O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    Reconhecendo nós que as doutrinas re-
    ligiosas são ilusões, levanta-
    mente esta outra questão, a saber, se tam-
    bem o nosso patrimonio cultural, que tanto
    exaltamos e pelo qual deixamos que seja
    dominada a nossa vida, não será de natu-
    reza semelhante; se os postulados que regu-
    lam as nossas instituições de Estado não de-
    vem ser tambem tidos como ilusões; se as
    relações dos sexos, em a nossa civilização,
    não são perturbadas por uma ilusão erótica,
    ou por uma série delas. Uma vez desper-
    tada a nossa desconfiança, não nos atemori-

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    zará tampouco a pergunta – se a nossa
    convicção de poder apreender algo da reali-
    dade exterior pela aplicação da observação e
    do pensamento, no trabalho científico, terá
    acaso melhores bases. Nada nos deve impe-
    dir de aprovar a aplicação da observação ao
    nosso próprio ser e a utilização do pensa-
    mento para a sua própria crítica. Abre-
    se aqui lugar para uma série de indagações, cujo
    êxito devêra ser decisivo para a construção de
    um “conceito do Universo” (Weltanschau-
    ung). Estimamos tambem que tal esforço
    não seja malbaratado e que, pelo menos,
    possa justificar a nossa suspeita. Mas a ca-
    pacidade do autor recusa-se a um trabalho
    tão vasto e ele se sente obrigado a restringir
    a sua tarefa á perquirição de uma, apenas,
    dessas ilusões, exatamente a religiosa.

    A alta voz do nosso contendor para,
    nesse ponto. Vamos ser chamado a contas
    pelo nosso ato proibido. Diz-nos ele:

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    “São decerto dignos de louvor os in-
    teresses arqueológicos; mas ninguem em
    preende uma excavação, se esta importa o
    soterramento das moradas dos vivos, pois
    que estas se desmoronariam, sepultando os
    homens sob as ruinas. As doutrinas religio-
    sas não são terreno sobre o qual possamos
    esculdrinhar, como sobre outro qualquer. A
    nossa civilização está construida sobre esse
    terreno; a conservação da sociedade humana
    tem por pressuposto que os homens, na sua
    grande maioria, tenham fé na verdade des-
    sas doutrinas. Se aprendermos que não
    existe um Deus todo poderoso e todo jus-
    ticeiro, que não ha ordem divina no mundo
    e não ha vida futura, então nos sentiremos
    desobrigados de todo o dever de obediencia
    ás normas civilizadas. Cada um, irrefreado,
    sem temor, buscará seguir os seus impulsos,
    pôr em jogo a sua força; recomeçará o Cáos
    que tinhamos abolido em muitos milenios
    do trabalho da civilização. Ainda quando

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    soubessemos e pudessemos provar que a reli-
    gião não esteja de posse da verdade, devía-
    mos calar-nos e portar-nos tal como exige
    a filosofia do Als ob. No interesse da con-
    servação de todos ! E ainda que queiramos
    abstrair o perigo dessa empresa, é ela tam-
    bem uma crueldade sem finalidade. Inúme-
    ros indivíduos encontram na doutrina reli-
    giosa a sua unica consolação e só com esse
    auxilio podem suportar a vida. Tirar-lhes-
    iamos esse arrimo e não teriamos outra cousa
    melhor, para dar-lhes, em troca. Tem-se
    sustentado que naquele tempo a ciencia não
    realizara grande cousa; mas, ainda quando
    ela houvesse progredido muito mais, não
    seria bastante para a humanidade. O homem
    tem ainda outras necessidades imperiosas,
    que não podem ser satisfeitas pela ciencia
    fria; e é muito singular, é mesmo o cúmulo
    da inconsequencia, que um psicólogo que
    sempre acentuou o quanto, na vida humana,
    a inteligencia cede o passo aos impulsos, que

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    esse mesmo psicólogo venha agora esforçar-
    se para roubar ao homem uma preciosa sa-
    tisfação de desejos e queira compensa-
    la com
    valores intelectuais”.

    São muitas acusações, de uma vez !
    Mas eu estou preparado para contradita-
    las
    e ademais sustentarei ainda que significará
    maior perigo para a nossa civilização o con-
    servar as suas atuais relações com a religião,
    do que seria o perde-las. Agora, mal sei como
    começar a sustentação da minha tese.

    Talvez, com a asserção de que, por
    mim, considero a minha empresa inteira-
    mente inócua e não perigosa. Não sou eu,
    desta vez, quem dá a primazia á inteligen-
    cia. Se os homens são tais como os descre-
    vem os meus adversários – e não posso
    contesta-lo – não ha perigo de que um
    crente piedoso, vencido pelos meus argu-
    mentos, venha a perder a sua fé. Além disso,
    eu nada disse que já não houvesse sido sus-
    tentado, antes de mim, por outros homens,

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    melhores, mais integros, mais fortes e mais
    expressivos. Os nomes desses homens são
    conhecidos; não os citarei; nem quero des-
    pertar a aparencia de que eu queira incluir-
    me na sua série. O que apenas fiz – é a
    unica cousa nova, na minha exposição –
    foi ajuntar alguma base psicológica á crí-
    tica dos meus grandes predecessores. Que
    esse acrécimo possa vir a ter o efeito que
    não ganharam as afirmações anteriores –
    é pouco de esperar. De certo me poderiam
    perguntar para que, então, escrever tais cou-
    sas, quando se está convencido de que não
    produzirão efeito. Mas sobre isso voltare-
    mos mais tarde.

