Minha Vida e a Psicanálise1925-041/1934.pt
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    Interrompo aqui a exposição do desenvol-
    vimento interno da psicanalise para me ocupar
    de seus destinos exteriores. O que dei a conhe-
    cer até aqui, de suas acquisições, era, em tra-
    ços gerais devido ao meu próprio trabalho.
    Introduzi, tambem, no conjunto resultados ul-
    teriores, sem separar das minhas, as observa-
    ções de alunos e discípulos.

    *
    * *

    Durante mais de uma decada, depois da
    minha separação de Breuer, não tive

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    um unico discípulo ! Fiquei absolutamente
    isolado. Em Viena evitavam-
    me; no estrangei
    ro ignoravam-
    me. A INTERPRETAÇÃO
    DOS SONHOS, editada em 1900 foi apenas
    mencionada nas revistas de psiquiatria. Na
    minha CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTO
    RIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO,
    dei como exemplo da atividade dos círculos psi
    quiátricos de Viena, uma conversa que tive com
    um assistente da clínica. Escrevera um livro
    inteiro contra as minhas doutrinas, sem ter
    lido o meu livro. Disseram-
    lhe no hospital que
    não valia a pena fazê-
    lo. O médico em questão,
    sendo efetivado no serviço, achou-
    se no direito
    de desmentir o sentido dessa conversa e duvi
    dar da fidelidade de minha memória. Mante
    nho, palavra por palavra o que então relatei.

    Quando compreendi contra que necessida
    des eu me chocára, perdi grande parte de mi
    nha suscetibilidade. Meu isolamento tambem
    foi se acabando aos poucos. De começo um pe
    queno círculo de alunos agrupou-
    se em volta


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    de mim. Depois de 1906, soube-
    se que os psi-
    quiatras de Zurich E. Bleuler, seu as-
    sistente C. G. Jung e outros, interessa-
    vam-se, vivamente, pela psicanálise. Relações
    pessoais se estabeleceram. Em 1908, pela Pas-
    coa, os amigos da nova ciência, reunidos em
    Salzburgo, decidiram a repetição regular des-
    ses congressos particulares, e a fundação de
    uma revista, devendo aparecer sob o nome de
    “Jahrbuch fur Psychopathologische und Psy-
    choanalytische Forschungen” (O anuario para
    investigações psicopatologicas e psicanaliticas)
    e do qual Jung tornou-se o redator-chefe. Os
    editores eram Bleuler e eu. O começo
    da guerra mundial interrompeu a publicação
    da revista. Concomitantemente á função dos
    suissos, surgiu em toda a Alemanha o interêsse
    pela psicanálise que tornou-se o objeto de inú-
    meras apreciações literárias e de vivas dis-
    cussões nos congressos científicos. O acolhi-
    mento não era, em parte alguma, o de uma es-
    pectativa amiga ou tolerante. Depois de um

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    breve conhecimento da psicanálise a ciência
    alemã rejeitou-
    a unanimemente.

    Naturalmente não posso hoje saber qual será
    o julgamento definitivo da posteridade sôbre o
    valor da psicanálise em psiquiatria, em psico-
    logia e nas ciências do espírito em geral. Mas
    sou de opinião que, quando essa fase de nossa
    vida tiver um historiador, êste deverá confes-
    sar que a atitude de seus representantes de
    então, não foi gloriosa para a ciência alemã.
    Não falo aqui da rejeição da psicanálise, nem
    da intransigência com que a rejeitaram. Esses
    dois fatos eram de fácil compreensão; corres-
    pondiam, simplesmente, á espectativa; nem ao
    menos podiam projetar alguma sombra sôbre o
    carater dos adversários. Mas não há desculpa
    para o excesso da arrogancia, o desprezo, sem
    conciência de toda lógica, a grosseria e mau
    gosto no ataque. Poderão dizer que é pueril dar
    azas a uma tal suscetibilidade, tendo decorri-
    do quinze anos. No entanto não o faria, si ain-
    da não tivesse que acrescentar alguma coisa.


