Minha Vida e a Psicanálise1925-041/1934.pt
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    Observo de longe, agora, os sintomas re
    acionais que a entrada da psicanálise produ
    ziu na França, por tanto tempo refratária.
    Crer-se-ia na reprodução de coisas já vividas,
    mas ha nisso traços particulares. Objecções de
    uma incrível ingenuidade vêm á luz tais como
    esta: a delicadeza francesa está chocada com o
    pedantismo e o peso da nomenclatura psicana
    lítica (isso lembra o imortal cavalheiro Ric-
    caut de la Marlinière, de Lessing). Uma
    outra asserção parece mais séria: um profes-
    sor da “Sorbonne” não a achou indigna de si:


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    O génie latin (em frances no origi-
    nal. O. d. T.) absolutamente não suporta o
    modo de pensar da psicanálise. Assim, os
    aliados anglo-saxões que passam por seus par-
    tidários são expressamente sacrificados. Ou-
    vindo-se isso deve-se, naturalmente, crer que
    o génie teutonique apertou contra
    o coração a psicanálise, desde o seu nascimento,
    como sua filha querida.

    Na tradução francesa desta biografia encontra-se
    a seguinte nota que merece interesse, razão pela qual
    a mencionamos. A compreensão da psicanalise foi fa-
    cilitada ao anglo-saxão por seu grande realismo de es-
    pírito e sua coragem diante de fatos; qualidades que
    contribuiram, por outro lado, a lhes garantir o domí-
    nio do mundo.

    O francês possue, geralmente, ao contrário. em
    seu carater nacional alguns traços que lhe tornam
    essa compreensão mas difícil. Primeiramente, seu
    amor á clareza lógica, herdeiro do ideal clássico do
    seculo XVII e instaurado pela grande investida de
    recalcamen-
    to, que destruiu a magnífica e larga Re-
    nascença.


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE

    Em seguida, seu culto do bom gosto, datando do
    mesmo tempo; os processos arcáicos, particulares ao
    inconciente e que trazem á luz a psicanalise, chocando-
    se de frente, do ponto de vista do bom senso a ra-
    zão lógica e do ponto de vista do bom gosto, a
    delicadeza, revoltam facilmente o espírito francês que
    então esquece não serem sempre de bom gosto
    os fenomenos da natureza, o que “não os impede de
    existir”, como diria Charcot. Foi tambem
    em nome do “bom senso” que a humanidade, por par-
    te, acreditou por tanto tempo, na rotação do sol em
    volta da terra, e por outra parte, que tantos homens
    cultos recusaram no tempo de Pasteur e, mesmo de-
    pois, crer nos microbios, que não po-
    diam vêr. Os complexos desagradáveis, mas reais, en-
    tulhados no fundo de nosso psiquismo, sendo ainda
    mais dificeis de observar do que micróbios, que se
    podem colocar numa lâmina de microscópio, o que dá
    para surpreender que “o simples bom senso” não bas-
    te para vêl-os.

    O modo frequente dos franceses de considerar a
    sexualidade, torna-lhes um obstáculo a comprehen-
    são do inconciente. Confundem facilmente o sexual
    com o obceno. São assuntos que não devem ser tra- tados como leviandade. Dessa atitude diante do


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    sexual, nasceu pois a literatura dos teatros de
    “boulevard”, que tanto diverte os estrangeiros, mas
    nem sempre obtem deles os melhores conceitos. Esta
    desvalorização do sexual é, no entanto, um dos meios
    de que se serve o r e c a l c a m e n t o para ne-
    gar a gravidade real e muitas vezes terível do
    problema sexual, no mais vasto sentido, em cada vida
    humana.

    O interêsse dedicado á psicanálise foi ini-
    ciado, na França, pelos homens de letras. Para
    compreender êste fenomeno é preciso lembrar
    que a psicanálise com a interpretação dos so-
    nhos, transpôs os limites de uma pura espe-
    cialidade médica. Entre sua aparição outrora
    na Alemanha e hoje na França tiveram lugar
    suas numerosas aplicações nos vários domínios
    da literatura e da arte, da história das reli-
    giões, da prehistória, da mitologia, do folk-lo-
    re, da pedagogia etc. Todas essas materias
    relacionam-se pouco com a medicina, e só lhe
    são precisamente ligadas por meio da psicaná-
    lise. Não acho justificável tratar disso a fun-
     


