O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
  • S.

    IX

  • S.

    “Vós vos permitís contradições que
    dificilmente se poderão conciliar — tal me
    dirão os contrários. Começais por dizer que
    um trabalho como o vosso é inteiramente
    isento de perigo. Ninguem deixaria que lhe
    roubassem a fé religiosa, com tais argumen-
    tos. Mas, desde que é vossa intenção pertur-
    bar essa fé, conforme se colige mais adiante,
    poder-se-á perguntar: por que então publi-
    car esse trabalho? Em outro logar, conce-
    deis que possa tornar-se perigoso e deveras
    muito perigoso o verificar alguem que já
    não mais cré em Deus; até então, era dócil

  • S.

    126

    e agora põe de lado qualquer obediencia ás
    normas culturais. O vosso argumento, de
    que o basear os motivos dos mandamentos
    culturais na religião representa um perigo
    para a civilização, repousa no pressupos-
    to de que o crente possa vir a tornar-
    se descrente, o que é uma contradição com-
    pleta.

    “Outra contradição está em admitir-
    des que o homem não possa ser dirigido por
    meio da inteligencia; que ele seria dominado
    pelas proprias paixões e desejos impulsivos;
    e por outro lado em propordes a substituição
    dos fundamentos afetivos da obediencia
    cultural, por fatores racionais. Entenda-o
    quem puder; a mim me parece que deve ser
    ou uma ou a outra cousa.

    “Ademais, nada vos ensinou a histó-
    ria? Essa tentativa de buscar substituir a
    religião pela razão já uma vez foi feita, ofi-
    cialmente e em grande estilo. Lembrais-vos
    da Revolução Francesa e de Ropespierre?

  • S.

    127

    Tambem, a experiencia teve vida curta e
    consequencias lamentaveis. O fato se repro-
    duz agora na Russia; não nos move a curio-
    sidade de saber como se sairão dele. Não
    achais que deviamos admitir que o homem
    não pode dispensar a religião?

    “Vós mesmo dissestes que a religião é
    mais do que uma neurose coacta; mas não
    tratastes desse outro lado da religião; basta-
    vos tratar da analogia com a neurose. De
    uma neurose devemos libertar o homem; e o
    que com isso se possa perder, não vos inco-
    moda”.

    E respondo: A aparencia da contradi-
    ção deriva, provavelmente, de ter eu tratado
    de questões complexas, muito rapidamente.
    Uma cousa é preciso repetir: sustento ainda
    e sempre que o meu trabalho, a certo respei-
    to, é sem perigo. Nenhum crente se deixará
    desviar da sua fé, por esses ou análogos ar-
    gumentos. O crente tem certa ligação afetiva
    com o conteúdo da religião. Ha decerto

  • S.

    128

    inúmeros outros que não são crentes, no
    mesmo sentido. São obedientes ás normas
    da civilização, porque se deixam engodar
    pelas ameaças da religião e temem-
    na enquanto a consideram uma parte da realidade
    que os restringe. Esses são os que rompem,
    tão cedo tenham de negar á fé o valor de
    realidade e quanto a eles, não valem argu-
    mentos. Cessam de temer a religião, quando
    percebem que outros tambem não a temem;
    e a respeito deles sustentei que compreen-
    deriam o declínio da influencia religiosa,
    ainda que o meu trabalho não fosse pu-
    blicado.

    Penso, entretanto, que os meus adver-
    sarios dão mais valor á outra contradição
    que me atribuem. Os homens são bem pouco
    acessiveis aos argumentos da razão; e seriam
    inteiramente dominados pelos desejos im-
    pulsivos. Porque então havemos de negar-
    lhes a satisfação dos impulsos e substitui-
    la por argumentos racionais? Os homens são,

  • S.

    129

    realmente, assim; mas, já lhes perguntastes
    se devem ser assim, se a sua natureza íntima
    os obriga a ser assim? Poderá algum antro
    pologista dar o índice craniano de um povo
    que tem o costume de deformar, desde cedo,
    com enfaixamentos, a cabecinha dos filhos?
    Pensemos no contraste desconcertante entre
    a inteligência brilhante de uma criança sadia
    e a fraqueza mental do adulto médio. Seria
    então inteiramente impossível que justa-
    mente a educação religiosa fosse, em, grande
    parte, culpada desse relativo retardamento
    evolutivo? Penso que uma criança, não in-
    fluenciada por educação especial, muito ha-
    veria de custar a formar idéas sobre Deus
    e sobre as cousas do Além. Talvez essas
    idéas houvessem de seguir os mesmos trâ-
    mites que os percorridos pelos seus avoengos
    primitivos; mas ninguem costuma esperar
    por essa evolução, antes se dá á criança o
    ensinamento religioso, numa época em que
    nem ela tem interesse por tal cousa, nem pos-

  • S.

    130

    sue a capacidade para compreender-
    lhe o alcance. Adiamento da evolução sexual e
    precocidade na influencia religiosa — tais
    são os dous pontos capitais do programa
    da moderna pedagogia, não é verdade? As
    sim, quando o pensamento da criança des-
    perta, as doutrinas religiosas já se lhe tor-
    naram incompreensiveis. Achareis, porém,
    que é urgente, para o fortalecimento da
    função de pensar que se lhe cerre esse terreno
    tão significativo, com a ameaça das penas
    do inferno? Quanto a esse que acaso se per-
    suadiu de que devia aceitar sem crítica todos
    os absurdos comunicados pelas doutrinas
    religiosas e até mesmo fazer vista grossa
    quanto ás contradições aí existentes — não
    nos devemos admirar muito da sua fraqueza
    mental. Ora, não temos, porém, outro meio
    para dominar a nossa impulsividade, a não
    ser a nossa inteligencia. Como se pode espe-
    rar, de pessoas submetidas ao dominio da
    proibição de pensar, que venham a alcançar

  • S.