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    Anos depois, quando durante a guerra mun-
    dial, um côro de inimigos censurou a nação
    alemão de barbaria, o que está de acôrdo com
    tudo que acabo de mencionar, foi-me profun-
    damente doloroso de, por experiência própria,
    não o poder contradizer.

    Um de meus adversários vangloriou-se de fazer
    calar seus pacientes logo que começavam a falar de
    coisas sexuais e deduziu, evidentemente dessa técnica, o
    direito de julgar o papel etiológico da sexualidade nas
    neuroses. Postas de lado as resistências afetivas, re-
    sistências facilmente explicadas á luz da teoria psica-
    nalítica e que não nos podiam desconcertar, o princi-
    pal obstáculo ao entendimento entre nossos adversá-
    rios e nós, pareceu-me ser o fáto desses verem na psi-
    canálise um produto de minha imaginação especula-
    tiva. Não quiseram crer no trabalho longo, paciente
    e desprovido de qualquer preconceito, com que a edi-
    fiquei. Como, segundo eles, a análise nada tinha que
    vêr nem com a observação nem com a experiência,
    acharam-se no direito de rejeitá-la fóra, tambem, de
    qualquer experiência pessoal. Outros que se sentiam
    menos presos a uma tal convicção repetiram a manobra

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    da resistência clássica: não olhar no microscópio para
    não vêr o que haviam contestado. O modo incorreto
    pelo qual a maioria dos homens se comporta quando
    fica diante de uma coisa nova, reduzidos a seu pro-
    prio julgamento, é pois, muito curioso. Durante mui-
    tos anos e, ainda agora, ouvi críticos de bôa vontade
    dizerem-me que a psicanálise tinha razão aqui ou alí,
    mas que, acolá, começava seu excesso, sua generaliza-
    ção injustificada. Sei no entanto que nada é mais di-
    ficil que traçar semelhantes fronteiras e sei que, mes-
    mo os críticos, há poucos dias ou poucas semanas, ti-
    nham uma perfeita ignorância do assunto…

    O anátema oficial contra a psicanálise
    teve por consequência os analistas cerrarem
    fileiras. No seu segundo congresso em
    Nuremberg, em 1910, organisaram-se,
    sob a proposta de S. Ferenczi, em
    uma “Associação psicanalítica internacional”,
    dividida em secções locais e colocada sob a di-
    reção de um presidente. A associação que atra-
    vessou a guerra mundial sem sossobrar, existe
    ainda e compreende as secções de Viena,
    Berlim, Budapest, Zurich, Londres, Holanda,

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    MINHA VIDA E A PSICANÁLISE

    Nova York, Pan-America, Moscovia e Cal-
    cutá. Como primeiro presidente deixei eleger
    C. G. Jung, iniciativa, aliás, infeliz,
    como o tempo provou. A psicanálise adquiriu,
    então, um novo orgão: “A revista Cen-
    tral da Psicanálise”, redigida por Adler
    e Stekel, surgindo logo um terceiro,
    “Imago”, destinado pelos psicanalistas, não
    médicos, H. Szachs e O. Rank,
    ás aplicações da psicanálise nas ciências do es-
    pírito em geral. Logo depois Bleuler publicou
    sua defesa da Psicanálise (“A psicanálise freu-
    diana”, 1910). Por mais agradável que tenha
    sido de ouvir ao menos uma vez, nos debates,
    uma voz da equidade e da probidade da logica,
    não pude sentir-me completamente satisfeito
    com o trabalho de Bleuler. Transpirava
    muito a aparência de parcialidade, não sen-
    do por um acaso que atribuiram a seu autor
    a introdução do precioso conceito da ambi-
    valência na nossa ciencia. Em artigos
    subsequentes Bleuler tomou uma tal atitude de


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    refutação contra o corpo de doutrina analíti-
    ca, poz em dúvida ou rejeitou partes tão essen-
    ciais dessa doutrina que indaguei a mim mes-
    mo, admirado, o que dele êste reconhecia. E no
    entanto, no decorrer do tempo fez não sómen-
    te as mais cordiaes declarações em favor da
    “Psicologia das profundidades”, como tambem
    baseou nela sua exposição, tão importante, das
    “esquizofrenias”. Bleuler não ficou, porém,
    muito tempo na “Associação psicanalítica in-
    ternacional”; deixou-a em consequência de di-
    vergencia com Jung e o “Burgölzli” fi-
    cou perdido para a análise.