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    MINHA VIDA E A PSICANÁLISE

    do numa biografia destinada a um apanhado
    médico. No entanto não as posso desprezar de
    todo, porque por um lado são indispensáveis
    para dar um quadro exáto do valor e da essên-
    cia da psicanálise e por outro lado, comprome-
    tí-me a fazer a exposição do trabalho de minha
    própria vida. A maior parte destas aplica-
    ções da análise foram inauguradas por meus
    próprios trabalhos. Permiti-me aquí ou alí
    uma digressão, afim de satisfazer um atrati-
    vo extra-médico. Outros, e não sómente mé-
    dicos, mas tambem especialistas em várias
    ciências, seguiram minhas pegadas e penetra-
    ram a fundo nesses domínios. Tendo, segundo
    o programa que me tracei, de limitar-me a ex-
    pôr minha própria contribuição ás explicações
    da psicanálise, só posso dar ao leitor um tra-
    balho incompleto sôbre sua extensão e impor-
    tância.

    Uma série de incitações me trouxe o com-
    plexo de Edipo, cuja ubiquidade reconheci,
    pouco a pouco. A escolha, mesmo a creação do


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    tema sinistro, sempre parecera um enigma,
    como tambem sua acção perturbadora, sôbre os
    espetadores do drama antigo, dele tirado e a
    essência da tragédia do Destino em geral.
    Tudo isso explicava-se, compreendendo que
    uma lei da vida psíquica fôra aqui considera-
    da em sua plena importância afetiva. A fa-
    talidade e o oráculo não eram sinão as mate-
    rialisações da necessidade interna; o fato do
    heróe pecar sem o saber e contra sua intenção
    constituia a justa expressão da natureza in-
    conciente de suas aspirações animais. Da
    compreensão desta tragédia do destino só fal-
    tava um passo para a compreensão da tragé-
    dia de caráter que é Hamlet, admira-
    da há trezentos anos, sem que dela se possa
    compreender o sentido ou as intenções do poe-
    ta. E' pois notável que esta neurose creada
    pelo poeta convirja no complexo de Edipo,
    como seus inúmeros similares do mundo real,
    porque Hamlet é colocado em face do dever
    de vingar, sôbre um outro, os dois atos que con-
     


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    stituem a essência da aspiração edipiana, sôbre
    a qual seu próprio e obscuro sentimento de
    culpabilidade acaba de lhe paralisar o braço.
    Hamlet foi escrito por Shakes-
    peare logo após a morte de seu pai. Mi-
    nhas indicações relativas á analise desta tra-
    gedia, incitaram Ernest Jones a um
    estudo profundo do Hamlet. Otto Rank
    seguiu o mesmo exemplo, tomando por ponto
    de partida de suas pesquisas a escolha do as-
    sunto nos poetas e dramaturgos. No seu gran-
    de trabalho sobre o Tema do Incesto
    („Daz Inzest-Motiv in Dichtung und Sage)
    pude mostrar quantas vezes os poetas esco-
    lhem justamente por tema a situação edipia-
    na e pude seguir, através da literatura uni-
    versal, as transformações, variações e atenua-
    ções desse mesmo tema.

    Ficava-se assim induzido a abordar a aná-
    lise da produção literária e artística em ge-
    ral. Reconheceu-se que o reinado da imagina-
    ção era uma “reserva”, organizada pela pas-


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    sagem, dolorosamente ressentida, do princípio
    do prazer ao princípio da realidade, afim de
    permitir um substitutivo para a satisfação ins-
    tintiva á qual era mister renunciar na vida
    real. O artista, como o neuropata, retirara-se
    para longe da realidade insatisfatória, nesse
    mundo imaginário, mas, ao inverso do neuro-
    pata, entendia achar o caminho recondu-
    tor e retomar pé na realidade. Suas criações, as
    obras de arte, eram as satisfações imaginárias
    de desejos inconscientes, absolutamente como
    nos sonhos, com os quais tinham, em comum, o
    caráter de ser um compromisso porque, tam-
    bem elas, deviam evitar o conflito exteriorisa-
    do com as potências do recalcamento. Mas,
    ao contrário das produções associativas no nar-
    cisismo do sonho, podiam contar com a simpa-
    tia dos outros homens, sendo capazes de des-
    pertar e satisfazer neles as mesmas inconscien-
    tes aspirações do desejo. Demais, serviam-se
    como “principal sedução” do prazer ligado á
    percepção da beleza da forma. O que a psicaná-
     


