O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    “Parece grandioso ! — continua o con-
    traditor. Uma humanidade que renunciou a
    todas as ilusões e assim se tornou capaz de
    acomodar-se suportavelmente sobre a terra !
    Eu, porém, não posso suportar as vossas es-
    peranças. Não porque seja um obstinado
    reacionario, como talvez me julgueis; mas
    por discernimento. Penso apenas que tro-
    cámos os papeis: sois vós o entusiasta, que
    se deixa arrastar por ilusões e eu sigo o aviso
    da razão, do direito, do cepticimo. O que
    haveis exprimido parece-me construido sobre
    erros a que eu, a exemplo vosso, devo cha-
    mar ilusões, pois que traem bem claramente
    a influencia dos vossos desejos. Alimentais
    a esperança de que as gerações que não te-
    nham sofrido na infancia a influencia das
    doutrinas religiosas possam facilmente alcan-
    çar o primado da inteligencia sobre a vida
    impulsiva. E’ uma completa ilusão; * nesse
    ponto decisivo, a natureza humana mal po-
    derá mudar. Se não me engano — tão pouco

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    se sabe sobre as outras civilizações – ha
    atualmente povos que não se desenvolve-
    ram sob a pressão de um sistema religioso e
    não se aproximam mais do nosso ideal do
    que outro qualquer. Se quereis abolir da
    nossa cultura européa a religião, tal só po-
    derá acontecer com a substituição desta por
    outro sistema de doutrina; e esta tomaria,
    desde o começo, para sua defesa, todos os
    caracteres de uma religião: a santidade, a
    rigidez, a intolerancia, a propria proibição
    de pensar.

    Deveis ter algo dessa especie, para
    corresponder ás necessidades da educação;
    pois não podeis renunciar á educação. O ca-
    minho é longo, desde o lactente até o homem
    civilizado; muitos homenzinhos hão de neie
    transviar-se e não chegar a tempo aos seus
    deveres na vida, se os abandonardes, sem
    guia-los, ao desenvolvimento próprio. Os
    ensinamentos que lhes forem aplicados na
    educação sempre lhes trarão restrições nos

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    anos de adulto, da mesma forma porque di
    zeis que o faz a religião. Não vêdes que o
    erro congénito da nossa e de todas as civi
    lizações é o de permitir á criança impulsiva
    e de inteligencia debil discernimentos que só
    se justificam para a mente amadurecida do
    adulto? Outra cousa, porém, não pode ela
    fazer, em consequencia da pressão conjunta
    da secular evolução humana sobre um pe
    queno numero de anos de infancia; e a crian
    ça, só por forças afetivas pode ser induzida
    a apropriar-
    se dos deveres que lhe cabem.
    Tais são tambem as intenções do vosso pri
    mado da inteligencia.

    “Assim, continuará o contraditor, não
    vos admirareis, se pleiteio a conservação do
    sistema de doutrina religiosa, como base da
    educação e da vida coletiva humana. E’ um
    problema pratico e não uma questão de va
    lor de realidade. Pois que, no interesse da
    nossa civilização, não podemos contar com
    a influencia do individuo, enquanto este não

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    esteja amadurecido para a civilização, 
    muitos, em geral, não chegam a amadurecer 
    – pois que somos obrigados a impor aos 
    adultos qualquer sistema de doutrinas que 
    atúem sobre eles como postulados isentos de 
    crítica, parece-me que o sistema religioso é o 
    mais apropriado para esse fim; e natural-
    mente por causa, mesmo, da sua força de 
    consolação e de satisfação de desejos, em que 
    reconheceis “uma ilusão”. Em face das di-
    ficuldades de conhecer algo da realidade e 
    tambem da dúvida, se se chegará acaso a co-
    nhece-la, não devemos esquecer que tambem 
    as necessidades humanas são uma parte da 
    realidade e decerto uma parte grave, que 
    nos toca bem de perto.

    “Outra superioridade da doutrina reli-
    giosa está, para mim, em uma das suas pro-
    priedades, que achais particularmente cho-
    cante. Concedeis uma compreensível purifi-
    cação e sublimação, na qual se apagará a 
    maior parte daquilo que tenha os traços do

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    pensamento primitivo e infantil. O que resta
    será um conteúdo de ideias que a ciencia não
    mais contradiz nem pode contestar, tambem.
    Essas transformações operadas pela doutrina
    religiosa e a que chamais imperfeições e acor-
    dos permitem evitar a separação entre a
    massa ignorante e o pensador filósofo e con-
    servam a comunhão entre uma e outro, o
    que é tão importante para a segurança da
    civilização. Não é, pois, de temer que o ho-
    mem do povo venha a perceber que os ho-
    mens das camadas superiores da sociedade já
    não crêem em Deus. Assim, penso ter mos-
    trado que o vosso esforço se reduz a substi-
    tuir uma ilusão experimentada e afetivamen-
    te valiosa, por uma outra, não ainda provada
    e indiferente”.

