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139
“Parece grandioso ! — continua o con-
traditor. Uma humanidade que renunciou a
todas as ilusões e assim se tornou capaz de
acomodar-se suportavelmente sobre a terra !
Eu, porém, não posso suportar as vossas es-
peranças. Não porque seja um obstinado
reacionario, como talvez me julgueis; mas
por discernimento. Penso apenas que tro-
cámos os papeis: sois vós o entusiasta, que
se deixa arrastar por ilusões e eu sigo o aviso
da razão, do direito, do cepticimo. O que
haveis exprimido parece-me construido sobre
erros a que eu, a exemplo vosso, devo cha-
mar ilusões, pois que traem bem claramente
a influencia dos vossos desejos. Alimentais
a esperança de que as gerações que não te-
nham sofrido na infancia a influencia das
doutrinas religiosas possam facilmente alcan-
çar o primado da inteligencia sobre a vida
impulsiva. E’ uma completa ilusão; * nesse
ponto decisivo, a natureza humana mal po-
derá mudar. Se não me engano — tão poucoS.
140
se sabe sobre as outras civilizações – ha
atualmente povos que não se desenvolve-
ram sob a pressão de um sistema religioso e
não se aproximam mais do nosso ideal do
que outro qualquer. Se quereis abolir da
nossa cultura européa a religião, tal só po-
derá acontecer com a substituição desta por
outro sistema de doutrina; e esta tomaria,
desde o começo, para sua defesa, todos os
caracteres de uma religião: a santidade, a
rigidez, a intolerancia, a propria proibição
de pensar.Deveis ter algo dessa especie, para
corresponder ás necessidades da educação;
pois não podeis renunciar á educação. O ca-
minho é longo, desde o lactente até o homem
civilizado; muitos homenzinhos hão de neie
transviar-se e não chegar a tempo aos seus
deveres na vida, se os abandonardes, sem
guia-los, ao desenvolvimento próprio. Os
ensinamentos que lhes forem aplicados na
educação sempre lhes trarão restrições nosS.
141
anos de adulto, da mesma forma porque di
zeis que o faz a religião. Não vêdes que o
erro congénito da nossa e de todas as civi
lizações é o de permitir á criança impulsiva
e de inteligencia debil discernimentos que só
se justificam para a mente amadurecida do
adulto? Outra cousa, porém, não pode ela
fazer, em consequencia da pressão conjunta
da secular evolução humana sobre um pe
queno numero de anos de infancia; e a crian
ça, só por forças afetivas pode ser induzida
a apropriar-
se dos deveres que lhe cabem.
Tais são tambem as intenções do vosso pri
mado da inteligencia.“Assim, continuará o contraditor, não
vos admirareis, se pleiteio a conservação do
sistema de doutrina religiosa, como base da
educação e da vida coletiva humana. E’ um
problema pratico e não uma questão de va
lor de realidade. Pois que, no interesse da
nossa civilização, não podemos contar com
a influencia do individuo, enquanto este nãoS.
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esteja amadurecido para a civilização,
muitos, em geral, não chegam a amadurecer
– pois que somos obrigados a impor aos
adultos qualquer sistema de doutrinas que
atúem sobre eles como postulados isentos de
crítica, parece-me que o sistema religioso é o
mais apropriado para esse fim; e natural-
mente por causa, mesmo, da sua força de
consolação e de satisfação de desejos, em que
reconheceis “uma ilusão”. Em face das di-
ficuldades de conhecer algo da realidade e
tambem da dúvida, se se chegará acaso a co-
nhece-la, não devemos esquecer que tambem
as necessidades humanas são uma parte da
realidade e decerto uma parte grave, que
nos toca bem de perto.“Outra superioridade da doutrina reli-
giosa está, para mim, em uma das suas pro-
priedades, que achais particularmente cho-
cante. Concedeis uma compreensível purifi-
cação e sublimação, na qual se apagará a
maior parte daquilo que tenha os traços doS.
143
pensamento primitivo e infantil. O que resta
será um conteúdo de ideias que a ciencia não
mais contradiz nem pode contestar, tambem.
Essas transformações operadas pela doutrina
religiosa e a que chamais imperfeições e acor-
dos permitem evitar a separação entre a
massa ignorante e o pensador filósofo e con-
servam a comunhão entre uma e outro, o
que é tão importante para a segurança da
civilização. Não é, pois, de temer que o ho-
mem do povo venha a perceber que os ho-
mens das camadas superiores da sociedade já
não crêem em Deus. Assim, penso ter mos-
trado que o vosso esforço se reduz a substi-
tuir uma ilusão experimentada e afetivamen-
te valiosa, por uma outra, não ainda provada
e indiferente”.E eu responderei: Não deveis julgar-me
inacessível á vossa crítica. Bem sei quanto é
difícil evitar desilusões; talvez as proprias
esperanças que reconheço ter sejam de natu-
reza ilusória. Mas existe, em verdade, umaS.
