  • S.

    165

    ra ainda diversa da concepção ulterior da alma comple-
    tamente immaterial – coincide, em essencia, com esta
    e concebe quer as pessoas, quer as coisas, como uma dua-
    lidade entre cujas partes, apparecem distribuidas as
    diversas qualidades e modificações do todo. Essa dua-
    lidade primitiva – conforme uma expressão de H.
    Spencer (no 1º volume dos “Principios de Sociologia”)
    já é identica áquelle dualismo que se manifesta na cor-
    rente differenciação de corpo e alma e cujas expres-
    sões verbaes instructiveis reconhecemos, por exem-
    plo, na descripção do individuo desmaiado ou do
    furioso: está fóra de si.

    Aquillo que nós, exactamente como o primitivo,
    projectamos sobre a realidade exterior, não ha de ser
    mais do que o reconhecimento de uma condição na qual
    um objecto, offerecido aos sentidos e ao consciente,
    está presente; e de outra condição, proxima á
    primeira e na qual o mesmo objecto está latente,
    mas poderá reapparecer, – o que importa a coexisten-
    cia da percepção e da recordação ou, generalizando, a
    existencia de processos psychicos inconscientes,
    ao lado dos conscientes. Poderia dizer-se que
    o “espirito” de uma pessoa ou coisa se reduz, em ultima
    analyse, á propriedade que as mesmas possuem de ser
    relembradas e representadas, quando subtrahidas á
    percepção.

    Não se póde francamente esperar nem da primi-
    tiva, nem da actual representação da “alma”, que a
    distincção entre esta e a outra parte da pessoa corres-
     

  • S.

    166

    ponda aos limites que a nossa sciencia moderna esta-
    belece entre as actividades psychicas conscientes e as
    inconscientes. Ademais a alma animista reune as pro-
    priedades de ambas as instancias. A sua fluidez e mo-
    bilidade, a sua faculdade de abandonar o corpo e tomar
    posse permanente ou passageira de outro distincto, são
    caracteres que recordam com grande evidencia a na-
    tureza do consciente. Mas o modo como se mantem
    escondida por trás das manifestações pessoaes, recor-
    da o inconsciente; hoje em dia não attribuimos mais a
    immutabilidade e a indestructibilidade aos processos
    conscientes, mas sim aos inconscientes e consideramos
    estes ultimos como os verdadeiros sustentaculos da
    actividade psychica.

    Dissemos, ha pouco, que o animismo é um syste-
    ma philosophico e a primeira theoria completa do
    mundo e queremos, agora, deduzir algumas consequen-
    cias da concepção psychanalytica desse systema. As
    experiencias quotidianas são muito apropriadas para
    recordar-nos, a cada instante, os seus principios parti-
    culares. Sonhamos durante a noite e aprendemos a
    interpretar, de dia, os nossos sonhos. Sem desmentir
    a sua natureza, o sonho póde mostrar-se confuso e
    desconnexo, mas tambem póde, pelo contrario, imitar
    a ordem das impressões de um facto real, deduzindo
    um successo do outro e estabelecendo uma correlação
    entre differentes partes do seu conteudo. Isso, ás ve-
    zes, succede com mais ou menos sorte, mas quasi nun-
    ca com tal perfeição que não apresente algures um
    absurdo, uma falha na estructura. Submettendo o so-
     

  • S.

    167

    nho á interpretação, averiguamos que a disposição
    inconstante e irregular de suas partes não apresenta
    importancia alguma para a sua comprehensão. O es-
    sencial no sonho são as idéas do sonho e estas possuem
    sempre um sentido, são coherentes e ordenadas. Mas
    a sua ordem é inteiramente outra que a do conteudo
    manifesto, que recordamos. A connexão das idéas do
    sonho desapparecera ou se perdera, ou fôra substituida
    pela nova associação do conteudo manifesto. Quasi
    sempre, além da condensação dos elementos oniricos,
    effectuou-se uma nova coordenação dos mesmos, mais
    ou menos independente da primitiva. Por fim, aquillo
    que o trabalho do sonho fez do material das idéas oni-
    ricas, passou por um novo processo, a elaboração
    secundaria, destinado a remover o incoherente
    e o incomprehensivel do trabalho do sonho e a substi-
    tuil-os por um novo “sentido”. Este novo sentido, visa-
    do pela elaboração secundaria, não é mais o sentido
    das idéas do sonho.

    A elaboração secundaria do producto do trabalho
    onirico constitue um excellente exemplo da natureza e
    das exigencias de um systema. Uma funcção intelle-
    ctual que nos é inherente, exige unidade, coherencia e
    intelligibilidade a cada material da nossa percepção ou
    da nossa ideação de que chegue a apoderar-se; e não
    teme estabelecer relações inexactas, quando por cir-
    cumstancias especiaes não consegue aprehender as ver-
    dadeiras relações. Taes formações de systema conhe-
    cemol-as não sómente nos sonhos, mas tambem nas

  • S.