    E eu responderei: Não deveis julgar-me
    inacessível á vossa crítica. Bem sei quanto é
    difícil evitar desilusões; talvez as proprias
    esperanças que reconheço ter sejam de natu-
    reza ilusória. Mas existe, em verdade, uma

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    diferença: as minhas ilusões — sem contar
    que ninguém é punido, se não as partilhar-
    não são incorrigíveis, como as religiosas e
    não têm o carácter delirante. Se a experien-
    cia — não a minha, mas a dos que vierem
    depois e pensarem como eu — se a experien-
    cia demonstrar que estávamos errados, re-
    nunciaremos ás nossas esperanças. Tomai a
    minha tentativa por aquilo que ela repre-
    senta. Um psicólogo que não se ilude sobre
    a dificuldade de orientar-se neste mundo, es-
    força-se por julgar a evolução da humani-
    dade segundo a experiencia colhida no estudo
    uos processos psíquicos do individuo, au-
    rante o seu desenvolvimento, de criança a
    adulto. Daí o impôr-se-lhe a concepção de
    que a religião é comparavel a uma neurose
    infantil; e ele é bastante optimista para admi-
    tir que a humanidade vencerá essa fase neu-
    rótica, tal como sucede com varias crianças,
    a respeito das neuroses análogas. Esses pon-
    tos de vista da psicologia do individuo po-
     

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    dem ser insuficientes; a transferencia desses
    fenómenos para a especie humana, em geral,
    poderá não ser justificavel; o optimismo po-
    derá não ter fundamento; admito todas essas
    incertezas. Mas ninguem pode furtar-se a
    dizer o que pensa; e desculpamo-nos dizen-
    do que ninguem dará a esses pensamentos
    maior valor do que o que valem.

    Devo ainda deter-me em dous pontos.
    Primeiro, a fraqueza da minha posição não
    importa qualquer fortalecimento da dos
    meus contraditores. Defendem eles uma
    causa perdida. Podemos tanta vez acentuar
    que a inteligencia humana seja sem força, em
    comparação com a vida impulsiva e teremos
    razão. Mas nessa fraqueza alguma cousa
    existe de particular: a voz da inteligencia é
    debil, mas não descança, enquanto não se
    faz ouvir. Por fim, depois de inumeras e re-
    petidas repulsas, ela se impõe. Esse é um dos
    poucos pontos pelos quais devemos ser opti-
    mistas, quanto ao futuro da humanidade;

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    mas em si, representa não pouca cousa; ainda
    podemos fundar nisso as nossas esperanças.
    O primado da inteligencia está ainda longe,
    bem longe, mas não no infinito. E como,
    presuntivamente, esse primado visará as mes-
    mas finalidades cuja realização esperais do
    vosso Deus (naturalmente em proporção hu-
    mana e tanto quanto o permite a realidade
    externa, a Anánkê), a saber, o amor dos
    homens e a limitação do sofrimento – de
    vemos dizer que o nosso antagonismo é ape-
    nas provisório e nunca inconciliavel. Ane-
    lamos todos pela mesma cousa, mas vós sois
    intolerantes, pretenciosos e – por que não
    dize-lo? – mais egoistas do que eu e os do
    meu lado. Quereis que a ventura comece
    imediatamente após a morte; exigís desta
    o impossivel e não quereis atender aos dese-
    jos do individuo. O nosso deus Lógos *
    realizará, desses desejos, o que a Natureza


    *O par de deuses Logos-Anánkê, do hollandez
    MULTATULI.

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    permita além de nós, mas fa-lo-á a pouco
    e pouco, em um futuro remoto e para novas
    gerações. Não nos promete ele uma compen-
    sação para nós outros, que tão rudemente
    sofremos a vida. No caminho para esse alvo
    distante, as vossas doutrinas religiosas hão
    de tombar, ainda que as primeiras tentativas
    sejam frustradas, ainda que se demonstrem
    inconsistentes as primeiras imagens substi-
    tutivas. Sabeis porque: ao fim de certo tem-
    po, nada se pode opôr á razão e á experien-
    cia; e o antagonismo da religião a ambas
    elas é palpavel. As idéias religiosas mais cele-
    bradas não podem escapar a esse destino, por
    muito que busquem salvar, da consolação
    da religião. Na verdade, quando vos cingís
    ao conceito de um ser espiritual mais alto,
    cujas propriedades são indeterminadas e
    cujos designios são incognoscíveis, pondes
    vos fóra do alcance das objeções científicas
    e com isso vos abandona o interesse humano.
    Em segundo logar: Observais a dife-
     

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    rença entre a vossa atitude e a minha, em
    face da ilusão. Tendes de defender com to-
    das as vossas forças a vossa ilusão; se esta
    fôr depreciada – e está realmente ameaçada
    disso – o vosso mundo se desmoronará e
    nada mais vos ha de restar que o desesperar
    de tudo, da civilização e do futuro da huma-
    nidade. Dessa escravidão estou, estamos livres
    nós outros; desde que estamos prontos a
    renunciar a boa parte dos nossos desejos in-
    fantís, podemos tolerar que algumas das nos-
    sas esperanças nos apareçam como ilusões.