144
diferença: as minhas ilusões — sem contar
que ninguém é punido, se não as partilhar-
não são incorrigíveis, como as religiosas e
não têm o carácter delirante. Se a experien-
cia — não a minha, mas a dos que vierem
depois e pensarem como eu — se a experien-
cia demonstrar que estávamos errados, re-
nunciaremos ás nossas esperanças. Tomai a
minha tentativa por aquilo que ela repre-
senta. Um psicólogo que não se ilude sobre
a dificuldade de orientar-se neste mundo, es-
força-se por julgar a evolução da humani-
dade segundo a experiencia colhida no estudo
uos processos psíquicos do individuo, au-
rante o seu desenvolvimento, de criança a
adulto. Daí o impôr-se-lhe a concepção de
que a religião é comparavel a uma neurose
infantil; e ele é bastante optimista para admi-
tir que a humanidade vencerá essa fase neu-
rótica, tal como sucede com varias crianças,
a respeito das neuroses análogas. Esses pon-
tos de vista da psicologia do individuo po-
S.
145
dem ser insuficientes; a transferencia desses
fenómenos para a especie humana, em geral,
poderá não ser justificavel; o optimismo po-
derá não ter fundamento; admito todas essas
incertezas. Mas ninguem pode furtar-se a
dizer o que pensa; e desculpamo-nos dizen-
do que ninguem dará a esses pensamentos
maior valor do que o que valem.Devo ainda deter-me em dous pontos.
Primeiro, a fraqueza da minha posição não
importa qualquer fortalecimento da dos
meus contraditores. Defendem eles uma
causa perdida. Podemos tanta vez acentuar
que a inteligencia humana seja sem força, em
comparação com a vida impulsiva e teremos
razão. Mas nessa fraqueza alguma cousa
existe de particular: a voz da inteligencia é
debil, mas não descança, enquanto não se
faz ouvir. Por fim, depois de inumeras e re-
petidas repulsas, ela se impõe. Esse é um dos
poucos pontos pelos quais devemos ser opti-
mistas, quanto ao futuro da humanidade;S.
146
mas em si, representa não pouca cousa; ainda
podemos fundar nisso as nossas esperanças.
O primado da inteligencia está ainda longe,
bem longe, mas não no infinito. E como,
presuntivamente, esse primado visará as mes-
mas finalidades cuja realização esperais do
vosso Deus (naturalmente em proporção hu-
mana e tanto quanto o permite a realidade
externa, a Anánkê), a saber, o amor dos
homens e a limitação do sofrimento – de
vemos dizer que o nosso antagonismo é ape-
nas provisório e nunca inconciliavel. Ane-
lamos todos pela mesma cousa, mas vós sois
intolerantes, pretenciosos e – por que não
dize-lo? – mais egoistas do que eu e os do
meu lado. Quereis que a ventura comece
imediatamente após a morte; exigís desta
o impossivel e não quereis atender aos dese-
jos do individuo. O nosso deus Lógos *
realizará, desses desejos, o que a Natureza
*O par de deuses Logos-Anánkê, do hollandez
MULTATULI.S.
147
permita além de nós, mas fa-lo-á a pouco
e pouco, em um futuro remoto e para novas
gerações. Não nos promete ele uma compen-
sação para nós outros, que tão rudemente
sofremos a vida. No caminho para esse alvo
distante, as vossas doutrinas religiosas hão
de tombar, ainda que as primeiras tentativas
sejam frustradas, ainda que se demonstrem
inconsistentes as primeiras imagens substi-
tutivas. Sabeis porque: ao fim de certo tem-
po, nada se pode opôr á razão e á experien-
cia; e o antagonismo da religião a ambas
elas é palpavel. As idéias religiosas mais cele-
bradas não podem escapar a esse destino, por
muito que busquem salvar, da consolação
da religião. Na verdade, quando vos cingís
ao conceito de um ser espiritual mais alto,
cujas propriedades são indeterminadas e
cujos designios são incognoscíveis, pondes
vos fóra do alcance das objeções científicas
e com isso vos abandona o interesse humano.
Em segundo logar: Observais a dife-
S.