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    lise podia fazer era, – segundo relações recí-
    procas das impressões vitais, das vicissitudes
    fortuítas e das obras do artista – reconstruir
    sua constituição e as aspirações instintivas,
    agindo nele, isto é, o que ele apresentava de
    eternamente humano. Foi com tal intenção que
    tomei como exemplo “Leonardo da Vinci” por
    objeto de um estudo, estudo esse que se baseia
    sôbre uma única recordação de infância, rela-
    tada por ele e que tende principalmente a elu-
    cidar seu quadro de Sant’Anna. Meus amigos e
    alunos empreenderam depois, numerosas aná-
    lises semelhantes de artistas e suas obras. O
    prazer que se tira das obras de arte não ficou
    estragado pela compreensão analítica assim
    obtida. Mas devemos confessar aos profanos
    que, talvez, exigem muito da análise, que ela
    não projéta luz alguma sôbre dois problemas,
    sem dúvida, os que mais lhe interessam. A
    análise, com efeito, nada póde dizer relativo á
    elucidação do dom artístico e á revelação dos
    meios de que se serve o artista para trabalhar,


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    não sendo tambem sua mola o desvendar da
    técnica artística.

    Pude provar, a propósito de uma pequena
    novela de W. Jensen, “Gradiva”,
    que os sonhos inventados por um escritor são
    sucetiveis das mesmas interpretações que os
    reais. Assim sendo, na atividade creadora do
    poeta entram em jogo os mesmos mecanismos
    do inconsciente, já por nós conhecidos pelo tra-
    balho da elaboração do sonho.

    Meu livro sôbre “O espírito e suas rela-
    ções com o inconsciente” (Witz und seine Be-
    ziehung zum Unbewussten”) é uma ramifica-
    ção imediata da “Interpretação dos Sonhos”.
    O único amigo que, então, se interessava por
    meus trabalhos, chamara-me a atenção para o
    fato de minhas interpretações de sonhos da-
    rem a impressão de uma “charada”. Para elu-
    cidar essa impressão, empreendi a investiga-
    ção dos trocadilhos e descobri que a essência
    do espírito residia nos seus meios técnicos, e
    serem esses dos mesmos moldes de trabalho da

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    “Interpretação dos sonhos” isto é, a condensa-
    ção, o deslocamento, a representação pelo con-
    traste, por um detalhe etc. A esta investiga-
    ção juntou-se a “econômica”: como se produz
    no ouvinte o alto benefício de prazer que ele
    sente com o “trocadilho”? E esta foi a respos-
    ta: pela cessação momentanea de um esfôrço
    de recalcamento, isso pela sedução que lhe ofe-
    rece uma primasia de prazer (prazer
    preliminar).

    Apreciava mais as minhas contribuições á
    psicologia religiosa, inauguradas em 1907, pela
    constatação de uma extraordinária semelhan-
    ça entre os atos obsidentes e as práticas reli-
    giosas (ritos). Sem conhecer ainda
    suas profundas relações, qualifiquei a neurose
    coata, da religião particular desfigurada, a re-
    ligião, por assim dizer, de neurose coata uni-
    versal. Mais tarde, em 1912, as considerações
    convincentes de Jung relativas ás analo-
    gias extensas que existem entre as produções
    mentais dos neuróticos e ás dos primitivos, in-

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    citaram-me a dirigir a atenção para esse tema.
    Nos quatro estudos reunidos num livro sob o
    titulo de Toteme Tabú expuz, em
    detalhe, como nos primitivos o horror ao in-
    cesto era ainda mais pronunciado do que entre
    os civilisados e creou medidas de defesa, todas
    particulares. Pesquisei que relações tinham os
    tabús de defesa — forma sob a qual as primei-
    ras restrições morais aparecem — com a ambi-
    valência dos sentimentos, e descobrí na primei-
    ra concepção animista do mundo o
    princípio da superestima da realidade psíqui-
    ca, do “todo-poder (onipotência) do pensa-
    mento” sôbre o qual se baseia, também, a
    magia. Em toda a parte prosseguiu-se no
    paralelo com a neurose coata e mostrou-se
    quantos fundamentos, supostos da vida mental
    primitiva, encontram-se, ainda fortes, nessa
    curiosa afecção. O totemismo me atraia,
    no entanto, acima de tudo; esse primeiro sis-
    tema de organisação das tribus primitivas, nas
    quais os princípios da ordem social se fundiam

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    MINHA VIDA E A PSICANALISE

    com uma religião rudimentar e a impiedosa
    soberania de alguns tabús de defesa. O ser
    “venerado” é sempre, na origem, um animal,
    do qual pretende descender a tribu. Pode-
    concluir, por vários índices, que todos os po-
    vos, mesmo os mais elevados na escala da civi-
    lisação passaram, em algum tempo, por êsse
    estágio do totemismo.