    A oposição oficial não poude reter a ex-
    pansão da psicanálise na Alemanha nem em
    outro paises. Em outro trabalho (“Contribui-
    ção para a história dos movimentos psicanalí-
    ticos”) segui as fases de seu progresso e no-
    meei os homens que se salientaram como seus
    representantes. Em 1909 Jung e eu fomos cha-
    mados por G. Stanley Hall, da
    América do Norte, para lá fazer, durante uma


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    semana, por occasião do aniversario da fun-
    dação da Clark University em Worcester,
    Mass., da qual ele era presidente, conferências
    (em alemão). Hal fazia jús ao título de
    psicólogo e pedagogo e, alguns anos antes, já
    introduzira a psicanálise no ensino. Havia nela
    alguma coisa de “King-maker” (fazedor de
    reis) a quem aprazia investir contra autorida-
    des e depô-las. Encontramos lá o neurólogo
    J. Putnam de Harvard que, apesar da
    sua idade, entusiasmou-se pela psicanálise, de-
    fendendo seu valor cultural e pureza de suas
    intenções e isso com todo o peso de sua perso-
    nalidade por todos respeitada. Só fomos per-
    turbados por esse excelente homem por uma
    disposição coacta que o orientava de um modo
    preponderante para a ética – pretender ligar
    a psicanálise a um determinado sistema filosó-
    fico e colocá-la ao serviço de tendên-
    cias moralisadoras. Um contato com o filosofo
    William James deixou-me tambem
    uma impressão duradoura. Não devo, porém,


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    omitir esta cena: durante um passeio estacou
    de repente, confiou-me sua pasta e pediu-me
    que continuasse, pois seguir-me-ia assim que
    passasse a crise de angina pectoris que o as-
    saltava. Morreu um ano mais tarde do coração.
    Desde então sempre desejei para mim uma in-
    trepidez semelhante em face do fim próximo.

    Tinha eu então 53 anos de idade, sentindo-
    me jovem e bem disposto. A curta estadia no
    Novo mundo fez muito bem ao sentimento de
    meu próprio valor; na Europa sentia-me posto
    á margem, aqui via-me acolhido pelos melhores
    como igual. Quando subi na cátedra em Wor-
    cester, para fazer minhas “Cinco conferências
    sôbre psicanálise”, pareceu-me sonhar acorda-
    do. A psicanálise não era mais uma produção
    delirante, tornará-se uma parte preciosa da
    realidade. Não perdeu terreno na América
    desde nossa visita; goza no público uma popu-
    laridade pouco comum e é reconhecida por mui-
    tos psiquiatras oficiais como uma parte im-
    portante do ensino médico. Infelizmente lá


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    tambem misturam-lhe muita agua. Mais de
    um abuso, com o qual ela nada tem que ver,
    usufruie seu nome; falta a possibilidade de
    formar analistas de valor quanto á tecnica e á
    teoria. Choca-se tambem na América no “Be-
    haviorism” que se vangloria, na sua ingenui-
    dade, de ter inteiramente eliminado o proble-
    ma psicológico.

    Na Europa de 1911 a 1913 produziram-se
    dois movimentos, dissidentes da psicanálise,
    movimentos inaugurados por pessoas que até
    então tinham tido um papel saliente na jovem
    ciência, Alfred Adler e C. G. Jung.
    Esses movimentos pareciam muito perigosos e
    adquiriram logo um grande número de parti-
    dários. No entanto, não deviam sua fôrça a si
    mesmos, mas ao fato de permitirem, o que pa-
    recia sedutor, libertar-se dos resultados, res-
    sentidos como chocantes, fornecidos pela psi-
    canálise, apesar de não se negar seu material de
    fátos. Jung tentou uma transposição dos
    fátos analíticos em abstratos, impessoais, sem

