S.
S.
S.
7
I
Diversos colaboradores desta série de
auto-biografias1) começam a sua por algumas
reflexões relativas ás particularidades e difi-
culdades do trabalho por eles assumido. Creio
poder dizer que meu proprio trabalho parece
ficar assim mais dificultado. Já publiquei di-
versas vezes estudos como o atual, e a natureza
do assunto requer que meu trabalho pessoal
seja posto em relevo, mais do que o comum,
mesmo mais do que seja necessario.
Fiz, em 1909, na Clark University
em Worcester (Mass., Estados
1) – Esta auto-biografia de Freud apare-
ceu na coleção “A medicina em autobiografias”. de
Felix Meiner, Leipzig, 1925.
S.
8
Unidos), em cinco conferencias, a primeira ex-
posição do desenvolvimento e da essencia da
psicanalise. Fui convidado a fazer essa confe-
rencia por ocasião do 20º aniversario da funda-
ção daquela Universidade 2). Recentemente
cedi á tentação de dar a uma publicação ame-
ricana um artigo de assunto analogo a esta pu-
blicação de conjunto “Ueber die Anfaenge des
20 Jahrhunderts” (Sobre os começos do se-
culo XX) tendo reconhecido a importancia da
psicanalise pela atribuição de um capitulo es-
pecial 3). Entre as duas vem intercalado um
2) — Estas conferencias apareceram em inglês
no American Journal of Psychology, 1910; em alemão
sob o titulo “Ueber Psychoanalyse” (Sobre psicana-
lise). Edição de F. Deuticke, Leipzig.3) — These eventful years. The twentieth Cen-
tury in the making as told by many of its makers.
Dois volumes. London e Nova York, The Encyclo-
pedia Britannica Company. O meu artigo, traduzido
pelo Dr. A. A. Brill, constitue o capitulo LXXIII,
do segundo volume.S.
MINHA VIDA E A PSICANALISE
texto: “Zur Geschichte der psychoanalytischen
Bewegung” (A historia do movimento psica-
nalitico), aparecido em 1914 e que contem, em
sintese, tudo quanto de essencial terei que di-
zer neste lugar tambem. Como não queria me
contradizer nem tambem repisar muito o que
já disse, ser-me-á necessario encontrar uma
nova formula entre as exposições sujetivas e
objetivas, entre a biografia e a historia.* * *
Nasci no dia 6 de Maio de 1856 em
Freiberg na Moravia, uma pequena cida-
de da Tchecoslovaquia atual. Meus pais eram
judeus, sendo eu mesmo judeu tambem. Do
lado paterno creio que meus parentes habita-
ram durante muito tempo em Colonia
sobre o Reno (Alemanha) que por occasião de
uma perseguição contra os judeus no se-
culo XIV ou XV fugiram para l’este e pelo
decorrer do seculo XIX voltaram da
9
S.
10
Lituania pela Galicia para um país de lingua
alemã (Austria).Com a idade de quatro anos levaram-me
para Viena, onde fiz todos os meus estudos.
No liceu fui, durante sete anos, o primeiro da
classe, tendo uma situação privilegiada, pois
quasi nunca prestava exames. Si bem que fos-
semos de condição social modesta, meu pai quiz
que na escolha de uma profissão eu só seguisse
a minha inclinação. Não senti nestes primeiros
anos predileção alguma pela medicina, aliás,
não a tendo igualmente sentido mais tarde. Era
antes levado por uma sêde de saber, sêde esta
que se dirigia mais para tudo quanto dissesse
respeito ás relações humanas, que aos assuntos
das ciencias naturais, sêde de saber que eu
ainda não havia reconhecido no valor da obser-
vação como meio principal de me satisfa-
zer. No entanto a doutrina, então em voga,
de Darwin, atraiu-me extraordinariamente,
prometendo dar um impulso formidavel á
compreensão das cousas do Universo e lem-
S.
11
MINHA VIDA E A PSICANALISE
bro-
me que, tendo ouvido ler, pouco antes do
fim dos meus estudos secundarios, uma con-
ferencia popular, o belo ensaio de Goethe :
“A natureza”, decidi a inscrever-me na Fa-
culdade de Medicina.A Universidade em que me matriculei em
1873, no principio me trouxe algumas dece-
pções sensiveis. Lá encontrei esta estranha exi-
gencia : devia me sentir inferior e excluido da
nacionalidade dos outros, por que era judeu.