    A fonte principal em que me baseei nos meus tra-
    balhos nesse domínio, foram as obras tão conhecidas
    de J. G. Frazer (“Totemism and Exogamy”,
    “The Golden Bough”) um tesouro de fatos e apanha-
    dos preciosos. Mas, quanto à elucidação do problema
    do totemismo, Frazer não acrescentava grande coisa.
    Havia, relativamente a êsse problema, por muitas ve-
    zes, e radicalmente, mudado de ponto de vista, sendo
    que os outros etnólogos e prehistoriadores parecem
    tão incertos, quanto duvidosos nessas matérias. Meu
    ponto de partida foi a chocante concordância das duas
    prescrições de tabú do tetemismo: não matar o totem
    e não se servir sexualmente de nenhuma mulher do
    mesmo ramo – totem, com as duas partes do comple-
    xo de Edipo; não se desembaraçar do pai e não to-
     


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    mar a mãe por mulher. Ficava-se, assim, tentado de
    assimilar o animal totem com o pai como, aliás, os pri-
    meiros faziam de um modo expresso, venerando-o
    como o antepassado da tribu. Dois fatos vieram, en-
    tão, ajudar-me, do lado da psicanálise; uma feliz ob-
    servação de Ferenczi sôbre uma criança, per-
    mitindo a referência a uma volta infantil
    ao totemismo, e a análise das precoces fobias
    de animais, das crianças, que mostra tantas vezes ser
    o animal da fobia um substituto do pai, sôbre o qual
    o medo do pai, baseado no complexo de Edipo, foi
    deslocado. Não faltava muita coisa para reconhecer
    o assassino do pai, como sendo o núcleo
    do totemismo e o ponto de partida da edificação das
    religiões.

    Achei o que me faltava na “The Religion of the
    Semites” de W. Robertson Smith; êste
    homem genial, físico e crítico bíblico, havia consta-
    tado que o repasto totêmico constituia
    uma parte essencial da religião totêmica. Uma vez por
    ano, o animal totem, comumente considerado sagra-
    do, era solenemente morto, devorado, depois pratea-
    do, isso tudo com a participação de todos os membros
    da tribu. O periodo de luto terminava por uma grande
    festa. Aproximei disso a conjetura de Darwin,

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    MINHA VIDA E A PSICANALISE

    segundo a qual os homens teriam, na sua origem, vi-
    vido em hordas, ficando cada uma delas sob o domí-
    nio de um único macho, forte, violento e ciumento.
    Assim, com êsses diversos componentes, edificou-se
    para mim a hipótese ou, para melhor dizer, a visão de
    uma série de fatos como a seguinte: O pai da horda
    primitiva acaparara, como déspota absoluto, todas as
    mulheres, matando ou expulsando os filhos, rivais pe-
    rigosos. Um dia, no entanto, esses filhos, associan-
    do-se, triunfaram do pai, mataram-no, devorando-o em
    comum, a êle que fôra seu inimigo, mas tambem seu
    ideal. Isso feito, ficaram fóra do direito de recolher
    sua sucessão, um barrando o caminho do outro. Sob´
    a influência do insucesso e do remorso aprenderam a
    se suportar recìprocamente. Uniram-se numa tribu
    de irmãos, segundo as prescrições do totemismo, des-
    tinadas a impedir a renovação de semelhante ato e
    renunciaram, todos, á posse das mulheres pelas quais
    haviam matado o pai. Ficaram então reduzidos ás
    mulheres estrangeiras: daí a origem da exogamia,
    tão intimamente ligada ao totemismo. O re-
    pasto totêmico era a festa comemorativa do ato mons-
    truoso do qual emanava o conhecimento da culpabi-
    lidade da humanidade (pecado original)
    e com o qual haviam começado ao mesmo tempo a or-
    ganização social, a religião e as restrições da moral.


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    O fáto da possibilidade de uma tal série
    de acontecimentos ser aceitavel ou não, como
    histórica, não colocava o edifício da religião
    menos fixo sôbre o terreno do complexo pa-
    terno e menos elevado sôbre a ambivalência
    que o dominava. Depois de ser, como substi-
    tuto do pai, abandonado o animal totem, o pai
    primitivo mesmo, temido e odiado, venerado
    e invejado, tornou-se o modelo de deus. O
    desafio do filho e sua nostalgia do pai luta-
    ram um contra a outra em renovadas forma-
    ções de compromisso pelas quais, por um lado,
    devia ser expiado o assassínio do pai, por outro
    lado, os benefícios deviam ser confirmados.
    Esta concepção da religião projeta uma luz
    particularmente viva sôbre os fundamentos
    psicológicos do cristianismo, no qual a cerimô-
    nia do repasto totêmico sobrevive ainda, embo-
    ra um pouco desfigurada, sob a forma da
    c o m u n h ã o. Quero expressamente obser-
    var que esta última aproximação não emana


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    de mim, mas já se encontra em Robertson
    Smith e C. J. Frazer.

