S.
S.
S.
85
IV.
As doutrinas da resistência e do recalca-
mento do inconciente, da significação etioló-
gica da vida sexual e da importância dos acon-
tecimentos da infância, são as partes essenciais
do edifício psicanalítico. Lamento não poder
descrevê-las aqui separadamente e não poder
mostrar como se ajustam e encadeiam uma
sôbre a outra. E' agora tempo de nos ocupar-
mos das modificações sobrevindas pouco a
pouco na técnica do próprio método analítico.O método empregado, a princípio, e que
consistia em superar a resistência com garan-
S.
86
S I G. F R E U D
tias e instâncias, fôra indispensavel, afim de
fornecer ao médico a primeira orientação para
o que esperára encontrar. Com a continuação,
no entanto, eram necessários muitos esforços
de uma e outra parte o que não parecia pô-las
ao abrigo de certas objeções imediatas. Em vez
de forçar o paciente a dizer alguma coisa rela-
tiva ao tema determinado, incitava-se-o agora a
abandonar-se ás suas “associações livres”, quer
dizer, a comunicar tudo que lhe vinha á mente
desde que se abstinha de tomar por fim uma
representação conciente qualquer. Mas urgia
tomar o compromisso de comunicar na íntegra
tudo quanto lhe fornecia a percepção interior
e não ceder ás objeções críticas que o impelis-
sem a rejeitar certas idéias como não sendo de
suficiente importância ou sem razão para o as-
sunto, ou ainda perfeitamente desprovidas de
sentido. A exigência da sinceridade não preci-
sava ser repetida expressamente: era condição
da cura analítica.Pode parecer estranho que êsse método da
S.
87
MINHA VIDA E A PSICANALISE
livre associação, aliada á observação da
regra fundamental da psicaná-
lise, seja capaz de realisar o que dele se
espera, isto é, trazer á conciencia o material
reprimido e assim mantê-lo pelas resis-
tências. Mas é preciso considerar que a
associação livre, em realidade, não é livre.
O paciente permanece sob a influência da
situação analítica, mesmo quando não diri-
ge sua actividade mental sôbre um determina-
do tema. Fica-se com o direito de admitir que
nada mais lhe virá á mente a não ser o que
se lhe relacionar com essa situação. Sua resis-
tência contra a reprodução do reprimido ma-
nifestar-se-á sob dois aspetos. Primeiro, por
essas objeções críticas contra as quais é dirigi-
da a regra fundamental da psicanálise. Sobre-
puja ela, graças á observação desta regra, es-
ses obstaculos, encontrando então a resistência
uma outra expressão. A resistência impedirá
que venha ao espírito do analisado, o recalcado,
mas substitui-lo-á por algo que esteja em re-
S.
88
lação com o próprio recalcado, a modo de uma
alusão.Quanto maior fôr a resistência, mais a
idéia substitutiva se afastará do que propria-
mente se procura. O analista que escuta com
recolhimento, mas sem tensão do esfôrço, o que,
em virtude de sua experiência geral, está pre-
parado para o que advier, pode utilisar agora
do material que o paciente desvenda, seguindo
dois caminhos de possibilidades. Ou consegue,
quando a resistência é fraca, adivinhar, pelas
alusões, o recalcado, ou então pode, diante de
uma resistência mais forte, conforme as asso-
ciações que parecem afastar-se do tema, reco-
nhecer a natureza dessa resistência, que traz,
então, ao conhecimento do paciente. Mas a des-
coberta da resistência é o primeiro passo feito
para superá-lo. Assim há no quadro do traba-
lho analítico, uma técnica de inter-
pretação, cujo feliz manejo exige, certa-
mente, tato e prática, mas que não é difícil
aprender.
S.
89
O método da associação livre apresenta
grandes vantagens sôbre o precedente, não só-
mente na da economia do esfôrço. Poupa o mais
possível toda a coação ao paciente, nunca perde
o contato com a realidade do presente, dá as
mais amplas garantias de que nenhum fator na
estrutura da neurose escapará e de que não se
introduzirá nada por sua própria espectativa.
Empregando-se-o, recorre-se essencialmente ao
paciente para determinar a marcha da análise,
e a coordenação das matérias; é o que impos-
sibilita a ocupação sistemática de cada um dos
sintomas e complexos isolados. Absolutamente
ao contrário do que acontece nos métodos hip-
nóticos ou “exortadores”, descobrem-se as va-
rias peças dos conjuntos, em tempos e luga-
res diferentes, no decorrer do tratamento.
Para um terceiro – cuja presença em reali-
dade não é admissível – a cura analítica seria,
consequentemente, perfeitamente ininteligí-
vel.Uma outra vantagem do método consiste
em que, efetivamente, nunca deveria falhar.