Não me submeti, em absoluto, á primeira des-
sas pretenções que me quizeram impor. Nunca
pude compreender por que deveria sentir ver-
gonha da minha origem ou, como se começava
a dizer, da minha raça . Mas, á comunhão
da nacionalidade com os outros renunciei sem
grande pena ou remorsos.Pensava, com effeito, que um pequeno lu-
gar nos quadros da humanidade, poderia sem-
pre existir para um colaborador zeloso, mes-
mo sem uma tal renuncia. No entanto, uma con-
sequencia, mais tarde importante, dessas pri-
S.
12
meiras impressões da Universidade, foi a de
me familiarizar desde cedo com a sorte de fa-
zer parte da oposição e de sofrer a interdição
por parte de uma “maioria compacta”. Desta
maneira se preparou em mim uma certa inde-
pendencia em face da opinião publica.Demais, tive que fazer experiencia desde
os meus primeiros anos academicos de que a
particularidade e estreiteza de meus dons na-
turais me negavam qualquer sucesso nos va-
rios ramos da ciencia, para os quais eu me en-
caminhei no meu excessivo zelo juvenil. Apren-
di assim a reconhecer a verdade do conselho
que dá Mefisto:Vergebens, dass ihr ringsum wissenschaftlich
[schweift,
Ein jeder lernt nur, was er lernen kann.(“Em vão andam errando na ciencia em
todos sentidos; Ninguem aprende mais do que
deve saber”).Foi no laboratorio de fisiologia de
S.
13
MINHA VIDA E A PSICANALISE
Ernest Brücke que encontrei emfim,
repouso e completa satisfação, do mesmo modo
como pessoas que me era possivel respeitar e
que me podiam servir como exemplo. Brücke
me deu um trabalho relativo á histologia do
sistema nervoso que eu pude realisar a seu con-
tento e prosseguir, em seguida, com indepen-
dencia. Trabalhei no laboratorio de 1876 a 1882,
com pequenos intervalos, e já me tinham indi-
cado para a proxima vaga de assistente Os di-
versos ramos da medicina, propriamente dita,
com excepção da psiquiatria não me atraia.
Prosegui em meus estudos medicos sem entu-
siasmo e só colei grau em 1881, com um notavel
atrazo, como se pode facilmente verificar.A reviravolta produziu-me em 1882, quan-
do do meu mestre, que eu respeitava mais do que
tudo, corrigiu a generosa leviandade de meu
pai, exortando-me, isto devido á minha má si-
tuação material, a abandonar os estudos teo-
ricos.Segui seu conselho, abandonei o laborato-
S.
14
rio de fisiologia e entrei como aluno no Allge-
meine Krankenhaus (Hospital Central de Vie-
na de Austria). Aí, ao cabo de pouco tempo,
fui promovido a medico secundario (inter-
no) e passei por varias clinicas, sendo mais de
seis mezes na de Meynert, cuja obra e
personalidade já me haviam fascinado, quan-
do ainda estudante.Fiquei, no entanto, de um certo modo fiel
á orientação que, de principio, tomaram meus
trabalhos. Brucke deu-me como tema de pes-
quizas a medula espinhal de um dos
peixes mais inferiores (Ammocoetes-Petromy-
zon); deste passei, então, ao sistema nervoso
central do homem, sobre cuja estrutura com-
plexa acabaram de me esclarecer as descobertas
de Flechsig, concernentes á formação
sucessiva das bainhas medulares. O fato de ter
escolhido como primeiro trabalho o bulbo
(a medula oblongata), era ainda uma conse-
quencia do meu principio. Em oposição á na-
tureza difusa de meus estudos nos primeiros
S.
