O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    Quem viveu largo tempo dentro de
    determinada civilização e se esforçou bastas
    vezes na pesquisa das origens dela e dos trá-
    mites do seu desenvolvimento, sente-se ten-
    tado tambem a voltar o olhar para outras
    direções e a propor a questão de qual seja o
    destino remoto que aguarde a essa civiliza-
    ção e que transformações será ela determi-
    nada a sofrer. Em breve notará, porém, que
    tal tentativa virá a ser préviamente depre-
    ciada por varias circunstancias; é que, antes
    de mais nada, ha poucas pessoas que possam
    ter uma vista de conjunto do mecanismo

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    humano em toda a sua extensão. Para a
    maior parte, tornou-se necessário o restrin-
    gir-se a um único departamento, ou a pou-
    cos, do conhecimento; quanto menos, po-
    rém, se conhece do passado e do presente,
    tanto menos seguro vem a ser o seu juízo
    sobre o futuro. Dá-se, ainda mais, que exa-
    tamente por esse juízo, as esperanças subje-
    tivas do indivíduo representam valor de di-
    fícil avaliação; mostram-se elas, porém, na
    dependencia de fatores meramente pessoais
    da experiencia individual, da atitude mais
    ou menos esperançosa ante a vida, tais como
    lhes permitem o temperamento, o bom exito
    ou o fracasso. Por fim, ainda entra em causa
    o fato digno de nota, de que o homem, em
    geral, vive como que ingenuamente o seu
    presente, sem poder ligar o devido valor ao
    conteúdo da sua época; é preciso primeiro
    ganhar distancia, isto é, que o presente se
    transforme em passado, para que se possa ter
    um ponto de partida para julgar do futuro.

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    Quem quer, pois, que ceda ao desejo
    de lançar uma opinião sobre o futuro veros-
    simil da nossa civilização, fará bem em lem-
    brar-se dos conceitos acima apontados, assim
    como da incerteza que, de modo geral, é ine-
    rente a qualquer predição. Daí se segue.
    Quanto a mim, que, fugindo á demasiada
    grandeza da tarefa, apenas pesquize o pe-
    queno trecho que até hoje tem merecido a
    minha atenção – e por isso que apenas pude
    determinar-lhe a posição, no grande todo.

    A cultura humana – e com isso expri-
    mo tudo com que a vida humana se tem ele-
    vado acima das suas condições animais e
    com que se distingue da vida dos animais,
    desprezando eu a diferença entre cultura e
    civilização – mostra notoriamente duas fa-
    ces, ao observador. Abrange, de um lado,
    todo o saber e poder que o homem conquis-
    tou, para dominar as forças da natureza e
    aproveitar-lhe os dons para satisfação das
    necessidades humanas; e por outro lado, to-

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    das as normas necessarias para regular as re
    lações dos homens entre si e particularmente
    a repartição dos dons accessiveis. Essas duas
    diretivas da cultura não são independentes,
    uma da outra; primeiro, porque as relações
    reciprocas dos individuos sofrem a influen-
    cia profunda da quantidade de satisfação dos
    impulsos compativel com os dons existentes;
    segundo, porque cada individuo pode entrar
    em relação com outro, a respeito de um dom,
    desde que esse outro lhe utilize a força de
    trabalho ou o tome como objeto sexual;
    terceiro, porque, no entanto, cada indivi-
    duo é virtualmente um inimigo da cultura,
    embora seja esta um interesse da comunhão
    humana. E’ digno de nota que os homens,
    por menos que possam existir em isolamen-
    to, sintam, contudo, como demasiado pesa-
    do o sacrificio que a cultura lhes exige, para
    tornar possivel uma vida em comum. A cul-
    tura tem, assim, de ser defendida contra o
    individuo; e as suas normas, instituições e

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    mandamentos se colocam ao serviço desta
    tarefa; tem eles por fim, não apenas estabe-
    lecer certa repartição de dons, mas tambem
    conserva-la; eles devem proteger, contra as
    tendencias hostís do homem, tudo quanto
    serve para dominar a natureza e para a aqui-
    sição de dons. As criações humanas são de
    facil destruição; a ciencia e a técnica que as
    construiram podem ser aplicadas tambem
    no seu aniquilamento.