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    ligar importância á história do indivíduo, pelo
    que esperava afastar de si o reconhecimento
    da sexualidade infantil e do complexo de Edi-
    po, ao mesmo tempo que a necessidade da aná-
    lise da infância. Adler afastou-se ainda
    mais da psicanálise. Rejeitou, em conjunto, a
    importância da sexualidade, referindo exclusi-
    vamente á formação do carater, como da neu-
    rose, á vontade de potência dos homens e a
    necessidade que se tem de compensar a inferio-
    ridade constitucional. Desprezar todas as aqui-
    sições psicológicas da psicanálise, no entanto, o
    que êste rejeitava, abriu por sua própria fôr-
    ça, um caminho no seu sistema serrado. Mas o
    seu “protesto de macho” não passa de um re-
    calcamento, injustamente sexualisado. A críti-
    ca foi das mais amenas para com os dois he-
    rejes; eu por minha parte não consegui mais
    do que fazel-o renunciar a denominar a sua
    doutrina “psicanálise”. Pode-se, hoje em dia,
    ao cabo de dez anos, constatar que essas duas
     

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    MINHA VIDA E A PSICANALISE

    tentativas passaram perto da psicanálise sem,
    porém, atingí-
    la.

    Quando uma comunidade é baseada sôbre
    o acôrdo relativo a alguns pontos essenciais,
    deduz-se daí os que abandonaram êste terreno
    comum ficam separados. No entanto levaram
    em conta da minha intolerância a defeção des-
    ses primeiros alunos, ou então, quizeram ver
    nisso a expressão de uma fatalidade particular
    pesando sôbre o meu destino. Foi suficiente
    retrucar que, em face dos que me abandona-
    ram, tais como Jung, Adler, Stekel,
    e alguns outros, acha-se um grande numero
    de homens, tais como Abraham, Eitin-
    ger, Ferenczi, Rank (este, de-
    pois, separou-se de Freud, N. d. T.), Jo-
    nes, Brill, Sachs, o pastor Pfis-
    ter, Van Emden, Rik, etc., que
    desde cerca de quinze anos me ficaram unidos
    numa fiel colaboração, sendo que, a maior par-
    te, tambem por laços de uma amizade que nada
    perturbou. Só enumerei aqui os meus mais


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    antigos alunos os que já se fizeram nome na li-
    teratura psicanalítica. A omissão de outros
    nomes não implica uma desconsideração e jus-
    tamente entre a juventude e os que vieram a
    mim mais tarde, encontram-se talentos sôbre
    os quais se póde ter grandes esperanças. Mas
    devo salientar em proveito próprio que um ho-
    mem, dominado pela intolerância e pela presun-
    ção de infalibilidade, nunca poderia ter-se cer-
    cado de uma tal legião de personalidades supe-
    riormente intelectuais, sôbre tudo, quando não
    havia mais que eu para oferecer-lhes seduções
    de ordem prática.

    A guerra mundial que destruiu tantas ou-
    tras organizações não poude nada sobre nossa
    “internacional”. A primeira reunião depois
    da guerra efetuou-se em 1920 em Haia, em
    terreno neutro. O modo pelo qual a hospita-
    lidade holandesa soube acolher os centrais se-
    dentos e empobrecidos, foi tocante; foi a pri-
    meira vez que eu sabia que ingleses e alemães


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    se sentaram, amigavelmente, á mesma mesa,
    movidos por interêsses científicos comuns.

    A guerra aumentara o interêsse dedicado á
    psicanálise na Alemanha como em todos os ou-
    tros países do Ocidente. A observação das
    neuroses de guerra abria emfim os olhos aos
    médicos, quanto a significação da psicogênese
    nas perturbações neuróticas. Uma das nossas
    concepções psicológicas: o “benefício da doen-
    ça”; a “fuga da doença”, tornou-se, depressa,
    popular. No último congresso realisado an-
    tes da derrota, em Budapest em 1918, os go-
    vernos dos impérios centrais enviaram repre-
    sentantes oficiais que ficaram de acôrdo co-
    nosco quanto á organisação de serviços psica-
    nalíticos destinados ao tratamento das neuro-
    ses de guerra. Não houve mais tempo para
    realisar este projeto. O mesmo aconteceu com
    os vastos planos de um dos melhores membros
    de nossa associação, do Dr. Anton von
    Freund, que queria criar em Budapest
    um instituto central, destinado ao ensino e te-
     


