S.
S.
S.
Poder-se-ia dizer que a realização desta
ultima hipótese não apresenta dificuldade
especial. E’ justo que renunciemos a alguma
cousa; mas ganha-se talvez mais e evita-se
um grande perigo. Mas ha quem tenha
medo disso, como se dessa forma ficasse
exposta a civilização a um perigo ainda
maior. Quando São Bonifacio derríbou a
árvore venerada pelos Saxões como sagrada,
esperaram os circunstantes um acontecimen-
to terrivel, como consequencia do crime.
Nada aconteceu e os Saxões receberam o
batismo.S.
110
Quando a civilização estabeleceu o
mandamento de não matar o próximo a
quem odiamos, a quem encontramos no nos-
so caminho ou cujos haveres cobiçamos,
isso se dá, claramente, no interesse da vida
humana coletiva, que sem isso fôra irreali-
zavel; pois o homicida atrairia sobre si a
vingança dos parentes da sua vítima e des-
pertaria a inveja dos outros que demonstram
igualmente tendencias intimas para a mesma
violencia. Assim, não gozaria ele por muito
tempo as vantagens do seu roubo ou da sua
vingança, antes estaria na iminencia de vir
tambem a ser trucidado. Ainda que, por
extraordinaria força e precaução se pudesse
proteger contra o adversario individual, ha-
via contudo de sucumbir ante a união dos
mais fracos; e se tal união não houvesse, o
homicidio se reproduziria sem fim e o resul-
tado seria que os homens se destruiriam mu-
tuamente. Seria, entre os individuos, o
mesmo que ainda hoje continua a acontecerS.
111
na Córsega, entre famílias e por toda a parte.
entre nações. O perigo da insegurança da
vida, igual para todos, dispõe então o ho-
mem para uma comunidade que proíba
matar o próximo e conserve para si mesma
o direito da matança; em geral, violando a
proibição. A isso se chama Justiça e Pena.Essa fundamentação racional da proi-
bição de matar não é, porém, a geralmente
admitida; sustenta-se, antes, que Deus deter-
minou a proibição; atrevemo-nos a indagar
dos seus desígnios e achamos que êle tam-
bem não quer que os homens se destruam
uns aos outros. Assim procedendo, vestimos
a proibição cultural com uma solenidade
muito especial e com isso nos arriscamos a
tornar dependente da fé em Deus a obe-
diência á proibição. Recuando desse passo,
desde que não mais deferimos nossa vontade
a Deus e nos satisfazemos com os funda-
mentos sociais, teremos decerto renunciado
a aquela explicação da proibição cultural,S.
112
mas teremos tambem evitado os prejuízos
dessa explicação. Ganhamos, porém, com
isso, mais alguma cousa: por uma especie
de difusão ou infecção, o carácter de santi-
dade, de invulnerabilidade, de “ultra-mun-
danidade” 1)– poder-se-ia dizer – se es-
tendeu, de algumas e poucas proibições para
todas as demais instituições, leis e organiza-
ções da civilização. Estas, porém, frequente-
mente suportam mal essa aparencia de san-
tidade; não só porque umas ás outras se
contrapõem, demonstrando, no espaço e no
tempo, diferenças extremas, mas tambem
porque possuem todos os sinais da insufi-
ciencia humana. E’ facil reconhecer-lhes o
que pode apenas ser produto de uma inquie-
tação imprevidente, ou manifestação de inte-
resse estreito ou ainda consequencia de pres-
supostos sem alcance. A crítica que se pode
fazer-lhes degrada involuntariamente o
1)Jenseitigkeit, no original. Nota do TRADUTOR.
S.