    Colhe-se, assim, a impressão de que a
    civilização é algo de imposto a uma maio-
    ria, que resiste, por uma minoria que enten-
    deu apoderar-se dos meios de poder e coação.
    Decorre daí, naturalmente, que essas dificul-
    dades não se prendem á propria essencia da
    civilização, mas que são condicionadas pela
    imperfeição das formas de cultura que até
    hoje se têm desenvolvido. De fato, não é
    dificil apontar essas falhas. Enquanto a hu-
    manidade tem feito progressos continuos no
    dominio sobre a natureza e ainda deve

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    espera-los maiores – não se pode eviden-
    ciar progresso semelhante no regular as re-
    lações humanas e é de crer que em cada épo-
    ca, tal como ainda agora, muitos homens te-
    nham perguntado a si mesmos se, de ma-
    neira geral, é digna de defesa essa parte das
    conquistas da civilização. Dir-se-ia que de-
    vera ser possível, para regular as relações hu-
    manas, um novo regime, que evitasse as fon-
    tes de insatisfação da civilização, renuncian-
    do á coação e á repressão dos impulsos, de
    maneira que os homens pudessem, sem a
    turbação dos conflitos íntimos, dedicar-se-
    á conquista dos dons e ao seu gozo. Seria a
    Idade de Ouro; apenas resta saber se tal con-
    dição é realizavel. Antes, parece que toda ci-
    vilização tenha de ser construida sobre a
    coação e a repressão dos impulsos; nada nos
    faz crer que a maioria dos individuos huma-
    nos esteja acaso apta, quando cessada a coa-
    ção, a tomar a si a atividade do trabalho, ne-
    cessaria á aquisição de novos dons vitais.

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    Deve-se contar, penso eu, com o fato de que
    em todos os homens ha tendencias destru-
    tivas e, portanto anti-sociais e anti-culturais,
    que em grande numero deles são bastante
    fortes para determinar-lhes o comportamen-
    to na sociedade humana.

    A esse fato psicológico corresponde um
    conceito decisivo para o juizo sobre a cultu-
    ra humana. Poder-se-ia acrecentar que o
    essencial, na civilização, é o dominio sobre
    a natureza para a aquisição dos dons vitais
    e que os perigos que a ameaçam ficam remo-
    vidos por uma distribuição conveniente des-
    ses dons entre os homens; e assim a pesada
    carga do material se acha desviada para o
    psíquico. Será decisivo resolver se e em que
    extensão é permitido restringir a carga de
    sacrificios de impulsos imposta ao homem,
    conciliando-o com o que de tais sacrificios
    deva restar e operando uma compensação,
    para isso. Se não nos podemos furtar á coa-
    ção para o trabalho cultural, tampouco po-

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    demos escapar ao dominio da maioria por
    uma minoria, pois as massas são inertes e
    sem inteligencia, não amam a renuncia de
    cujo carater inevital não se convencem, por
    argumentos; e ademais, os individuos que as
    compõem se estimulam reciprocamente, no
    desenfreado abandono aos proprios impul-
    sos. Só pela influencia de individuos melhor
    dotados, a quem reconhecem como dirigen-
    tes, podem as massas ser movidas no senti-
    do das atividades do trabalho e no das re-
    nuncias, que umas e outras asseguram a es-
    tabilidade da civilização. Tudo vai bem,
    quando esses dirigentes possuem uma pru-
    dente compreensão das necessidades da vida
    e sabem elevar-se, no dominio dos seus pro-
    prios desejos impulsivos. Mas persiste para
    eles o perigo de que, para não perderem a
    influencia, mais concedam ás massas do que
    estas lh’o fazem; e por isso parece necessa-
    rio que se tornem independentes delas, por
    disposições relativas aos meios de autorida-

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    de. Para ser mais breve, tem o homem duas
    propriedades largamente espalhadas, por
    culpa das quais as instituições culturais só
    podem ser conservadas, graças a certa soma
    de coação e os indivíduos não encontram
    espontaneamente prazer no trabalho, de nada
    valendo argumentos, contra os seus sofri-
    mentos.