    131

    o ideal psicológico, o primado da inteligen-
    cia? Bem sabeis que se atribue, em geral, ás
    mulheres, a chamada “inferioridade mental
    fisiológica”, isto é, uma inteligência menor
    do que a dos homens. O fato é, por si mes-
    mo, discutível, de interpretação duvidosa
    mas existe um argumento para provar a na-
    tureza secundaria dessa limitação evolutiva:
    as mulheres sofrem a dureza da proibição
    precoce de aplicar o pensamento sobre aquilo
    que mais as interessa, principalmente sobre
    os problemas da vida sexual. Enquanto in-
    fluirem sobre os verdes anos do homem,
    além das inibições sexuais, do pensamento,
    as inibições religiosas e as de fidelidade, des-
    tas derivadas, não poderemos decidir, a esse
    respeito, onde esteja a verdade.

    Moderarei, porém, o meu zelo e admi-
    tirei a possibilidade de estar eu tambem a
    correr empós de uma ilusão. Talvez não seja
    tão severo quanto o digo o efeito da proibi-
    ção religiosa de pensar; talvez se possa ve-
     

  • S.

    132

    rificar que a natureza humana ficará a mes-
    ma, ainda quando não se malbarate a edu-
    cação, submetendo-a á religião. Não o sei
    e ninguem o sabe, tambem. Não sómente os
    grandes problemas desta vida parecem atual-
    mente insolúveis, mas ainda, ha varias pe-
    quenas questões de dificil decisão. Mas hão
    de confessar que aqui se justifica uma espe-
    rança no futuro: que talvez seja um tesouro
    que enriquecerá a civilização e que compen-
    sará o esforço empregado, o fazer a tenta-
    tiva de empreender uma educação irreligiosa.
    Se a tentativa resultar insatisfatoria, estarei
    pronto a desistir da reforma e a voltar ao
    primitivo juizo, puramente descritivo: o ho-
    mem é um ser de inteligencia muito debil,
    que vem a ser dominado pelos seus proprios
    desejos impulsivos.

    Em outro ponto estou plenamente de-
    acordo com os meus contraditores: é decerto
    imprudente começar por abolir a religião vio-
    lentamente e de um golpe; primeiro, porque

  • S.

    133

    seria desesperador; o crente não deixa que
    lhe tirem a fé, nem com argumentos, nem
    com proibições. Quem, durante decenios,
    usou de drogas para dormir, naturalmente
    não poderá dormir, se lhe tiram as drogas.
    Que o efeito da consolação religiosa pode ser
    comparado ao de um narcótico, corrobora-
    o lindamente um fato ocorrido na America.
    Ali – claramente pela influencia do domí-
    nio feminino – tiram agora aos individuos
    os meios de excitação, embriaguez e prazer
    e saciam-nos, em troca, com o temor de Deus.
    Mas quanto ao êxito dessa experimentação,
    não vale a pena ser curioso.

    Já estou em oposição, porém, ao meu
    contraditor, quando diz, a seguir, que o ho-
    mem, em geral, não dispensará o consolo da
    ilusão religiosa, que sem esta, não poderá su-
    portar o peso da vida, a cruel verdade. Sim;
    assim será o homem a quem, desde a infan-
    cia, ministrastes o doce (ou doce-amargo)
    veneno. Mas o outro, que foi criado abste-

  • S.

    134

    mio? Talvez aquele que não sofra da neu-
    rose não precise de qualquer intoxicação, para
    entorpecer-se. Decerto ha de o homem achar
    se em sittuação mais difícil; terá de reconhe-
    cer o seu inteiro desamparo, a sua pequenez,
    ante o maquinismo do mundo; não mais
    será o ponto central da Criação, nem o obje-
    to de cuidados carinhosos de uma Providen-
    cia bondosa. Estará na mesma situação que
    uma criança que abandonasse a casa paterna
    onde tudo era tão quente e tão cómodo. Mas,
    não é a verdade que o infantilismo está des-
    tinado a ser vencido? O homem não pode
    ficar eternamente criança; terá afinal que vir
    para fóra, para a “vida hostil”. Deve cha-
    mar-se a isso a “educação para a realidade”;
    é preciso ainda dizer que o unico designio
    deste meu trabalho é chamar a atenção para
    a necessidade deste passo?

    Temeis, realmente, que o homem não
    suporte a rude prova? Ora, deixai que sem-
    pre tenhamos esperança. Já vale alguma cou-
     

  • S.

    135

    sa saber a gente que pode contar com as suas
    próprias forças; aprende, então, a servir-
    delas. O homem não está de todo sem meios
    de amparo; a sua ciência muito lhe tem en-
    sinado, desde os tempos do dilúvio e ha
    de aumentar-lhe ainda o poder; e quanto
    ás grandes necessidades fatais, para as quais
    não existe amparo, ele aprenderá bem a su-
    portá-las com resignação. De que lhe serve
    a mistificação de possuir na lua um latifun-
    dio, de cujo rendimento nunca ninguem viu
    cousa alguma? Como pequeno camponez
    honrado, neste mundo, saberá melhor’ele cul-
    tivar a sua gleba, que o nutrirá. Assim, re-
    nunciando ás esperanças no Além e concen-
    trando todas as forças libertadas na vida
    terrena, poderá provavelmente conseguir que
    essa vida se torne suportavel para todos e
    que não mais os oprima a civilização. Então,
    haverá de dizer, sem lastimar-se, com um
    dos nossos companheiros de descrença:

    “Os ceos, abandonámo-los
    Aos anjos e aos pardais”.