S.
90
Deve ser, com efeito, sempre possível ter uma
“idéia”, de vez que se renuncia toda pretensão
quanto á sua natureza. No entanto, o método
falha de todo, regularmente, num caso – mas
justamente, por seu isolamento, esse caso tor-
na-se tambem interpretável.Vou agora descrever um fator que acres-
centa ao quadro da análise um traço essencial
e que tem o direito de reivindicar a maior si-
gnificação técnica e teorética. Em todo o trata-
mento analítico se estabelece, sem que o médico
para isso contribua, uma intensa relação afeti-
va do paciente para com a pessoa do analista,
relação que em nada pode ser explicada pelas
relações reais. Ela é de natureza positiva ou
negativa, pode ser de todas as matizes, desde
um estado amoroso apaixonado e francamente
sensual, até á mais extrema expressão de re-
volta, animosidade e ódio. Esta transfe-
rência, como resolvemos chamar a êste
fenomeno, toma em breve, no paciente, o lu-
gar do desejo de cura e torna-se, enquanto per-S.
91
MINHA VIDA E A PSICANALISE
manece moderado o têrmo, o agente da influên-
cia do médico e, propriamente dito, o motor do
trabalho analítico comum.Mais tarde, quando se torna apaixonado
ou deriva para hostilidade, fica sendo o instru-
mento principal da resistência. E’ então quan-
do se paralisa a atividade associativa e cor-
re perigo o sucesso do tratamento. Mas seria
insensato querer escapar: uma análise sem
transferências é uma impossibilidade. E’ pre-
ciso não pensar que a análise cria a transfe-
rência e que esta só se produza na analise. A
análise não faz senão descobrir e isolar a trans-
ferência. A transferência é um fenômeno hu-
mano geral, decidindo do sucesso em todo tra-
tamento em que age o ascendente médico. Muito
mais: domina todas as relações de uma deter-
minada pessoa com seu séquito humano. Não
é difícil reconhecer nele o mesmo fator dinâ-
mico que os hipnotisadores denominaram su-
gestionabilidade, que é o agente da relação hip-
nótica e de cujo capricho se queixa o métodoS.
catártico. Onde a tendência á transferência afe-
tiva faz falta, ou tornou-se de todo negativa,
como na demência precoce ou na paranóia, a
possibilidade de influenciar psìquicamente o
doente, deixa de existir.E' absolutamente exato que a psicanálise
trabalha tambem por meio da sugestão,
como outros métodos psicoterapêuticos. Mas a
diferença está em que a decisão, relativa ao su-
cesso terapêutico, não fica aqui abandonada á
sugestão ou á transferência. A sugestão é an-
tes empregada em levar o doente a realisar um
trabalho psíquico: superar suas resistências de
transferência, o que equivale a uma modifica-
ção durável de sua economia psíquica. O ana-
lista restitue ao doente a transferência con-
ciente, e a transferência resolve-se, por se po-
der convencer o doente de que todo o seu modo
de agir na transferência, não é sinão a
reprodução de revelações afetivas, ema-
nando de suas mais precoces investidas do ob-
jeto, do período recalcado da sua infância. As-
92
S.
93
MINHA VIDA E A PSICANÁLISE
sim, por essa recordação, a transferência tor-
na-se como arma mais forte da resistência, o
melhor instrumento da cura analítica. A mani-
pulação da mesma, porém, é e fica sendo a
parte mais difícil, mas também a mais impor-
tante, da técnica analítica.Graças ao método da associação livre e á
técnica de interpretação que a ele se prende, a
psicanálise consegue realizar uma coisa que não
parecia de grande importância prática, mas
que, na realidade, devia conduzir a uma posi-
ção e uma valorização, inteiramente novas, na
evolução científica. Tornou-se possível provar
que os sonhos têm um sentido e que podem ser
adivinhados. Os sonhos na antiguidade clássica
eram altamente considerados como predições
do futuro; a ciência moderna não queria ouvir
falar do sonho. Relegava-os ao domínio da su-
perstição, declarava-o um simples ato corpo-
ral, uma espécie de vibração da vida psíquica,
no mais das vezes adormecida. Que um sábio,
tendo já executado trabalhos científicos sérios,S.
94
pudesse entrar em cena como “interpretador de
sonhos”, parecia, pois, dever ficar excluído.