    168

    phobias, em idéas obsidentes e em determinadas fór-
    mas de delirio. Na paranoia a formação do systema é
    a mais engenhosa e domina o quadro pathologico; mas
    o facto não deve ser desprezado nas demais fórmas de
    neuropsychose. Em todos os casos é facil demonstrar
    que se effectuou um novo arranjo do mate-
    rial psychico, correspondente a um novo fim e ás vezes
    forçada, mesmo, no fundo, ainda quando pareça com-
    prehensivel, sob o ponto de vista do systema. O que
    então melhor caracteriza este ultimo, é que cada um
    dos seus elementos deixa descobrir, pelo menos, dois
    motivos, um retirado ás allegações do systema – e,
    assim, eventualmente, delirante – e o outro, occulto,
    que deve ser considerado como o propriamente efficaz
    e real.

    Para illustração, vejamos um exemplo tomado
    da neurose. No capitulo sobre o tabú, mencionei uma
    doente, cujas prohibições obsidentes apresentavam as
    mais bellas coincidencias com o tabú dos Maoris.
    A neurose dessa mulher estava dirigida contra o
    marido e culminava na repulsa do desejo inconsciente
    da morte do mesmo. A sua phobia manifesta e syste-
    matica referia-se, porém, á morte em geral; o marido
    era inteiramente excluido da phobia e nunca se tornava
    objecto de cuidados conscientes. Um dia ouviu ella o
    marido mandar que levassem a certa loja, para afiar,
    a sua navalha, que cegara. Impellida por singular in-
    quietude encaminhou-se a paciente para aquella loja e,
    de volta da sua exploração, exigiu do marido que se

  • S.

    169

    desfizesse para sempre daquella navalha, pois desco-
    brira que ao lado do negocio existia um deposito de
    ataudes, artigos funebres, etc. A seu ver, a navalha
    adquirira uma ligação indissoluvel com a idéa de mor-
    te. Tal passa a ser o motivo systematico da prohibição.
    Mas podemos estar certos de que mesmo sem a des-
    coberta daquella vizinhança a doente traria para casa
    a prohibição da navalha. Para ella teria sido bastante
    encontrar em caminho um enterro, uma pessoa de luto,
    ou a portadora de uma corôa funebre. A rêde das
    condições estava já bastante estendida para apanhar a
    presa, em qualquer caso; dependia da doente, pois,
    puxal-a ou não. Podia-se affirmar, com certeza, que
    em outros casos ella não iria activar as condições da
    prohibição. Diria simplesmente que fôra um “dia
    melhor”. Percebemos facilmente que a causa real da
    prohibição relativa á navalha era naturalmente uma
    defesa contra o prazer da representação de que o ma-
    rido pudesse cortar o pescoço com a navalha afiada.

    Exactamente do mesmo modo se constroe e apri-
    mora uma inhibição da marcha, uma abasia ou agora-
    phobia, quando apraz a esse symptoma assumir o pa-
    pel de um desejo inconsciente e da defesa contra o
    mesmo. Todas as demais fantasias inconscientes ou
    recordações reaes do doente utilizam, então, essa sahi-
    da, para impor-se, a titulo de manifestações sympto-
    maticas e entram, por arranjos adequados, no quadro
    da perturbação da marcha. Seria pois um trabalho
    vão e propriamente absurdo querer deduzir a estructu-

  • S.

    170

    ra symptomatica e os pormenores de uma agoraphobia,
    por exemplo, partindo das bases allegadas da mesma. –
    Toda a consequencia e rigor do conjuncto são sómente
    apparentes. Tal, como na formação da fachada do so-
    nho, uma observação mais penetrante descobrirá as
    maiores inconsequencias e arbitrariedades na archite-
    ctura dos symptomas. Os pormenores de uma tal pho-
    bia systematica têm como motivo real determinantes
    occultas que podem nada ter que ver com a inhibição
    da marcha; razão pela qual essa phobia apresenta, em
    pessoas diversas, aspectos tão variados e contradi-
    ctorios.

    Volvendo ao systema do animismo de que aqui
    nos occupamos, podemos concluir, do que sabemos dos
    outros symptomas psychologicos, que entre os primi-
    tivos a “superstição” não é tampouco o motivo unico
    de um costume ou norma isolados e não nos desobriga-
    mos da tarefa de perseguir-lhes os motivos occultos.
    No dominio de um systema animista, não ha variantes:
    cada prescripção e cada actividade tem que apresentar
    uma justificação systematica, a que hoje denominamos
    “supersticiosa”. “Superstição”, é como “angustia”,
    como “sonho”, como “demonio”, uma daquellas con-
    strucções psychologicas provisorias, que se desmoro-
    nam ante a investigação psychanalytica. Contornemos
    essas construcções que, á maneira de paraventos, de-
    fendem o conhecimento, verificaremos que se não tem
    dado á vida psychica e á cultura dos selvagens todo o
    apreço que ellas merecem.

