S.
S.
S.
59
III.
As cousas passaram-se segundo minha
expectativa. Libertei-me da hipnose, mas com a
mudança de técnica o trabalho catártico mu-
dou tambem de aspeto. A hipnose encobrira
um jogo de fôrça que agora se desvenda e
cuja compreensão deu á teoria um fundamento
seguro.Mas de que maneira acontecia que os do-
entes, tendo esquecido tantos fatos de sua vida
interior e exterior, pudessem no entanto lem-
brar-se deles quando se lhes aplicava a ciên-
cia acima descrita ? A observação respondeu
S.
60
a estas perguntas de um modo completo. Tudo
o que era esquecido, havia sido penoso e as-
sustador, doloroso ou vexatório, relativamen-
te ás pretensões que tinha a personalidade. A
idéia se impunha por si mesma: por essa
mesma razão isto havia sido esquecido, quer
dizer, não permaneceu conciente. Para tor-
ná-lo conciente, era preciso superar alguma
cousa que se subtraia. Era necessário empre-
gar esforços para, premindo-o, constrangê-lo.
O esfôrço exigido do médico era diferente e, se-
gundo os diferentes casos, crecia na proporção
direta da dificuldade da lembrança. A quan-
tidade do esfôrço do médico era, evidentemen-
te, a medida de uma resistência do
paciente. Só restava então traduzir por pala-
vras o que se sentia, e possuir-se a teoria do
recalcamen-
to.O processo patogênico deixava-se agora
reconstruir com facilidade. Para nos basear
sôbre um exemplo simples diremos que uma
tendência isolada surgira na vida psíquica,S.
61
MINHA VIDA E A PSICANALISE
tendência á qual, outras, poderosas, se opuse-
ram. O conflito psíquico que então nasceu, de-
via, segundo nossa expectativa, seguir um cur-
so tal que as duas grandezas dinâmicas — cha-
memo-las instinto e resistência — lutassem
uma contra outra por algum tempo, tomando
a conciência, poderosamente, parte no confli-
to e isso até o instinto ser repelido e despoja-
do de sua investida energica. Eis a solução
normal.Mas, na neurose por razões ainda desco-
nhecidas, o conflito encontrára novo rumo. O
ego tinha-se, por assim dizer, retirado depois
do primeiro choque com a emoção instintiva
reprovada, o que lhe vedara o acesso á concien-
cia e á descarga motriz direta, mas com tudo
isso, esta emoção, conservará a sua localização
de energia completa. Chamei a este processo
recalcamen-
to; constituia uma novidade e nada
semelhante ainda foi constado na vida psíqui-
ca. Representava, evidentemente, um me-
canismo primário de defesa, comparavel á
S.
62
uma tentativa de fuga, precursor da solução
normal posterior pelo julgamento. A êste pri-
meiro ato de recalcamento aliavam-se outros
consequentes. Primeiramente era preciso que
o ego se protegesse contra a investida da
emoção reprimida – por um esforço perma-
nente, uma contracarga, com o que
se empobrecia; por outro lado, o recalcado, o
que agora tornou-se inconsciente,
podia procurar uma derivação e satisfações
substitutivas por caminhos desviados e dêste
modo aniquilar as intenções do recalcamento.
Na histeria de conversão êste desvio levava á
inervação corporal, a emoção recalcada vinha
á tona em um ou outro ponto do corpo e crea-
vam-se sintomas que eram assim pro-
dutos de compromissos, na verdade, porém, sa-
tisfações substitutivas, mas, no entanto, defor-
madas e desviadas do seu fim, pela resistência
do ego.A doutrina do recalcamento tornou-se a
pedra angular da compreensão das neuroses. O
S.