Mas, de vez que não se tratava de uma tal con-
denação do sonho, que era considerado como
um sintoma neurótico incompreendido, uma
idéia delirante ou coacta que, desviando-se a
gente do seu conteúdo aparente, tomava pelo
objeto da associação livre suas imagens isola-
das, chegava-se então a um resultado comple-
tamente diverso. Tomava-se conhecimento,
pelas inúmeras associações do sonhador, de um
conjunto de pensamentos que não podia mais
ser chamado absurdo nem confuso. Correspon-
dia a um ato psíquico de inteiro valor e cujo
sonho manifesto não era senão uma
tradução deformada, encurtada e mal compre-
endida, o mais das vezes, uma tradução em ima-
gens visuais. Esses pensamentos
latentes do sonho continham o
sentido do sonho; o conteúdo manifesto do
sonho não era senão uma ilusão, uma fachada
S.
95
MINHA VIDA E A PSICANALISE
de onde a associação para a verdade podia par-
tir, mas não a interpretação deles.Achavamo-nos agora na obrigação de res-
ponder a uma série de perguntas cujas princi-
pais eram: haverá um motivo para a forma-
ção do sonho, em que condições poderá ser
realisado, por que meios os pensamentos laten-
tes do sonho, sempre cheio de sentido, serão
trazidos no sonho quasi sempre insensato ? Na
minha obra INTERPRETAÇÃO DOS SO
NHOS que publiquei em 1900, tentei resolver
todos esses problemas. Só ha aquí lugar para o
mais curto sumário dessas pesquisas.Quando se perscruta os pensamentos que
se aprendeu a conhecer pela análise dos sonhos,
entre eles se descobre um que se destaca li-
vremente dos outros compreensíveis e bem co-
nhecidos do adormecido. Estes outros pensa-
mentos são lembranças da vida acordada (lem-
branças diurnas); no pensamento isolado, no
entanto, se reconhece um desejo, muitas vezes
chocante, estranho á vida desperta do sonhador
S.
96
e que ele acolhe, em consequência, por palavras
admiradas ou indignadas. Esta aspiração é o
elemento formador do sonho e forneceu a ener-
gia necessária á produção do sonho, servindo-
se das lembranças diurnas como de um sim-
ples material; o sonho assim constituido repre-
senta uma situação em que essa aspiração é sa-
tisfeita; o sonho é a realisação deste
desejo. Este processo não teria sido exe-
quível si alguma coisa na natureza, em estado
de sonho não o favorecesse. A condição psí-
quica fundamental do sonho é a conservação do
ego e desejo do sonho, o que implica o retrai-
mento das investidas de todos os outros inte-
rêsses da vida. Como ao mesmo tempo os ca-
minhos, levando á movibilidade, estão fecha-
dos, o ego pode diminuir a quantidade de es-
forço com a qual mantém, de ordinário, os re-
calcamentos. A aspiração inconciente aproveita
este relaxamento noturno do recalcamento,
para fazer erupção com o sonho, na conciência,
A resistência da repressão do ego não é, no en-
S.
97
MINHA VIDA E A PSICANALISE
tanto, tambem suprimida; ela fica durante o
sonho apenas diminuida. Dela fica um resto,
que é a censura do sonho, que ago
ra impede o desejo inconsciente de se manifes
tar sob as formas que lhe seriam em realidade
adequadas. Em virtude da severidade do so-
nho, os pensamentos oníricos devem permitir as
modificações e atenuações que tornam irreco-
nhecíveis os sentidos reprovados do sonho.Eis
aí a explicação da deformação do so-
nho á qual o sonho manifesto deve seus mais
salientes carateres. Isso justifica esta frase: O
sonho é a realização (disfarçada)
de um desejo (recalcado).Já
reconhecemos que o sonho é constituido como
um sintoma neurótico e que ele é uma forma-
ção de compromisso entre a exigência de uma
aspiração instintiva reprimida e a resistência
de uma potência censurante no ego. Em virtude
de uma gênese semelhante, é tão igualmente in-
compreensível quanto o sintoma e exige, como
ele, tambem uma interpretação.S.
98
A função geral dos sonhos é facil de ser
descoberta. Serve para nos proteger contra as
excitações externas ou internas, por assim di-
zer, lisonjeando-as; excitações que poderiam
fazer despertar o desejo, asseguram assim o
sonho contra o que poderia perturbá-lo. Assim
acontece com a excitação externa: esta perde
o seu sentido inicial e aparece incorporada á
uma situação qualquer e sem importância;
quanto á excitação interna, oriunda das exi-
gências do impulso, o adormecido lhe deixa o
campo livre e lhe concede satisfação pela for-
mação do sonho, por tanto tempo quanto os
pensamentos latentes do sonho não se subtra-
iram ao jugo da censura. Mas si êste perigo
ameaça, o sonho torna-se muito claro; o ador-
mecido interrompe o sonho e acorda assustado
(pesadelo). O processo que, em colabo-
ração com a censura do sonho, traz os pensa-
mentos latentes para o conteudo manifesto do
sonho, denominei-o elaboração do
sonho. Ele consiste num tratamento-
parti-
S.