148
rença entre a vossa atitude e a minha, em
face da ilusão. Tendes de defender com to-
das as vossas forças a vossa ilusão; se esta
fôr depreciada – e está realmente ameaçada
disso – o vosso mundo se desmoronará e
nada mais vos ha de restar que o desesperar
de tudo, da civilização e do futuro da huma-
nidade. Dessa escravidão estou, estamos livres
nós outros; desde que estamos prontos a
renunciar a boa parte dos nossos desejos in-
fantís, podemos tolerar que algumas das nos-
sas esperanças nos apareçam como ilusões.A educação liberta da pressão da dou-
trina religiosa não mudará talvez em muito
a essencia psicológica; o nosso deus Lógos
talvez não seja todo poderoso e apenas po-
derá cumprir uma parte do que os seus pre-
decessores prometeram. Se bem posso enten-
der, aceita-lo-emos com resignação. Não
perderemos o interesse do mundo e da vida,
pois que temos em algo um arrimo que vos
falta: cremos que é possível ao trabalho cien-
S.
149
tífico conhecer alguma cousa sobre a reali-
dade do mundo, com o que o nosso poder
se pode elevar e por onde poderemos dirigir
a nossa vida. Se essa crença é uma ilusão,
então estaremos na mesma situação que vós;
mas a ciencia, por inumeras e significativas
consequencias, nos deu a convicção de não
ser uma ilusão. Ela tem muitos inimigos de-
clarados e ainda muitos mais encapotados,
que não querem reconhecer que ela enfra-
queceu a fé religiosa e ameaça destrui-la. Lan-
çam-lhe em rosto quão pouco ela nos tem
ensinado e quanto incomparavelmente mais
ainda permanece em obscuridade. Mas com
isso, esquecem quão nova é ainda ela, quão
difíceis lhe foram os começos e quão peque-
nino o espaço de tempo, desde que a inteli-
gencia humana despertou para o trabalho
científico. Não estaremos todos errados, em
querer basear o nosso juizo sobre tão curto
espaço de tempo? Poderiamos tomar um
exemplo aos geólogos. Queixamo-nos da in-
S.
150
certeza da ciência; de que esta apresente hoje
como lei o que a geração seguinte demons-
trará como erro, substituindo-o por outra
lei cujo valor tem a mesma curta duração.
Mas isso é injusto e em parte falso. As mu-
danças da opinião científica são progressos;
progressos e não derrocadas. Uma lei cien-
tífica que se reconheceu absolutamente va-
liosa apresenta-se como caso especial de uma
regra mais abrangiva ou vem a ser limitada
no seu alcance por outra lei que se vem a
descobrir mais tarde. Uma aproximação
tôsca da verdade vem a ser substituida por
outra mais cuidadosamente adequada, que
por sua vez aguarda um aperfeiçoamento
ulterior. Em diversos terrenos, ainda não se
transpoz uma fase da pesquisa em que se
tentam hipoteses que logo têm de ser aban-
donadas, por inviáveis; em outras, porém,
já se atinge a um núcleo certo e quasi imu-
davel, de conhecimento. Por fim, tem-se ten-
tado desvalorizar radicalmente os esforçosS.
151
científicos por isso que, ligados ás condi-
ções do nosso próprio organismo, não nos
podem eles dar mais do que conceitos sub-
jetivos, enquanto a verdadeira natureza das
cousas permanece inacessível, fóra de nós.
Com isso, rejeitam fatores que são decisivos
para a concepção do trabalho científico, isto
é, que o nosso organismo, o nosso apare-
lho psíquico se tem mesmo desenvolvido nos
esforços pelo conhecimento do mundo ex-
terior; que assim, tem realizado na sua es-
trutura uma parte de utilidade; que é, ele
próprio, uma porção desse mesmo mundo
sobre que deve pesquisar e que permite mui-
to bem tais pesquisas; que o dever da cien-
cia fica bem circunscrito, quando o limita-
mos ao mostrar como nos deve aparecer o
mundo, em relação ás propriedades da nossa
organização; que os resultados finais da
ciência, exatamente pela natureza das suas
aquisições, não estão condicionados apenas
pelo nosso organismo, mas também porS.
152
aquilo que agiu sobre o nosso organismo; e,
por fim, que o problema de uma condição
do mundo, sem a referencia ao nosso apa-
relho psíquico de percepção, é uma abstra-
ção vazia, sem interesse prático.Não. A nossa Ciencia não é ilusão
alguma. Ilusão seria, porém, crer que pudes-
semos obter em outra qualquer fonte aquilo
que a Ciencia não nos pode dar.
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O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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