63
papel terapêutico devia agora ser de outro
modo concebido; seu fim não sendo mais a
“reação” do afeto mal encaminhado, mas sim a
descoberta do recalcamento e a sua substitui-
ção por atos de julgamento que podiam consis-
tir na aceitação ou na condenação do que outro-
ra fôra reprimido. Cientifiquei-me do novo es-
tado de cousas, chamando este metodo de in-
vestigação e cura, não mais catarse e sim
psicanalise.O recalcamento póde servir como ponto de par-
tida e póde ser ligado com todas as partes da doutrina
psicanalitica. Mas antes pretendo fazer mais algumas
observações de carater polêmico. Conforme Janet,
a histérica era uma pobre criatura que, em virtude de
sua fraqueza constitucional não podia reunir suas di-
versas atividades psíquicas. Por isso era a prêsa da
dissasociação psíquica e do estreitamento do campo da
conciência. Conforme os resultados da investigação
psicanalítica êsses fenomenos eram divididos em fato-
res dinâmicos, ao conflito psíquico e ao recalcamento
consumado. Creio ser essa diferença de grande im-
portância e capaz de pôr fim á maledicência sempre
S.
64
renovada, segundo a qual o pouco de valor que a psi-
canálise póde conter, se reduz a um plágio das idéas
de Janet. Minha exposição poude provar que a
psicanálise, do ponto de vista histórico, é absolutamen-
te independente das descobertas de Janet, como
se afasta bastante pelo seu assunto e mesmo as ul-
trapassa. Dos trabalhos de Janet efetivamente não
seriam derivadas as consequências que tornaram a
psicanálise tão importante para as ciências de espírito,
acentuando-lhe o interesse. Sempre tratei Janet
com respeito, porque as suas descobertas foram para-
lelas durante bastante tempo ás de Breuer que
foram feitas em uma data anterior e publicadas numa
posterior. Mas, quando a psicanalise começou em
França a ser objêto de discussão, Janet portou-se
mal, mostrando pouca competência.Serviu-se de argumentos que não eram lá muito
bons, desmerecendo-se aos meus olhos, depreciou sua
própria obra anterior. Dizia que, quando falava sôbre
os atos físicos “inconcientes”, nada queria com isso
indicar, tendo apenas o valor de “une façon de parler”,
com que desmentiu toda a sua obra anterior.Nêsse ínterim a psicanálise foi coagida
pelo estudo dos recalcamentos patogênicos e
S.
65
MINHA VIDA E A PSICANALISE
outros fenómenos que nos falta ainda mencio-
nar, e levarmos a sério a concepção do conscien-
te. Para esta todo o psíquico era a princípio in-
conciente, a qualidade conciente podia então
vir em acrescimo ou não. Com isso esbarrava-
se na contradição dos filósofos para quem
conciente era psíquico e que pro-
testaram não poder compreender um absurdo
como o “inconciente psíquico”. Pouco, porém,
importava o protesto dos filósofos; restava só-
mente dar de hombros á esta idiosincrasia. A
experiência adquirida no contacto com o mate-
rial patológico, material que os filósofos não
conheciam, experiência que revelou a frequên-
cia e poder de tais impulsos, dos quais nada se
sabia, mas que era necessário concluir como um
fáto qualquer do mundo exterior, não deixava
lugar algum á livre escolha. Podia-se salientar
que não se fazia para sua própria vida psíqui-
ca senão aquilo que sempre se fizera pela dos
outros. Atribuia-se tambem á uma outra pes-
soa átomos psíquicos si bem que deles não se ti-
S.