99
MINHA VIDA E A PSICANALISE
cular do material de pensamento preco-
ciente,
graças ao qual esses diversos pensamentos são
condensados. Seus atos psíquicos são
deslocados, e o todo é então transporta-
do em imagens visuais ou dramatizado, sendo
em seguida completado por uma elabora-
ção secundária, que o torna incom-
preensível. O trabalho da elaboração do sonho
é um excelente modelo dos processos próprios
aos sonhos profundos e inconcientes da vida
psíquica, processos que diferem consideravel-
mente dos processos mentais normais por nós
conhecidos. Ela dá a conhecer uma quantidade
de traços arcaicos, por exemplo, o emprego de
um simbolismo sexual aqui predominante que,
em seguida, encontramos em outros dominios
da atividade mental.Pondo-se a aspiração instintiva em rela-
ção com um resto diurno, um interêsse ainda
não esgotado da vida desperta, dá ao sonho
que ela forma um duplo valor para o trabalho
analítico. O sonho interpretado é, pois, por um
S.
100
lado a realização do desejo recalcado e, por
outro, pode ter perseguido a atividade mental
preconciente do dia, ficando cheio dos mais
variados conteúdos, exprimindo assim um pro-
jeto, um aviso, um reflexo ou, novamente, a rea-
lisação de um desejo. A análise serve-se disso
em duas direções, tanto para tomar conheci-
mento do analisado, seja dos processos concien-
tes ou inconcientes. Ela tira, tambem, vanta-
gens da circunstância de ser o material da vida
infantil acessível ao sonho de tal sorte que a
anêsia infantil é o mais das vezes superada em
ligação com a interpretação do sonho. O sonho
realisa aqui uma parte do que dantes era im-
posto á hipnose. Nunca disse o que muitas ve-
zes me foi atribuido, que resultasse da inter-
pretação dos sonhos terem todos os sonhos um
sentido sexual, ou se referissem a fôrças im-
pulsivas sexuais. E' facil ver que a fome, a
sede e as necessidades excrementais geram so-
nhos como qualquer outra aspiração recalca-
da, sexual ou egoista. As crianças nos forne-
S.
101
MINHA VIDA E A PSICANALISE
cem a possibilidade de facilmente provar o
quanto é certa nossa teoria dos sonhos Nela,
em que os diversos sistemas psíquicos não são
ainda nitidamente separados, em que os recal-
camentos ainda não são profundamente esta-
belecidos, encontramos muitas vezes sonhos que
não são nada mais do que a realização não dis-
farçada de um desejo qualquer do dia prece-
dente. Sob a influencia de necessidades físicas
inferiores, os adultos podem tambem ter tais
sonhos de tipo infantil.A analise emprega um método idêntico ao
da interpretação dos sonhos, para o estudo dos
pequenos atos falhos e ações sintomáticas, tão
frequentes, dos homens, assunto ao qual con-
sagrei um estudo: A PSICOPATOLOGIA DA
VIDA QUOTIDNANA, publicado em 1904.
Este livro, o mais lido dos meus trabalhos, pro-
va que êstes fenomenos não são absolutamente
devidos ao acaso, ultrapassando as explicações
fisiológicas, cheias de sentido e interpretaçõesS.
102
e justificando a con
se referem a aspirações retidas ou recalcadas.
O valor particular da interpretação dos sonhos,
como deste outro estudo, não reside, no entanto,
no apoio que trazem ao trabalho analítico, mas
sim numa outra das suas qualidades. Até aí a
psicanálise só se ocupára em resolver fenome-
nos patológicos e precisará, afim de explicá-
los, recomeçar muitas vezes.Mas o sonho com que começamos a entre-
ter-nos, não é um sintoma doentio, era um fe-
nômeno da vida psíquica normal, inerente a
todos homens de saúde perfeita. Si o sonho é
construido como um sintoma, si a sua interpre-
tação exige as mesmas suposições que o recal-
camento dos impetos impulsivos, – a forma-
ção de substituições e compromissos, os diver-
sos sistemas psíquicos para colocação do con-
ciente e inconsciente, então a psicanálise não é
mais uma ciência auxiliadora da psicopatolo-
gia, mas sim o princípio de uma ciência psí-
quica nova mais fundamental, que se torna in-
S.
103
MINHA VIDA E A PSICANALISE
dispensável para a compreensão do normal. Po-
deríamos agora, por suas constatações e re-
sultados, transferir aos demais campos dos
acontecimentos psíquicos e espirituais o que até
aí se achava sem classificação: o caminho para
o incomensurável, para o interêsse universal
estava aberto !
S.
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Minha Vida e a Psicanálise1925-041/1934.pt