    O unico a quem estas divulgações po-
    derão fazr mal sou eu mesmo. Terei de
    ouvir as objurgatorias menos amaveis contra
    a superficialidade, a estreiteza, a falta de
    idealismo e de entendimento quanto aos
    mais altos interesses da humanidade. Mas,
    por um lado, essas admoestações não são

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    novas para mim e por outro lado, a quem,
    desde a mocidade se expoz ao desagrado dos
    contemporaneos, que lhe pode advir na ve-
    lhice, quando está certo, de que em breve
    tempo terá e escapar aos favores e aos des-
    favores do mundo? Nos tempos antigos, era
    differente; pois com essas manifestações
    tinha-se a certeza de encurtar a propria vida
    terrena e apressar a oportunidade de fazer
    experiencias sobre a vida do além. Mas, repi-
    tamos, esses tempos passaram e hoje esses
    escrevinhados nem para o autor representam
    perigo; principalmente porque o seu livro,
    em um ou outro paiz, não será traduzido
    nem divulgado e naturalmente isso se dará
    exatamente em um paiz que sente o alto
    grau da sua propria cultura. Mas tambem.
    quem pleiteia principalmente a renuncia dos
    desejos e a submissão ao destino, deve saber
    suportar esses danos.

    Ocorre-me então perguntar se a divul-
    gação deste trabalho não poderá, no entan-

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    to, causar mal a alguem; decerto pode
    causá-lo, não a alguma pessoa, mas a um
    objeto – o objeto da Psicanálise. Não se
    pode negar que a Psicanálise é criação minha
    e que ela tem sido alvo de desconfiança e
    malquerença copiosas; se agora dou curso a
    tão pouco estimaveis manifestações, dou
    bastante aso ao deslocamento de afetos, da
    minha pessoa para a Psicanálise. Agora,
    começa-se a ver – dir-se-á – até onde leva
    a Psicanálise; a máscara caiu; é a negação
    de Deus e do ideal moral, tal como sempre
    o havíamos suspeitado. Para impedir que o
    descobríssemos, tinham-nos mistificado: a
    Psicanálise não inclue nenhum conceito do
    universo nem pode construir cousa alguma
    nesse terreno.
    Esse clamor ser-me-á decerto desagra-
    davel, por causa de muitos dos meus cola-
    boradores, varios dos quais não partilham
    a minha situação em face do problema reli-
    gioso. Mas a Psicanálise já tem atravessado

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    O FUTURO DE UMA ILUSÃO


    muitos temporais; não ha por que furtá-
    a mais este. Em verdade, é a Psicanálise um
    método de pesquiza, um instrumento impar-
    cial, algo como o cálculo infinitesimal. Se
    um físico, com o auxílio deste, pudesse che-
    gar á conclusão de que a terra, em determi-
    nada época, havia de ser destruída, poderia
    alguem pensar em atribuir ao cálculo ten-
    dencias destruidoras e em desprezá-lo, por
    esse motivo. Tudo quanto aqui tenho dito
    quanto ao valor de verdade das religiões não
    pertence á Psicanálise: já antes dela fôra dito
    por outros. Se da aplicação dos metodos
    psicanalíticos se pode tirar novos argumen-
    tos contra o conteúdo de verdade da religião,
    tant pis para a religião; mas os defensores
    da religião, podem, com o mesmo direito,
    servir-se da Psicanálise, para encarecer a
    significação afetiva dos ensinamentos reli-
    giosos.

    Agora, continuando a defesa: a reli-
    gião tem realmente prestado grandes serviços

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    á civilização humana; tem contribuido
    muito para refrear os impulsos associas –
    mas não o bastante. Durante muitos milé-
    nios, tem dominado a sociedade humana: já
    teve tempo suficiente para mostrar de que
    é capaz. Se lhe fôsse dado tornar feliz a
    maioria dos homens, consola-la, conforma-
    la com a vida, transforma-la em portadora
    da cultura, então não ocorreria a ninguem
    esforçar-se pela modificação das relações
    vigentes. Que vemos, em logar disso? Que
    um numero horrivelmente grande de indi-
    viduos se mostram insatisfeitos com a civili-
    zação e infelizes dentro dela; que a recebem
    como um jugo que é preciso arremessar dos
    ombros; que esses individuos, ou aplicam
    todas as forças para uma transformação da
    civilização ou vão tão longe na sua hosti-
    lidade ás normas culturais, que nada querem
    saber, nem delas, nem principalmente das
    restrições que elas impõem aos impulsos.
    Objetar-nos-ão que esse fato deriva de per-

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    der a religião parte de sua influencia sobre
    as massas humanas, exatamente pelo deplo-
    ravel efeito do progresso da ciencia. Toma-
    mos nota desse argumento e dos seus fun-
    damentos e deles nos serviremos mais tarde
    para nosso proveito; mas a objeção, em si,
    é frágil.