  • S.

    171

    Considerando o recalcamento de tendencias como
    uma medida do nivel da cultura, estaremos, obrigados
    a reconhecer que sob o systema animista havia pro-
    gressos e, desenvolvimentos que tratamos com despre-
    zo injustificado, por lhes attribuirmos motivos super-
    sticiosos. Quando ouvimos dizer que os guerreiros de
    uma tribu selvagem se impõem a mais rigorosa castida-
    de e pureza, antes de penetrar no campo de batalha
    (Frazer, Taboo and the perils of the soul, p. 158),
    logo nos occorre a explicação de que elles se desemba-
    raçam das suas impurezas para que o inimigo não se
    apodere dessa parte da sua pessoa, para lesal-o por
    artes magicas; e para a abstinencia presumimos analo-
    da renuncia aos impulsos. Mas não obstante, o facto
    da denuncia aos impulsos ainda subsiste e comprehen-
    deremos melhor o caso, admittindo que o guerreiro sel-
    vagem impõe a si mesmo essas restricções por uma
    razão de equilibrio, pois está a ponto de realizar em
    toda a plenitude a libertação até então prohibida de
    suas tendencias altamente crueis e hostis. O mesmo
    succede com os numerosos casos de restricções sexuaes,
    em quem esteja dedicado a trabalhos difficeis ou de res-
    ponsabilidade (Frazer, l. cit. p. 200). Ainda quando
    a base dessas prohibições possa referir-se a uma rela-
    ção magica, ainda assim, não deve passar despercebida
    a representação fundamental de ganhar mais forças
    pela renuncia á libertação dos impulsos; e não é para
    desprezar-se a raiz hygienica da prohibição, ao lado da
    racionalização magica desta. Quando os homens de

  • S.

    172

    uma tribu selvagem vão á caça, á pesca, á guerra ou á
    colheita de plantas preciosas, as suas mulheres ficam
    em casa, submettidas a numerosas e graves restricções,
    a que os proprios selvagens attribuem mesmo uma
    acção sympathica, á distancia, sobre o resultado da ex-
    pedição. Mas não é necessario grande clarividencia
    para dar-se conta de que esse elemento, de effeito á
    distancia, nada mais é do que a idéa da volta ao lar, a
    saudade dos ausentes; e que por trás de todos esses
    disfarces se dissimula um bom conhecimento psycho-
    logico: que os homens sómente trabalharão com afinco
    se estiverem de todo tranquillos sobre a conducta das
    suas mulheres não vigiadas. De outras vezes, exprimem
    directamente, sem qualquer motivo magico, que a in-
    fidelidade da mulher póde annullar, por completo, o
    trabalho de responsabilidade do marido ausente.

    As innumeras restricções tabús a que são submet-
    tidas as mulheres dos selvagens durante a menstrua-
    ção, são motivadas pelo temor supersticioso ao sangue
    e, com effeito, têm nisso, tambem, um fundamento
    real. Mas seria injusto desprezar a possibilidade de
    que esse temor ao sangue obedecesse tambem a inten-
    ções estheticas ou hygienicas que, em todo o caso, ha-
    viam de revestir-se de motivos magicos.

    Não nos embala a illusão de que com estas tenta-
    tivas de explicação possamos escapar á censura por
    attribuir ao selvagem actual uma subtileza de activi-
    dade psychica que excede os limites de verosimilhança.
    Mas julgo que com a psychologia destes povos que fi-
     

  • S.

    173

    caram parados na phase animista, poderia assim suc-
    ceder facilmente o mesmo que com a vida psychica da
    criança, que nós, adultos, não mais comprehendemos e
    cuja riqueza e subtileza de sentimentos, por isso mes-
    mo, temos levado em tão pouca conta.

    Quero mencionar mais um grupo de prohibições
    tabús, até aqui inexplicadas, porque ellas admittem
    uma explicação familiar aos psychanalystas. Entre
    muitos povos selvagens é prohibido conservar em casa,
    sob determinadas circumstancias, armas aguçadas e
    instrumentos cortantes (Frazer, 1. cit. p. 237).
    Frazer cita uma superstição allemã, de que não se
    deve deixar uma faca com a parte cortante para cima.
    Deus e os anjos poderiam nella ferir-se. Não se verá
    nesse tabú o presentimento de certos “actos sympto-
    maticos”, para os quaes a arma afiada poderia tornar-
    se instrumento de más inclinações inconscientes?