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    rapia analíticos, planos gorados pelas revira-
    voltas políticas que se lhe seguiram e, também,
    pela morte prematura desse homem insubsti-
    tuível. Uma parte dessas idéas foi mais tarde
    realisada por Marx Eitingon que
    creou em 1920, em Berlim, uma policlínica psi-
    canalítica. Durante a curta duração do domí-
    nio bolchevista na Hungria, Ferenczi
    poude desenvolver uma atividade didática co-
    roada de sucesso, como representante oficial
    da psicanálise na Universidade. Depois da
    guerra aprouve a nossos adversários proclamar
    que a experiência fornecera um argumento
    sem réplica contra a justeza das acersões ana-
    líticas. As neuroses de guerra tinham pois
    demonstrado a superfluidade dos fatos se-
    xuais na etiologia das afecções neuróticas. Mas
    isso era um triunfo superficial e passageiro,
    porque até essa época, ninguem conseguira le-
    var a cabo a análise aprofundada de um caso
    de neurose de guerra. Não se sabia, pois, a
    certo, quanto ao motivo dessas neuroses e não


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    se tinha o direito de tirar conclusões de sua
    própria ignorância. E, por outro lado, a psi-
    canálise adquirira, havia muito tempo, a noção
    do narcisismo e da neurose narcísica, cujo con-
    teúdo era a fixação da libido sôbre o próprio
    ego em lugar do objeto. Assim, enquanto se
    fazia, de ordinário, á psicanálise, a censura de
    alargar indevidamente o conceito de sexuali-
    dade, de vez que isso era cômodo para a polê-
    mica, esquecia-se esse sinão e opunha-se-lhe,
    de novo, a sexualidade no seu restrito sentido.
    A história da psicanálise divide-se, para
    mim, em dois períodos: no primeiro estava só e
    com a árdua missão de executar todo o trabalho,
    isso de 1895-96 a 1906 ou 1907. No segundo, de
    então até hoje (1930), as contribuições de
    meus alunos e colaboradores não cessaram de
    crescer em importância, de tal sorte que agora,
    avisado de meu próximo fim por uma doença
    grave (Freud está sofrendo de cancro na lín-
    gua, obs. do trad.), posso, com uma grande
    calma interior, encarar a cessação de minha

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    124

    atividade própria. E’ justamente por isso que
    me é impossível tratar, nesta exposição de mi
    nha vida, dos progressos da psicanálise duran
    te o segundo período e com tantos detalhes,
    quantos tratei de sua edificação progressiva
    no primeiro período psicanalítico, preenchido
    pela minha única atividade. Só me sinto obri
    gado a mencionar que nestas aquisições novas,
    tive ainda uma forte preponderância, princi
    palmente nas relativas ao narcisismo, á dou
    trina dos instintos e á aplicação das psicoses.

    Devo acrecentar que, a medida que se
    alargava a nossa experiência, o complexo de
    Edipo mostrava-se, cada vez, mais, como sendo
    o núcleo central das neuroses. Era tanto o
    ponto culminante da vida sexual infantil como
    o núcleo de onde partiam todos os desenvolvi
    mentos ulteriores. Devia-se dizer como
    Jung nos seus primeiros tempos analíticos
    soubera excelentemente exprimir, que os neu
    róticos sucumbem justamente onde os normais
    sáem vitoriosos. Esta compreensão não signi-


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    125

    MINHA VIDA E A PSICANALISE

    ficava uma desilusão. Harmonisa-
    va-se com essa outra: que a “psicologia das profundida-
    des” descoberta pela psicanálise era de fáto a
    psicologia da vida psíquica normal. Dava-se
    conosco o mesmo que com os químicos: as
    grandes diferenças qualitativas dos produtos
    igualavam-se ás modificações quantitativas
    nas relações de combinação entre os mesmos
    elementos.