    E' duvidoso se, no tempo do domínio
    irrestrito das doutrinas religiosas, eram os
    homens, em geral, mais felizes; de certo não
    eram mais morais. Sempre consideraram
    muito dispensaveis as normas religiosas e daí
    o frustrarem os objetivos destas. Os sacerdo-
    tes, a quem incumbia velar pela obediencia
    á religião vieram-lhes de encontro. A bon-
    dade de Deus devia vir em auxilio da sua
    justiça. Pecava-se e então levava-se oferen-
    das ou fazia-se penitencia e assim se estava
    livre para pecar de novo. A natureza inte-
    riorizada dos Russos chegou á conclusão de
    que os pecados são indispensaveis para se
    poder gozar de todas as bem-aventuranças da

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    graça divina e assim era o pecado, no fundo.
    uma obra agradavel a Deus. E' notorio que
    os sacerdotes só podiam manter a sujeição
    das massas á religião, fazendo tão grandes
    concessões á natureza impulsiva dos ho-
    mens. Daí a conclusão: Só Deus é forte
    e bom; o homem, porém, é fraco e pecador.
    Em todos os tempos, a imoralidade encon-
    trou na religião apoios não menores do que
    a moralidade. Se não são melhores as capa-
    cidades da religião para a felicidade dos
    homens, a sua faculdade de civilização e a
    sua restrição moral, ocorre-nos perguntar se
    não exageramos a necessidade da religião
    para a humanidade e se obramos com pru-
    dencia, baseando sobre ela os anelos da nos-
    sa cultura.

    Consideremos a inegavel situação do
    tempo presente. Ouvimos o argumento de
    que a religião já não tem sobre os homens
    a mesma influencia que dantes (trata-se da
    civilização cristã-européa); mas não por-
     

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    que as promessas da religião sejam menores
    e sim porque, os homens parecem menos
    crédulos. Admitamos que o motivo dessa
    mudança está no fortalecimento do espírito
    científico nas camadas superiores da socie-
    dade humana; (talvez não seja o único
    motivo). A crítica corroeu o valor de prova
    dos documentos religiosos; as ciências natu-
    rais demonstraram-lhes os erros do contexto;
    á pesquisa comparada revelou-se a fatal
    semelhança das representações religiosas que
    veneramos, com as produções espirituais dos
    povos e épocas primitivos.

    O espírito científico cria uma maneira
    determinada de encarar as cousas deste mun-
    do; diante dos fatos da religião êle se detém
    por um pouco, hesita e por fim transpõe o
    limiar. Nesse processo, não ha demora;
    quanto maior o número de indivíduos a
    quem se tornam accessíveis os tesouros do
    nosso conhecimento, tanto mais se espalha
    o desmoronamento da fé religiosa, a princi-
     

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    pio quanto ás exterioridades sediças e cho-
    cantes, depois tambem quanto aos dogmas
    fundamentais. Os Americanos, que levaram
    a cabo o processo dos macacos, em Dayton,
    mostraram-se apenas consequentes. A inevi-
    tavel tranzição se passa, ademais, através de
    imperfeições e vacilações.

    Dos homens cultos e dos trabalhadores
    do espirito pouco deve temer a civilização.
    A substituição dos motivos religiosos, para
    o comportamento civilizado, por outros mo-
    tivos mundanos passou-se neles sem rumor
    e em grande parte são eles mesmos fatores
    de civilização. Outrotanto não se passa com
    a grande multidão dos iletrados e oprimidos
    que têm todo o fundamento para serem ini-
    migos da civilização. Enquanto estes não
    percebem que já não se crê em Deus, tudo
    vai bem. Mas eles o percebem, infalivel-
    mente, ainda que este meu trabalho não seja
    publicado. E êles estão prontos a aceitar os
    resultados do pensamento cientifico, sem-

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    que hajam sofrido a transformação que o
    pensamento científico determina nos indi-
    víduos. O perigo não estará em que a hosti-
    lidade que essas massas opõem á civilização
    se venha apoiar nos pontos fracos que ha-
    jam reconhecido na sua coagente domina-
    dora? Se só não matamos o próximo porque
    o Deus amado o proibiu e o crime será ex-
    piado severamente nesta ou em outra vida,
    mas se se vem a saber que não ha Deus
    amado nenhum e que não ha que temer pelo
    castigo – então decerto matamos sem hesi-
    tação o próximo e só nos poderemos deter
    ante o poder terreno dos homens. Então,
    só nos resta ou a repressão mais severa des-
    sas perigosas massas, a mais cuidadosa inter-
    dição de todas as oportunidades do desper-
    tar do espírito, ou ainda a revisão funda-
    mentada das relações entre a civilização e a
    religião.