15
anos de universidade, desenvolvia-se agora em
mim uma tendencia de concentração exclusiva
do trabalho sobre uma materia ou um unico
problema. Essa tendencia ficou-me e valeu-me,
mais tarde, a censura de unilateralidade.Era, agora, no Instituto de Anatomia cere-
bral, um trabalhador tão zeloso quanto antes
no Instituto Fisiologico. Pequenos trabalhos
sobre o trajeto das fibras e a origem dos no-
dulos no bulbo vieram á luz nesses anos
de hospital e foram mesmo anotados por
Edinger. Um dia Meynert que me
facultara seu laboratorio, mesmo antes de ter
entrado para seu serviço, propôs que, si me
consagrasse definitivamente á anatomia do ce-
rebro, confiar-me-ia seu curso, por sentir-se
muito velho para encarregar-se de novos me-
todos. Declinei o oferecimento, apavorado pela
amplitude do encargo; adivinhára talvez, desde
então, que este homem genial não estava bem
intencionado a meu respeito.A anatomia do cerebro, do ponto de vista
S.
16
pratico, certamente não era um progresso, com
relação á fisiologia. Lutei com dificuldades ma-
teriais e estas me obrigaram a começar o estu-
do das doenças nervosas. Essa especialidade
não estava muito em voga, naquela época. Os
doentes, dispersos em diversas seções de medi-
cina interna, não ofereciam boas oportunida-
des de aperfeiçoamento e cada um precisava
ser seu proprio mestre. Nothnagel, pou-
co antes convidado a ocupar uma cadeira da
materia de seu livro sobre as localisações cere-
brais, não salientava a neuropatologia dentre
os outros dominios parciais da medicina inter-
na. Ao longe brilhava o grande nome de
Charcot e foi assim que concebi o plano
de adquirir, primeiramente, o posto de docente
para as doenças nervosas, e, em seguida, ir a
Paris continuar minha instrução. Nos anos que
se seguiram, durante meu serviço de interno,
publiquei a observação de diversos casos rela-
tivos ás doenças organicas do sistema nervoso.
Familiarisei-me, pouco a pouco, com este domi-
S.
17
nio, localisei um fóco no bulbo com uma preci-
são tal que o anatomo-patologista nada tinha a
acrescentar; fui o primeiro, em Viena, a man-
dar para dissecação um caso com o diagnos-
tico de “polyneuritis acuta”.(cefalalgia)
A fama de meus diagnosticos, confirma-
dos pela autopsia trouxe-me uma afluencia de
medicos americanos a quem dava cursos com a
apresentação de doentes da minha clinica,
numa especie de “Pidgin-English” (um inglês
mal falado). Nada entendia, naquela época, de
neuroses. Tendo apresentado, um dia, aos meus
ouvintes um neuropata, afectado de uma ce-
falgia fixa, circunscrita por um caso de menin-
gite cronica, afastaram-se todos de mim, num
justo acesso de revolta critica e meu prematu-
ro professorado findou-se. Para aliviar minha
culpa, seja dito que nesta ocasião as maiores
autoridades de Viena diagnosticaram a neu-
rastenia como tumor do cerebro.Durante a primavera de 1885 fui promo-
vido a docente de neuropatologia em vista deS.
meus trabalhos histologicos e clinicos. Logo de
pois, graças á calorosa recommendação de
Brucke, ganhei um avultado premio de
viagem.Entrei como aluno na Salpêtrière, mas,
a principio, perdido entre todos os alunos vin
dos do estrangeiro, fui pouco considerado. Um
dia ouvi Charcot lamentar que o tradu
tor alemão de suas obras não tivesse dado mais
signal de vida depois da guerra (franco-alemã
de 1871). Declarou que gostaria que alguem
traduzisse as suas “Novas lições”.
Escrevi-lhe para offerecer meus préstimos;
lembro-me mesmo que a carta continha esta
frase: só me afetava a “Aphasie motrice” mas
não a “Aphasie sensorielle du français”.
Charcot attendeu-me, introduziu-me na sua
intimidade; desde então pude tomar parte em
tudo o que dizia respeito á clinica.Emquanto escrevo este ensaio, recebo da
França innumeros artigos e recortes de jornais,
testemunhando uma luta violenta contra a acei-
18
S.