    A libido mostrava-se no complexo de Edi-
    po ligada ás representações dos parentes. Mas
    antes havia um tempo no qual nenhum desses
    objetos existiam. Disso resultou a concepção
    fundamental para uma teoria da libido, dum
    estado no qual a libido apoderar-se do próprio
    ego tomando-o por objéto. Podia-se chamar a
    este estado “narcisismo” ou amor de si mesmo.

    As primeiras reflexões informavam que êste
    nunca cessava. Durante a vida inteira o ego
    fica sendo o grande reservatorio da libido, fóra
    do qual são projetadas as investidas dos objé-
    tos e no qual a libido dos objetos póde refluir.


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    A libido narcísica transforma-se assim sem
    cessar em libido de objéto e vice-
    versa. Um
    exemplo excelente da amplitude que póde atin-
    gir esta transformação nos é dado pelo estado
    amoroso, sexual ou sublimado, que póde ir até
    o sacrifício de sua própria existência. En-
    quanto que, até então, no que se refere ao pro-
    cesso do recalcamento, só se atendera ao “re-
    calcado”, estas representações permitiram dar
    tambem o justo valor ao “recalcante”. Dissé-
    ra-se que o recalcamento era movido pelos im-
    pulsos de conservação agindo sôbre o ego (im-
    pulso do ego) e aplicado aos impulsos libidi-
    nais. Agora, quando se reconhecia terem os
    impulsos de conservação uma natureza libidi-
    nal, como sendo da libido narcísica, o processo
    do recalcamento aparecia como um processo
    passando-se no interior da própria libido. A
    libido narcísica antepunha-se á libido objétal,
    o interêsse da conservação do ego punha-se em
    defesa contra as exigências do amor do objé-
     

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    127

    to como contra as da sexualidade no sentido
    estrito.

    Nenhuma necessidade fazia-se mais pre-
    mente em psicologia do que uma doutrina dos
    impulsos bastante ampla para que se pudesse
    continuar a edificar sôbre ela. Mas não tendo
    nada semelhante, a psicanalise deve esforçar-
    se apalpando, para adquirir uma. Estabele-
    ceu, primeiramente, a oposição entre os instin-
    tos do ego (conservação, fome) e os impulsos
    libidináis (amor), depois substituiu-a pela
    oposição nova entre libido-narcísica e libido do
    objéto, e, apesar disso ainda não se pronuncia-
    ra a ultima palavra; considerações biológicas
    pareciam interdizer que a hipótese de uma
    única sorte de impulsos, pudesse bastar.

    Nos trabalhos de meus últimos anos
    (“Além do princípio prazenteiro”, “A psico-
    logia das massas e a análise do ego”, “O ego e
    o id”,) dei livre curso á tendência, por muito
    tempo reprimida, á especulação, considerada
    uma nova solução do problema dos impulsos.


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    128

    Reuni no conceito do eros o impulso de
    conservação, de ego, e da especie, tendo-lhe
    oposto o impulso de destruição
    ou de morte que trabalha em silêncio.
    O impulso é geralmente concebido como uma
    espécie de elasticidade do ser vivo, como uma
    fôrça tendendo a restabelecer uma situação
    primitiva, tendo já existido e tendo cessado de
    existir, por uma perturbação interna. Essa
    natureza essencialmente conservadora do im-
    pulso é ilustrada pelos fenomenos de auto-
    matismo de repetição. Do tra-
    balho combinado, ou em oposição do eros ou
    do instinto de morte, resulta a imagem da
    vida.