    Bem sei o que se pode opôr a tais asser-
    ções. Dir-se-á que o caracter aqui descrito
    das massas humanas, que justifica a irremis-
    sibilidade da coação, já é por si mesmo con-
    sequencia de instituições culturais defeituo-
    sas, graças ás quais os homens se tornaram
    irritados, vingativos, inabordaveis. Novas
    gerações, criadas com amor e no encareci-
    mento do pensamento, tendo experimenta-
    do precocemente os beneficios da civiliza-
    ção, ganharão tambem uma relação nova
    para com ela e a sentirão como propriedade
    sua; elas estarão aptas ao sacrificio de tra-
    balho e liberação de impulsos necessarios

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    para a sua conservação. Estarão capazes de
    furtar-se á coação e pouco se diferençarão dos
    seus dirigentes. Se até hoje ainda não nos
    foi dado encontrar em qualquer civilização
    uma coletividade com tais qualidades, segue-
    se daí que nenhuma civilização ainda encon-
    trou as diretivas que possam influir dessa
    maneira sobre o homem e isso desde a sua
    infancia.

    Pode-se assim duvidar de que, em ge-
    ral, ou pelo menos agora, ante a presente si-
    tuação do nosso domínio sobre a natureza,
    seja possível estabelecer tais diretivas cultu-
    rais; poder-se-á perguntar de onde virá a
    série de dirigentes prudentíssimos, serenissi-
    mos, desinteressadíssimos que possam agir
    como educadores das futuras gerações; e bem
    nos podemos amedrontar ante o gasto em
    coação, que será inevitavel, até a realização
    desses desígnios. Não se pode contestar a
    grandiosidade desse plano, nem a sua signifi-
    cação para o futuro da civilização humana.

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    O FUTURO DE UMA ILUSÃO


    Da observação psicológica se depreende que
    o homem é dotado daquelas variadas dispo-
    sições impulsivas a que deram direção con-
    veniente os fatos remotos da infância. Os
    limites da educabilidade do homem traçam
    assim também as fronteiras aos efeitos dessa
    transformação cultural. Pode-se ainda lan-
    çar duvida sobre se, e em que medida, outro
    meio cultural chegará a apagar as duas qua-
    lidades da coletividade humana que tornam
    tão difícil dirigir os interesses da nossa es-
    pecie. A experiencia ainda não foi feita. É
    verossímil-
    que certa percentagem da huma-
    nidade — por disposições morbidas ou por
    superabundancia de força impulsiva — ve-
    nha a ficar sempre associal; mas quando se
    tenha chegado ao estado em que a atual
    maioria hostil à civilização seja reduzida a
    uma minoria, ter-se-á conseguido muito, tal
    vez tudo quanto seja possível conseguir.

    Eu não quizera suscitar a impressão de
    me haver transviado para longe do cami-

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    nro prèviamente traçado ás minhas pesqui-
    zas. Devo, por isso, asseverar expressamente
    que está longe de mim decidir da grande ex-
    perimentação cultural que se está fazendo
    presentemente na vasta região entre a Euro-
    pa e a Asia. Nem tenho o conhecimento dos
    fatos nem a capacidade de julgar da exequi-
    bilidade do plano, meter á prova a adequa-
    ção dos metodos aplicados ou medir a inevi-
    tavel lacuna entre os designios e a execução.
    O que se está ali preparando escapa, por in-
    completo, á observação de quem dispõe do
    material oferecido pela nossa longamente
    consolidada civilização.