19
tação da psicanalise e apresentando minhas re-
lações com a escola francesa sob as cores mais
negras. Li, por exemplo, que aproveitei a mi-
nha estadia em Paris para me familiarisar com
as doutrinas de P. Janet, tendo depois
fugido com o toucinho. Por isso quero mencio-
nar especialmente que o nome de Janet
durante a minha estadia na Salpêtrière não foi
nem mesmo pronunciado.De tudo que vi com Charcot o que
me causou mais impressão foram suas últimas
pesquizas sobre histeria, feitas ainda em parte
sob minhas vistas. Assim, a constatação da rea-
lidade e legalidade dos fenomenos histéricos
(„Introite et hic dii sunt“), a frequente pre-
sença da histeria no homem, a produção de pa-
ralisias e contrações histéricas pela sugestão
hipnótica, e mais ainda, que estas produções ar-
tificiais, apresentavam nos seus minimos deta-
lhes os mesmos caracteres que as espon-
taneas e os casos fortuitos provocados por
um traumatismo. Varias demonstrações de
S.
20
Charcot despertaram em mim como em
outros alunos estrangeiros uma admiração ten-
dente á contradição: maneira de sentir que
tentavamos explicar apelando para uma e ou-
tra teorias então em voga. Charcot
respondia sempre ás nossas objecções com afa-
bilidade e paciência, mas tambem com muita
decisão e, numa dessas discussões pronunciou
estas palavras: “Ça n’empêche pas d’exister”,
palavras que deveriam gravar-se em mim ines-
quecíveis.Sabe-se que tudo quanto então Charcot
nos ensinou, não subsistiu. Uma parte tornou-
se duvidosa, não tendo a outra resistido á pro-
va do tempo. Mas desta obra ficou o suficiente
para constituir um patrimônio durável na ciên-
cia. Antes de deixar Paris, combinei com o
mestre o plano de um trabalho, tendo em mira
a comparação entre as paralisias histéricas e
as orgânicas. Queria assim demonstrar a tese
de que, na histeria, as paralisias e anestesias
das varias partes do corpo, são determinadas
S.
21
MINHA VIDA E A PSICANALISE
segundo a representação popular (não anatô-
mica) que se faz. Concordava comigo, mas
via-se facilmente que no fundo não tinha pre-
dileção alguma por um estudo psicológico pro-
fundo da neurose. Mas não me esqueci que a
sua origem na medicina provem da anatomia
patológica.Antes de voltar a Viena, passei umas se-
manas em Berlim, afim de adquirir al-
guns conhecimentos sobre as doenças gerais
das crianças. Kassowitz, em Viena, que
dirigia uma clínica de crianças, prometera aí
organisar uma seção para as atingidas de do-
enças nervosas. O doutor Ad. Baginsky
teve para comigo, em Berlim, um acolhimento
amigo e animador. No Instituto Kassowitz, nos
cursos dos anos seguintes, publiquei alguns
trabalhos bem extensos sobre as paralisias ce-
rebrais uni ou bilaterais das crianças. Foi por
isso tambem que mais tarde, em 1897,
Nothnagel confiou-me este assunto no
S.
22
seu grande “Manual de terapêutica geral e
especial”.
No outono de 1886 fixei-me como médico
em Viena e casei-me com a jovem que há mui-
tos anos me esperava numa cidade longínqua.
Voltando para trás na minha narrativa devo
dizer que foi por culpa de minha noiva que não
me tornei célebre e famoso desde os primeiros
anos da minha juventude. Por um interêsse di-
vergente de meus estudos, mas no entanto pro-
fundo, fui levado a mandar buscar dos fabri-
cantes Merck um alcaloide, então muito
conhecido, a cocaina, para estudar os
seus efeitos fisiológicos Quando estava absor-
vido por esse trabalho, apresentou-se-me a pos-
sibilidade de uma viagem que me permitiria
rever a minha noiva de quem estava separado
havia mais de dois anos. Conclui apressadamen-
te as pesquisas sobre a cocaina e, na minha re-
vista annunciei que breve appareceriam novas
applicações desta substância. No entanto encar-
reguei um dos meus amigos, o oculistaS.
23
L. Königstein de experimentar até que
ponto poderiam as propriedades anestesiantes
da cocaina ser utilizadas sôbre o ôlho doente.
Quando voltei das férias soube, não por ele, mas
sim por outro amigo, que Carlos Koller
(atualmente em Nova York) a quem havia
igualmente falado sobre a cocaina, havia
feito as experiências decisivas sobre o ôlho dos
animais e as apresentara ao Congresso de Of-
talmologia de Heidelberg. Koller passa,
por conseguinte, e muito justamente, por ter
descoberto a anestesia local pela cocaina que
se tornou importante na pequena cirurgia. No
entanto não guardei rancor á minha noiva por
ter perdido uma boa oportunidade.Prossigo, pois, com a minha fixação em
Viena em 1886, como especialista em doenças
nervosas. Devia fazer na “Sociedade médica”
um relatório sôbre o que vira e aprendera com
Charcot, mas fui muito mal recebido.