    Há dúvida quanto a suposição si esta
    construção se mostrará utilisável. Ela foi, de
    certo, empreendida, afim de fixar algumas das
    mais importantes representações teóricas da
    psicanálise, mas ultrapassa à psicanálise. Mui-
    tas vezes ouvi expressar, com desprezo, a opi-
    nião que não se podia ter nenhuma considera-
     

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    129

    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    ção por uma ciência cujos conceitos dominan-
    tes eram tão imprecisos como os de libido e de
    impulso na psicanálise. Mas na fase de uma
    tal censura está um perfeito desconhecimento
    dos fatos existentes. Conceitos fundamentais
    claros e definições precisas em seu contornos,
    só são possíveis nas ciências de espírito, en-
    quanto querem encaixar uma ordem de fatos
    nos quadros de um sistema intelectual, crea-
    do em todas as suas peças. Nas ciências natu-
    rais, de que faz parte a psicologia, uma tal cla-
    reza nos conceitos dominantes é demais, quasi
    mesmo impossível. A zoologia e a botânica
    não começaram por definições corretas e ade-
    quadas do animal e da planta, a biologia não
    sabe, ainda hoje, com que conteudo certo en-
    cher o conceito da vida. A física mesmo não
    poderia realisar nada de sua evolução, se ti-
    vesse de atender a que os conceitos de materia,
    força, gravitação e outros, atingissem á clare-
    za e á precisão exigidas. As representações fun-
    damentais ou conceitos dominantes das dicipli-
     


  • S.

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    nas próprias ás ciências naturais, são, primeiro,
    deixadas na imprecisão, não são provisoria-
    mente ilustradas senão pela indicação do do-
    mínio fenomenal donde eles emanam e não pó-
    dem tornar-se claros, plenos, e fóra de contes-
    tação senão pela análise progressiva do ma-
    terial a observar.

    Já tentara, em fases anteriores de minha
    obra, atingir, partindo da observação psicana-
    lítica, pontos de vista mais gerais. Em 1911,
    num pequeno estudo “Formulações relativas
    nos dois princípios da vida psíquica” (Formu-
    lierungen uber die zwei Prinzipien des psy-
    chischen Geschehens), salientei, não de um
    modo lá muito original, a predominância do
    prazer-desprazer na vida psíquica como é re-
    velado pelo principio dito de realidade.
    Mais tarde ousei tentar o estudo de
    uma “metapsicologia”. Assim denominei um
    modo de observação segundo o qual cada pro-
    cesso psíquico é considerado pelas três coorde-
    nações: da dinâmica, da tópica,


  • S.

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    da econômica. Nisso vi o extremo fim
    que possa ser acessível á psicologia. A tenta-
    tiva permaneceu uma estátua truncada, ten-
    do-a eu interrompido depois de ter escrito al-
    guns estudos; (Triebe und Triebschicksale
    (Impulsos e destinos dos impulsos); Verdran-
    gung (Recalcamento); Das Unbewusste (O
    Inconsciente); Trauer und Melancholie (Luto
    e melancolia) etc.). Tive, certamente, razão
    de agir assim, porque a hora de tornar defini-
    tivas essas teorias ainda não soara. Nos meus
    últimos trabalhos especulativos, empreendi di-
    vidir nosso aparelho psíquico, tomando por
    base o valor analítico dos fátos patológicos e o
    decompus em um e g o, um i d e um
    s u p e r-
    e g o (Das Ich und das Es, 1922 –
    “O ego e o id”). O superego é o herdeiro do
    complexo de Edipo e o representante das exi-
    gências éticas do homem.

    Não queria que se tivesse a impressão de haver
    eu, neste último periodo de trabalho, desistido da ob-


  • S.

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    servação paciente e me haver dado inteiramente á espe
    culação. Continuei, antes, em contato íntimo com o ma
    terial analítico e nunca interrompi o trabalho de te
    mas especiais clínicos ou técnicos. Justamente onde
    me afastava da observação, cuidadosamente evitei
    aproximar-me da filosofia propriamente dita. Uma
    incapacidade constitucional muito me facilitou uma tal
    abstenção. Sempre fui acessível a ideias de G. Th.
    Fechner e tambem me apoiei, em pontos impor
    tantes, nas ideias deste pensador. As concordâncias
    extensas da psicanálise com a filosofia de Shope
    nhauer – ele não defende sómente a primasia da
    afetividade e a importância preponderante da sexua
    lidade mas, adivinhou mesmo o mecanismo do recal
    camento – não são motivadas por um conhecimento
    de sua doutrina. Li Schopenhauer muito tarde na mi
    nha vida. Nietzsche, o outro filosofo, cujas
    intuições e pontos de vista concordam muitas vezes,
    de uma maneira admiravel, com os resultados penosa
    mente adquiridos da psicanálise, justamente por cau
    sa disso, evitei-o por muito tempo. Preferia menos a
    primasia do que ficar livre de toda prevenção.