66
vesse uma conciência imediata e que fosse pos-
sivel adivinhá-las por manifestações exteriores
e ações. O que é justificável com relação a um
outro, deve tambem ser justo para com a pró-
pria pessoa. Querendo levar-se êsse argumento
mais longe e dele concluir que os nossos pro-
prios atos velados, pertencem na realidade a
uma segunda conciência, encontramo-nos dian-
te da concepção de uma conciência da qual nada
se sabe, conciencia inconciente, o que é apenas
uma vantagem relativamente a um psiquismo
inconciente. Diz-se com outros filósofos que os
fatos patológicos são reconhecidos, mas que
convem chamar os atos psíquicos que estão na
sua base, não psíquicos mas psicóides. A dife-
rença se desenvolve sôbre as linhas de um esté-
ril bate-boca, onde se é dos mais justificados
a decidir-se pela continuação do têrmo “con-
ciente psíquico”. A questão relativa á natureza
desse inconciente não é por isso mais judiciosa
e não oferece mais perspetivas do que a prece-
dente, relativa á natureza do conciente.
S.
67
Seria mais difícil expôr em poucas pala-
vras, como a psicanálise chegou a dividir ain-
da, o inconsciente reconhecido por ela e a de-
compô-lo em um “pre-
CONSCIENTE” e um
inconsciente, propriamente dito. A observação
seguinte poderá bastar: parecia legítimo com-
pletar, por hipoteses, as teorias que são a ex-
pressão direta da observação, hipóteses essas
que são úteis para dar idéias das cousas e, re-
ferindo-se a relações que não podiam tornar-se
objeto das observações imediatas. Mesmo em
ciências mais antigas, não se usa proceder de
outro modo. A divisão do inconsciente está em
relação com a tentativa de se representar o
aparelho psíquico como construido de sistema
ou instância; relações das quais se fala em ter-
mos de ordem “ESPACIAL” não se procuran-
do, porém, em absoluto basear-se na anatomia
real do cerebro (é o que chamamos o ponto de
vista TÓPICO). Tais e semelhantes re-
presentações pertencem á superestrutura espe-
culativa da psicanálise e cada parte dela pode
S.
68
ser, sem prejuizo, sacrificada ou substituida,
logo que uma insuficiência venha a ser verifi-
cada. Resta-nos relatar bastantes cousas, mais
próprias de observação.Já mencionei que a investigação relativa ás
causas ocasionais e a produção da neurose, re-
velava, com uma frequência sempre crescente,
a existência de conflitos entre os ímpetos do sêr
e suas resistências contra a sexualidade. Rebus-
cando situações patogênicas que motivaram os
recalçamentos de sexualidade, e cujos sintomas
emanavam como formações substitutivas do re-
calçado, voltava a períodos sempre mais pre-
coces da vida do doente e chegava-se emfim
aos anos da sua infância. Revelou-se então o que
já os romancistas e conhecedores do coração
humano sabiam ha muito tempo: que as impres-
sões de todo esse período da vida, si bem que
pela maior parte defeituosas pela amnésia, dei-
xavam traços inapagáveis no desenvolvimento
do indivíduo, em particular, porém, fundavam
a disposição a neuroses ulteriores. Mas, comoS.
69
MINHA VIDA E A PSICANALISE
nestes acontecimentos da infância se tratava
sempre de excitações sexuais e da reacção contra
elas, ficava-se em presença do fáto da
sexualidade infantil, o que era
mais uma novidade em contradição com um
dos mais fortes preconceitos humanos. A in-
fância devia ser “inocente”, livre de concupi-
ciências sexuais e o combate contra o demónio
“sensualismo” só começa com a transição para
a puberdade. O que ocasionalmente devia se
ter notado quanto á atividade sexual das cri-
anças, considerava-se como sinal de degenere-
cência, de depravação precoce ou como um ca-
pricho curioso da natureza. Poucas são as con-
testações da psicanálise que tenham excitado
uma tão geral aversão, que tenham provocado
uma tal explosão de indignação como esta as-
serção, de que a função sexual começa com a
vida e se manifesta desde a infância, por fe-
nômenos importantes. No entanto não há des-
coberta analítica que seja de mais fácil e com-
pleta demonstração.
S.