Autoridades como Bamberger, um in-
ternista, e o presidente da Sociedade, declara-S.
ram que o que eu dizia não era digno de fé.
Meynert aconselhou-
se a procurar em Viena
casos semelhantes aos que tinha descrito e
apresental-os na Sociedade médica. Foi o que
tentei fazer. Mas os médicos primários dos
hospitais, em cujas clínicas encontrei casos se-
melhantes, se recusaram a deixar-me observá-
los e tratá-los Um deles, velho cirurgião, ex-
clamou: “Mas meu caro colega, como pode di-
zer tais absurdos! Hysteron (sic!) significa
útero. Como poderia pois um homem ser
histérico?” – Objectei em vão que preci-
sava de uma possibilidade para observar o caso
e não de uma aprovação para o meu diagnósti-
co Descobri, então, fóra do hospital um caso
clássico de hemianestesia histérica, num ho-
mem; caso que apresentei á Sociedade Médica.
Desta vez fui aplaudido, sendo que depois não
despertei mais interêsse. A impressão de que
“as autoridades competentes” tinham repelido
minhas inovações ficou em todos inabalável;
achei-me com a histeria no homem e a produ-
24
S.
25
MINHA VIDA E A PSICANALISE
ção pela sugestão de paralisias histéricas, rele-
gado na oposição. Por esse motivo o laborató-
rio de anatomia cerebral me foi vedado e durante
os semestres não tive mais onde fazer meu cur-
so. Retirei-me, assim, da vida acadêmica e
médica.Depois disso nunca mais voltei á “Socie-
dade Médica”.Quem deseja viver dos tratamentos de mo-
lestias nervosas deve evidentemente poder fa-
zer qualquer cousa por elas Meu arsenal tera-
pêutico não continha mais de duas armas: a
eletroterapia e a hipnose, pois, mandar o pa-
ciente depois de uma única consulta para um
estabelecimento hidroterápico, não era fonte
de rendas que desse para viver. Consultava,
sôbre o que concerne à eletroterapia, o ma-
nual de W. Erb, que dá prescrições de-
talhadas sôbre o tratamento de todos os sinto-
mas das molestias nervosas. Cedo eu deveria,
infelizmente, reconhecer que minha docilidade,
em seguir estas prescrições, não era de eficáciaS.
26
alguma, pois o que havia tomado pelo resultado
de observações exactas, não era senão uma ilu-
são. A descoberta de um livro assinado por um
dos primeiros nomes na neuropatologia alemã,
não tinha absolutamente, relação alguma com a
realidade, tal uma chave de sonhos “egípcios”,
como se vende nas livrarias populares. Foi do-
loroso, mas isto me ajudou a perder ainda um
pouco da ingênua crença nas autoridades das
quais ainda não me havia desligado. Botei
de lado o aparelho eléctrico antes mesmo de
Môbius proferir estas palavras libertado-
ras: Os sucessos do tratamento eléctrico
“si é que existem” são devidos, unicamente, á
sugestão médica.O caso da hipnose parecia muito
melhor. Estudante ainda, assistira á uma
sessão de um “magnetisador”, o famoso
Hansen e notei que uma das pessoas
submetidas ás experiencias tornara-se de uma
palidez cadavérica no momento em que caía
na catalepsia, permanecendo assim durante to--
S.
27
da a duração dêsse estado. Isso assentou sôbre
uma base firme a minha convicção da realida-
de dos fenomenos hipnóticos. Logo depois êste
modo de ver encontrou em Heidenhain
seu representante científico, o que, porém, não
impediu que os professores de psiquiatria de-
clarassem ainda por muito tempo, ser a hipno-
se um charlatanismo e, mais ainda, um charla-
tanismo perigoso e de encararem com desprêso
os hipnotisadores. Pude ver em Paris como
a hipnose era utilisada sem hesitação, para ex-
citar nos doentes sintomas para, em seguida,
libertá-los deles. Foi então que chegou-nos a
noticia de que em Nancy, haviam iniciado
uma escola que se utilisava, em grande escala,
da sugestão com ou sem hipnose; e isto com
êxito muito especial nos casos terapêuticos.