    A educação liberta da pressão da dou-
    trina religiosa não mudará talvez em muito
    a essencia psicológica; o nosso deus Lógos
    talvez não seja todo poderoso e apenas po-
    derá cumprir uma parte do que os seus pre-
    decessores prometeram. Se bem posso enten-
    der, aceita-lo-emos com resignação. Não
    perderemos o interesse do mundo e da vida,
    pois que temos em algo um arrimo que vos
    falta: cremos que é possível ao trabalho cien-
     

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    tífico conhecer alguma cousa sobre a reali-
    dade do mundo, com o que o nosso poder
    se pode elevar e por onde poderemos dirigir
    a nossa vida. Se essa crença é uma ilusão,
    então estaremos na mesma situação que vós;
    mas a ciencia, por inumeras e significativas
    consequencias, nos deu a convicção de não
    ser uma ilusão. Ela tem muitos inimigos de-
    clarados e ainda muitos mais encapotados,
    que não querem reconhecer que ela enfra-
    queceu a fé religiosa e ameaça destrui-la. Lan-
    çam-lhe em rosto quão pouco ela nos tem
    ensinado e quanto incomparavelmente mais
    ainda permanece em obscuridade. Mas com
    isso, esquecem quão nova é ainda ela, quão
    difíceis lhe foram os começos e quão peque-
    nino o espaço de tempo, desde que a inteli-
    gencia humana despertou para o trabalho
    científico. Não estaremos todos errados, em
    querer basear o nosso juizo sobre tão curto
    espaço de tempo? Poderiamos tomar um
    exemplo aos geólogos. Queixamo-nos da in-
     

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    certeza da ciência; de que esta apresente hoje
    como lei o que a geração seguinte demons-
    trará como erro, substituindo-o por outra
    lei cujo valor tem a mesma curta duração.
    Mas isso é injusto e em parte falso. As mu-
    danças da opinião científica são progressos;
    progressos e não derrocadas. Uma lei cien-
    tífica que se reconheceu absolutamente va-
    liosa apresenta-se como caso especial de uma
    regra mais abrangiva ou vem a ser limitada
    no seu alcance por outra lei que se vem a
    descobrir mais tarde. Uma aproximação
    tôsca da verdade vem a ser substituida por
    outra mais cuidadosamente adequada, que
    por sua vez aguarda um aperfeiçoamento
    ulterior. Em diversos terrenos, ainda não se
    transpoz uma fase da pesquisa em que se
    tentam hipoteses que logo têm de ser aban-
    donadas, por inviáveis; em outras, porém,
    já se atinge a um núcleo certo e quasi imu-
    davel, de conhecimento. Por fim, tem-se ten-
    tado desvalorizar radicalmente os esforços

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    científicos por isso que, ligados ás condi-
    ções do nosso próprio organismo, não nos
    podem eles dar mais do que conceitos sub-
    jetivos, enquanto a verdadeira natureza das
    cousas permanece inacessível, fóra de nós.
    Com isso, rejeitam fatores que são decisivos
    para a concepção do trabalho científico, isto
    é, que o nosso organismo, o nosso apare-
    lho psíquico se tem mesmo desenvolvido nos
    esforços pelo conhecimento do mundo ex-
    terior; que assim, tem realizado na sua es-
    trutura uma parte de utilidade; que é, ele
    próprio, uma porção desse mesmo mundo
    sobre que deve pesquisar e que permite mui-
    to bem tais pesquisas; que o dever da cien-
    cia fica bem circunscrito, quando o limita-
    mos ao mostrar como nos deve aparecer o
    mundo, em relação ás propriedades da nossa
    organização; que os resultados finais da
    ciência, exatamente pela natureza das suas
    aquisições, não estão condicionados apenas
    pelo nosso organismo, mas também por

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    aquilo que agiu sobre o nosso organismo; e,
    por fim, que o problema de uma condição
    do mundo, sem a referencia ao nosso apa-
    relho psíquico de percepção, é uma abstra-
    ção vazia, sem interesse prático.

    Não. A nossa Ciencia não é ilusão
    alguma. Ilusão seria, porém, crer que pudes-
    semos obter em outra qualquer fonte aquilo
    que a Ciencia não nos pode dar.