70
Sig. Freud
Antes de abordar a exposição da sexualida
de infantil, preciso mencionar um êrro no qual
incidi durante algum tempo e que logo pode
ria ter sido fatal a todo meu labor. Nas pa
cientes, o papel de sedutor era sempre atri
buido ao pai. Acreditei nessas informações e
assim pensei descobrir nessas seduções preco
ces da infancia fontes da neurose ulterior. Al
guns casos em que tais relações para com o
pai, um tio, um irmão mais velho, mantive
ram-se até uma idade, sempre com a mesma
certeza, fortificaram a fé. A quem criticar com
desconfiança uma tal credulidade, não posso
de todo censurar, mas quero salientar que na
quele tempo forçava propositadamente a crí
tica, afim de permanecer imparcial e apto a
receber as numerosas novidades que cada dia
ela me trazia. Quando, no entanto, tive de reco
nhecer que estas cenas de sedução nunca exis
tiram e não eram sinão fantasias imaginadas
por meus pacientes a êstes impostas, talvez,
por mim mesmo, fiquei durante algum tempoS.
71
MINHA VIDA E A PSICANÁLISE
desamparado; a confiança em minha técnica
como em meus resultados sofreu um rude gol-
pe, pois obtive a confissão dessas cenas
por um meio técnico que considerava correto
e seu conteúdo estava incontestavelmente re-
lacionado com os sintomas dos quais minha in-
vestigação partira. Voltando a mim, tirei da
minha experiência conclusões justas: os sin-
tomas neuróticos não se fixavam diretamente
a acontecimentos reais, mas a fantasmas de
desejos; para a neurose a realidade psíquica
tinha mais importância do que a realidade
mental. Ainda hoje não me convenço de haver
imposto ou “sugerido” aos meus pacientes es-
tas fantasias de sedução. Encontrei aqui pela
primeira vez o complexo de Edipo,
que devia, em seguida, adquirir uma signifi-
cação dominante, mas que ainda não conse-
gui reconhecer sob um disfarce tão fantástico.
A sedução do período da infância guardou
tambem uma parte na etiologia, si bem que
em proporções mais modestas. Os sedutores
S.
72
eram na maior parte das vezes crianças mais
velhas.Meu êrro foi, desta maneira, igual ao dos
que tomassem a história legendária dos reis
de Roma, tal como no-
la conta Tito Livio, por uma verdade histórica em vez
de uma fantasia: uma reacção contra a lembran-
ça de situações e de tempos tristes e miseráveis,
sem dúvida, nem sêpre gloriosos. Êste êrro,
uma vez dissipado, deixava livre o caminho
para poder estudar a sexualidade infantil. Che-
gava-se assim a aplicar a psicanálise a um ou-
tro domínio do saber e, segundo seus dados,
a adivinhar uma parte até então desconhecida
dos fátos biológicos.A função sexual era presente desde o
princípio, apoiava-se primeiramente sôbre as
outras funções vitais, tornando-se em seguida
independente; devia esta realisar uma evolu-
ção longa e complicada, antes de tornar-se a
vida sexual normal do adulto tal como a co-
nhecemos. Manifestava-se, primeiramente,
72
S.
73
MINHA VIDA E A PSICANALISE
pela atividade de toda uma série de compo-
nentes de impulso, dependentes
de zonas somáticas erógenas. Apre-
sentava-se em parte por pares contrastados
(sadismo-masoquismo; visionismo-exibicionis-
mo) aspirando a satisfazer-se numa indepen-
dência e encontrando o mais das vezes seu ob-
jeto no próprio corpo do paciente. A princípio
não eram, pois, ainda centralisadas, mas prin-
cipalmente autoeróticas. Mais tarde
produziram-se espécies de sínteses; um pri-
meiro período de organisação estava sob a
primazia dos componentes orais. Em
seguida vinha uma fase sádico-anal e,
sómente a terceira fase, mais tarde atingida,
dava a primazia aos órgãos genitais,
pelo que a função sexual entrava para o ser-
viço da reprodução. No decorrer dessa evolu-
ção, varios instintos parciais eram postos de
lado como inutilisáveis ou então conduzidos
para outras utilisacões. Outros eram desviados
do seu fim e aderiam á organisação genital.S.