    Th. Reik e o etnólogo G. Ró-
    heim seguiram, em numerosos e notáveis
    trabalhos, os caminhos de Totem e Tabú, ex-
    tendendo-os, aprofundando-os ou corrigin-
    do-os. Eu mesmo voltei-me algumas vezes ain-
    da para esta ordem de pensamentos, isto por
    occasião de pesquisas sôbre o “conhecimento
    de culpabilidade inconsciente” que tem um pa-
    pel tão importante entre os fatores da neurose,
    e por occasião de ensaios, tendo por fim a li-
    gação mais estreita da psicologia social com a
    psicologia individual ( “O egoeoid”
    – Psicologia das massas e a analise do ego”).
    Salientei tambem, para explicar a possibilida-
    de da hipnose, a herança arcaica dos tempos
    da horda primitiva.

    Mínima é minha parte direta em outras
    aplicações da psicanálise, dignas no entanto do
    interêsse geral. Das fantasias do neuropata


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    isolado, parte um largo caminho dirigindo-
    ás criações imaginárias das multidões e dos
    povos, tais como aparecem nos mitos, lendas
    e contos populares. A Mitologia foi
    o domínio próprio de Otto Rank e a
    interpretação dos mitos, sua ligação com os
    complexos inconscientes conhecidos da infância,
    ou a substituição de explicações astrais por um
    motivo humano, foram, em muitos casos, o su-
    cesso de seus esforços analíticos. Assim o tema
    da simbólica foi, na minha roda, o ob-
    jéto de inumeros trabalhos. A simbólica valeu
    á psicanalise muitos inimigos. Muitos investi-
    gadores, por um senso exageradamente sóbrio,
    nunca lhe perdoaram o reconhecimento da sim-
    bólica tal como resulta da interpretação dos so-
    nhos. Mas a análise não tem culpa da desco-
    berta da simbólica, sendo esta conhecida, há
    muito tempo, em outros domínios (folk-lore,
    lendas, mitos) e tendo neles um papel mesmo
    mais importante do que na “linguagem dos so-
    nhos”.


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE


    Pessoalmente, nada tenho e em nada con-
    tribui para a aplicação da análise na pedago-
    gia. Mas era natural que as constatações, ana-
    líticas, relativas á vida sexual e ao desenvolvi-
    mento psíquico das crianças atraíssem a aten-
    ção dos educadores, fazendo-os considerar sua
    tarefa sob uma nova luz. O pastor protestante
    O. Pfister, de Zurich, assignalou-se
    como campeão infatigável desta tendência;
    achando, aliás, o cuidado da análise compatí-
    vel com uma religiosidade extremamente subli-
    mada. A doutora Mme. Hug – Hell-
    muth e o Dr. S. Bernefeld, de
    Viena, assim como muitos outros, dedicaram-
    se tambem a esse ramo de análise. Uma con-
    sequência prática importante resultou do em-
    prêgo da análise em matéria de educação pre-
    ventiva no que concerne á criança sãdia, e
    na criança ainda não neurotisada, mas já
    desviada em seu desenvolvimento. Não é
    mais possível reservar aos médicos o monopó-
    lio do exercício da psicanálise, excluindo dele

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    os leigos. De fato, o médico que não recebeu
    nesse domínio uma intsrução especial é, ape-
    sar de seu diploma, um profano em matéria
    de análise; podendo o leigo, por uma prepara-
    ção apropriada e uma colaboração ocasional
    executar o tratamento analítico das neuroses.

    Assim, graças a uma dessas evoluções con-
    tra as quais em vão se procura defesa, a pala-
    vra psicanálise tomou vários sentidos. Na ori-
    gem, designava um método terapêutico deter-
    minado: agora tornou-se, também, o nome de
    uma ciência: a do inconsciente psíquico. Essa
    ciência raramente pode por si só resolver ple-
    namente um problema, mas parece chamada a
    fornecer contribuições importantes aos mais
    variados domínios das ciências. O domínio em
    que se aplica a psicanálise tem, com efeito, a
    mesma amplitude que o da psicologia, para a
    qual traz um complemento de real valor.

    Revendo a parte de trabalho que me foi
    dado realisar na vida, posso dizer que abri


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    MINHA VIDA E A PSICANALISE

    muitos caminhos e dei muitos impulsos que po-
    derão conduzir a alguma coisa no porvir. Quan-
    to a mim, não posso saber si essa alguma coisa
    será pouco ou muito.