    As neuroses foram o primeiro, e por muito
    tempo tambem, o único objeto da analise. Não


  • S.

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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    ficou duvidoso para nenhum analista que a
    clínica tivesse errado, colocando essa afecção
    a par das psicoses e juntando-as ás doenças
    nervosas orgânicas. A doutrina das neuroses
    pertence á psiquiatria, sendo dela a introdu-
    ção indispensável. Mas parece que o sentido
    analítico das psicoses seja prejudicado pela
    falta de esperanças terapêuticas que um tal
    esforço comporta. A capacidade de fazer uma
    transferência positiva falta, em geral, ao doen-
    te atingido de psicose, de tal sorte que o prin-
    cipal instrumento da técnica analítica é inuti-
    lisavel. Mas estes doentes são, por vezes, abor-
    dáveis por algum lado. A transferência não
    é, muitas vezes, tão totalmente ausente que se
    não possa, graças a ela, caminhar um bom pe-
    daço. Mas depressões cíclicas, nas alterações
    paranóicas leves, nas esquizofrenias parciais
    obtiveram-se, graças á analise, indubitáveis
    sucessos. Pelo menos foi para a ciência uma
    vantagem que, em muitos casos, o diagnóstico
    pudesse ocilar, por bastante tempo, entre a hi-

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    pótese de uma psiconeurose e de uma demên
    cia precoce. A tentativa terapêutica instau
    rada, póde assim fornecer preciosos dados an
    tes de se dever abandoná-la. Mas entra em
    conta, sobretudo, que nas psicoses são trazidas
    tantas coisas á superficie e visíveis a todos,
    que se é obrigado, nas neuroses, ir por um pe
    noso trabalho e rebuscar nas profundezas. A
    clínica psiquiátrica fornece para muitas asser
    ções analíticas as melhores peças de convicção.
    Era pois inevitável, que a análise encontrasse
    logo o caminho que conduzia aos objetos da
    observação psiquiátrica. Pude, muito cedo
    (1896), a propósito de um caso de demência pa
    ranoide, demonstrar a presença dos mesmos
    fatores etiológicos e dos mesmos complexos
    afetivos que nas neuroses. Jung elucidou
    esteriotipias enigmáticas nos dementes, rela
    cionando-as com a história da vida do doente.
    Bleuler, em diversas psicoses trouxe á
    luz mecanismos tais como os que se descobrem
    pela análise nos neuroticos. Desde então não

  • S.

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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    cessarem mais os esforços dos analistas afim
    de serem compreendidas as psicoses. Sobretudo
    desde que se trabalha com o conceito do narcisismo, consegue-
    se, ora aqui, ora ali, chegar mais adiante. Quem mais se adiantou,
    nesse sentido, foi sem duvida Abraham
    com a elucidação da melancolia. Neste domí-
    nio, todo saber não se cinge á verdade presen-
    temente em poder da terapêutica; mas o lucro
    puramente teórico não é para desprezar e póde
    certamente atingir sua utilização prática. No
    decorrer do tempo nem os psiquiatras pódem
    resistir á força convincente de seu material pa-
    tológico. Produz-se atualmente na psiquia-
    tria alemã uma especie de pénétration
    pacifique (frances no original alemão,
    obs. do trad.), com pontos de vista analíticos.
    Mesmo protestando sem cessar que êles não
    querem ser psicanalistas, “que não pertencem
    á escola “ortodoxa”, que não a seguem em seus
    exageros, e sobretudo que não creem na impor-
    tância preponderante do fator sexual, a maior

  • S.

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    parte dos jovens pesquisadores apropriam-se,
    no entanto, de tal ou qual parte da doutrina
    psicanalítica, aplicando-a, a seu modo, sôbre o
    material vivo. Tudo indica que é iminente
    um desenvolvimento ulterior nesta direção.