74
Chamei á energia dos impulsos sexuais e –
sómente á esta – libido.Tive que admitir que a libido não exe-
cutava sempre e irrepreensivelmente a evolu-
ção acima descrita. Em virtude da fôrça pre-
dominante de certos componentes ou de opor-
tunidades de satisfação muito precoces, produ-
zem-se fixações da libido em diversos
pontos do caminho da evolução. E’ voltar a
esses pontos que a libido aspira no caso de
uma repressão ulterior (regressão) e
é geralmente a partir destes pontos que se
produzirá o despontar para o sintoma. Uma
compreensão ulterior dos fenômenos permitiu
acrescentar que a localização dos pontos de
fixação é igualmente decisiva para a escolha
da neurose, pela forma sob que aparece a do-
ença posterior.Em paralelo com a organização da libido
progride o processo da procura do objeto, a
quem é reservado na vida psíquica um grande
papel. O primeiro objeto de amor depois do
S.
75
MINHA VIDA E A PSICANALISE
período de autoerotismo, é para os
dois sexos a mãe, cujo orgão, destinado á nu-
trição da criança não era, sem duvida, no prin-
cípio, diferençado do de seu próprio corpo.
Mais tarde, mas ainda nos primeiros anos da
infância, se estabelece a relação do comple-
xo de Edipo, no decurso do qual o menino con-
centra seus desejos sexuais sôbre a pessoa de
sua mãe, sentindo desenvolver-se nele senti-
mentos hostis contra seu pai que é seu rival.
A menina toma uma atitude igual. Todas as
variações e derivações do complexo de Edipo
tornam-se as mais significativas, a constitui-
ção bissexual inata vem á luz e multiplica o
número das tendências concomitantes. E' pre-
ciso de certo tempo para que, a criança ad-
quira esclarecimentos sôbre a diferença dos se-
xos; é durante êste período de investi-
gação sexual que ela cria teorias
sexuais típicas, naturalmente dependen-
tes da imperfeição de sua própria organização
corporal, teorias que misturam o verdadeiro e
S.
76
o falso e não conseguem resolver o problema
da vida sexual (O enigma da esfinge: de onde
vem as crianças ?)A primeira escolha de objeto infantil é
pois incestuosa. Todo o conjunto da
evolução descrita é rapidamente percorrido. O
carater mais natural da vida sexual humana
é sua evolução em dois tempos,
tendo entre os dois um entreato. No quarto ou
quinto ano da existência, a vida sexual atinge
seu primeiro apogeu, fornecendo então esta
primeira floração da sexualidade: as aspira-
ções até então intensas sucumbem ao recalca-
mento e então começa o periodo de
latência que durará até á puberdade e
durante o qual serão edificadas as formações
reacionárias da moral, do pudor, da repulsão.
A evolução em dois tempos da vida sexual pa-
rece só ser, dentre todos os sêres vivos, apaná-
gio do homem. E' talvez a condição bio-
lógica de sua disposição á neurose. Na
puberdade, as aspirações e investidas li-S.
MINHA VIDA E A PSICANALISE
bidinosas do objeto da primeira infância
reanimam-se, assim como os laços obje-
tivos do complexo de Edipo. Na vida sexual
púbere, as aspirações da primeira idade lu-
tam contra as inibições do período de latên-
cia. No apogeu do desenvolvimento sexual in-
fantil se estabelecera uma espécie de organi-
sação genital na qual só o órgão masculino tinha
então um papel e o órgão feminino não havia
ainda sido descoberto (a chamada primazia
fálica). A oposição entre os dois sexos
não tinha então o nome de macho e
fêmea, mas: possuindo um penis ou
castrado. O complexo de cas-
tração, em ligação com êste período é de
enorme importância para a formação ulterior
do carater e da neurose.Nesta exposição abreviada do que a mim
se ofereceu relativamente á vida sexual hu-
mana, aproximei – para maior clareza –
muitas cousas que aconteceram em datas dife-
rentes e que foram incorporadas, como com--
S.