Muito naturalmente nos primeiros anos da mi-
nha prática médica, sem atender aos métodos
psico-terapêuticos, empregados, ás vezes, de
modo não sistemático, a sugestão tornou-se o
meu principal instrumento de trabalho. Renun-
S.
ciei, assim, ao tratamento das doenças nervosas
orgânicas, sem contudo por isso perder grande
cousa, porque de um lado a terapêutica dêsses
estados nenhuma perspectiva satisfatória ofe-
recia, e do outro, na clínica particular do médi-
co ins talado na cidade, o número diminuto dos
doentes dessa classe desaparecia diante do nú-
mero imenso dos neuróticos, número ainda
multiplicado pelo fáto dêstes doentes correrem,
sem encontrar socorro, de um médico a outro.
E além de mais nada, o trabalho me seduzia,
era fascinante. Tinha-se desde o começo o sen-
timento de ter superado a própria impotência,
sendo a fama de taumaturgo muitíssimo li-
songeira. Deveria, mais tarde, descobrir os de-
feitos do processo da hipnose, mas no momento
só me podia queixar de duas coisas: em pri-
meiro lugar não se conseguir hipnotisar todos
os doentes, em segundo, não se ter o poder de
mergulhar todo o mundo numa hipnose tão
profunda quanto seria necessário para aten-
der a diversos sintomas.
28
S.
29
MINHA VIDA E A PSICANALISE
Na intenção de aperfeiçoar a minha técni-
ca hipnótica, parti no verão de 1889 para
Nancy, onde passei várias semanas; vi o
velho e comovente Liébault, trabalhan-
do junto ás pobres mulheres e crianças da po-
pulação proletária; testemunhei as extraordi-
nárias experiências de Bernheim com
os seus doentes do hospital e foi aí que recebi
as mais fortes impressões relativas á possibi-
lidade de poderosos processos psíquicos ainda
desconhecidos pelos homens. Afim de me ins-
truir, levei para Nancy uma das minhas pa-
cientes. Era uma histérica de elevada posição
social e intelectualmente dotada, que me confia-
ram por não saberem o que fazer della. Tornei-
lhe possível a existência pela sugestão hipnó-
tica e eu tinha o poder de erguê-la sempre de
seu miserável estado.Como sempre, depois de algum tempo, ela
reincidia, o que eu atribuia, na minha ignorân-
cia de então, que sua hipnose nunca atingia o
grau completo de somnambulismo com amnésia
S.
30
Bernheim tambem experimentou,
várias vezes, mergulhá-la numa profunda hip-
nose, mas não obteve melhor resultado do que
eu mesmo. Confessou-me francamente nun-
ca ter obtido seus grandes sucessos terapêuti-
cos pela sugestão, fóra da sua clínica de hospi-
tal nem mesmo sôbre os doentes que tinha no
consultório. Tive com ele conversas muito in-
teressantes e empreendi traduzir para o alemão,
seus dois trabalhos sôbre a sugestão e seus efei-
tos terapêuticos.De 1886 a 1891 trabalhei, pouco científi-
camente e quasi nada publiquei. Estava pre-
ocupado com a necessidade de me instalar na
nova profissão e assegurar minha família, ra-
pidamente aumentada. Em 1891 apareceu o
primeiro dos meus trabalhos relativo ás pa-
ralisias cerebrais, redigido em colaboração
com meu amigo e assistente Dr. Oscar
Rie. No mesmo ano uma proposta de co-
laborador num dicionário médico me incitou
a elucidar o problema da afasia, então domi-
S.
31
MINHA VIDA E A PSICANALISE
nado pelo ponto de vista estreito das localisa-
ções de Wernicke-Lichtenstein. Um pequeno livro de crítica especulativa, in-
titulado “Zur Auffassung der Aphasie” (A
concepção da afasia) foi a consequência des-
ses esforços.Preciso agora prosseguir e demonstrar
como a investigação científica tornou-se o in-
terêsse principal da minha vida.
S.
You are here
Minha Vida e a Psicanálise1925-041/1934.pt