78
plemento ou retificação ás edições sucessi-
vas de meus “Três ensaios sôbre a teoria da
sexualidade”. Creio que esta exposição terá
feito ver em que consiste a extensão da conce-
pção da sexualidade, tantas vezes anotada e
criticada. Essa extensão é de uma dupla natu-
reza. Em primeiro lugar a sexualidade é des-
tacada de uma relação muito estreita com os
órgãos genitais e é considerada como uma fun-
ção corporal, abrangendo o conjunto do sêr e
aspirando ao prazer, função que só secunda-
riamente entra para o serviço da reprodução;
em segundo lugar, são colocadas entre as emo-
ções sexuais todas as emoções simplesmente
ternas ou íntimas, para as quais a nossa lin-
guagem corrente emprega a palavra “amor”,
nas suas múltiplas acepções. Quero mostrar
sómente que êsses alargamentos do conceito
de sexualidade não são inovações mas restau-
rações, por que nos deixamos induzir. O desta-
camento da sexualidade, em geral, dos órgãos
genitais, propriamente ditos, tem a vantagem
S.
79
de permitir-nos considerar a atividade sexual
das crianças como reverso do mesmo ponto de
vista da dos adultos normais, enquanto a pri-
meira havia sido até aqui despresada e a se-
gunda acolhida certamente com uma grande
moral, mas sem nenhuma compreensão.Quanto á concepção psicanalitica, as mais
estranhas e repugnantes perversões se expli-
cam como sendo manifestações de instintos se-
xuais parciais que se subtrairam á primazia
genital e, como nos tempos primitivos da libi-
do aspiram a satisfações independentes. A
mais importante dessas perversões, a homose-
xualidade, dificilmente merece esta denomina-
ção. Diz respeito á bissexualidade constitucio-
nal geral e á repercussão da primazia fálica.
No decorrer de uma investigação pisicanalíti-
ca pode ser descoberta em todo o mundo uma
parte de escolha homosexual do objeto. Quan-
do se classificam as crianças de “polimorfa-
mente perversas” isto serve sómente como um
têrmo descritivo de uso corrente: nenhum jul-
S.
80
gamento de valor se deve daí tirar. Tais julga-
mentos de valor estão, pois, muito afastados
do espírito da psicanálise. A segunda das di-
tas extensões da sexualidade é justificada pe-
los resultados da investigação psicanalítica:
com efeito, esta mostra que todas as emoções
sentimentais e ternas eram na origem, aspira-
ções plenamente sexuais, tornadas, em segui-
da, “inibidas, quanto ao fim” ou “sublima-
das”. No entanto, á sua faculdade de serem as-
sim influenciáveis e deriváveis, é que os ins-
tintos sexuais devem o poder serem empre-
gados em várias obras da civilisação, ás quais
fornecessem as mais importantes contribui-
ções.As extraordinárias constatações relativas
á sexualidade da criança foram primitiva-
mente fornecidas por análises de adultos, mas
poderiam, em seguida, mais ou menos em
1908, serem confirmadas por observações dire-
tas sobre crianças com todos os detalhes e com
toda a extensão requerida. Efetivamente é tão
S.
81
MINHA VIDA E A PSICANALISE
fácil convencer-se dessa atividade sexual re
gular das crianças que se pergunta com espan
to como os homens chegaram a não se aperce
berem desses fatos evidentes e a manter por
tanto tempo a lenda — filha do seu desejo —
da influência assexual. Isto deve ser relacio
nado com a anêsia que, para a maioria dos
adultos, encobre a própria infância.
S.
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