113
respeito de grande numero de outras normas
culturais melhor justificadas. Como seria
melindroso distinguir o que Deus mesmo
ordenou e o que deriva, antes da autoridade
de um parlamento todo poderoso ou de um
alto magistrado, seria de incontestavel van-
tagem deixar Deus fóra dessas cogitações,
e admitir honrosamente a pura origem hu-
mana de todas as normas e instituições
culturais. Com a quéda daquela santidade
alegada, cairiam tambem a rigidez e a imu-
tabilidade dos mandamentos e leis. Os ho-
mens poderiam compreender que estes foram
feitos, não sómente para o dominio sobre os
individuos, mas tambem e principalmente
para servir aos interesses destes; haveriam de
encarar com mais amor essas normas e ado-
tar como programa a melhora delas, em vez
da sua abolição. Seria isso um progresso
valioso no sentido de conciliar o homem com
à civilização que o oprime.S.
114
Temos de interromper agora, com uma
reflexão, o nosso pleito em favor de uma
fundamentação racional das normas cultu-
rais e pela sua dependencia das necessidades
sociais. Tínhamos escolhido como exemplo
a origem da proibição do homicídio. Cor-
responderia a nossa exposição á verdade
histórica? Tememos que não; que pareça
ser apenas uma construção racionalista. Já
estudámos exactamente esse problema da
historia da civilização, com o auxilio da
Psicanálise; e apoiado nesses nossos esforços,
devemos dizer que a verdade é outra. Os
puros motivos racionais pouco conseguem.
ainda hoje, contra os impulsos passionais; e
quão mais impotentes não haviam de ser
aqueles motivos, naquele animal humano
dos tempos prehistoricos! Talvez ainda hoje
se entrematassem, irrefreados, os homens, se
entre aqueles homicidios não tivesse havido
um, o homicídio do pai primitivo, que hou-
vesse evocado uma inevitavel reacção afetiva,S.
115
prenhe de consequências. Desta deriva o
mandamento “não matarás”, que, no tote-
mismo, se restringiu ao totem, substituto do
pai e mais tarde se estendeu a outras repre-
sentações; e ainda hoje, sem exceção, não
se extinguiu.Mas aquele pai prehistorico, segundo
argumentos que não me cabe aqui reprodu-
zir, foi o protótipo do deus, o modelo pelo
qual as gerações ulteriores formaram a ima-
gem divina. Assim, tem razão a tese reli-
giosa: Deus participara, na verdade, da
origem daquela proibição, instituida por sua
influencia e não pela verificação de uma
necessidade social. A transferencia da von-
tade humana a Deus é justificada; os ho-
mens sabiam que haviam eliminado violen-
tamente o pai; e a reação despertada pelo
crime determinou-lhes o respeitar daí por
diante a vontade paterna. A doutrina reli-
giosa nos communica assim a verdade his-
tórica, embora com certa deformação eS.
116
disfarce; a nossa exposição racional, porém,
nega essa verdade.Notamos agora que o acervo das re-
presentações religiosas encerra, não sómente
a satisfação de desejos, mas tambem remi-
niscencias históricas. Que incomparavel soma
de poder não confere á religião esse effeito
conjunto de passado e futuro! Mas talvez
caiba aqui, por analogia, ainda outro exa-
me. Não é bom deslocar conceitos do terreno
em que eles surgiram; mas devemos dar
margem ás conclusões análogas. Sabemos
que a criança só pode soffrer a sua evolução
para a civilização através de uma fase, ora
mais, ora menos patente, de neurose. Daí
resulta que a criança não póde reprimir as
suas tendencias, mas, antes, tem de refreá-
las por atos de recalcamento, por trás dos
quais, em regra, está um motivo de angús-
tia. A maior parte dessas neuroses infantís
é espontaneamente vencida durante o desen-
volvimento; as neuroses coactas da infancia,S.
117
especialmente, têm esse destino; o que resta
deve ser mais tarde abolido pelo tratamento
psicanalítico. De modo semelhante poder-
ia aceitar que a humanidade, como um todo,
no seu desenvolvimento secular, chegue a
condições analogas á neurose e decerto pelos
mesmos motivos que a criança; pois que, nas
épocas primitivas de ignorancia e fraqueza
intelectual, só por forças puramente afetivas
poderia operar a renúncia aos impulsos,
inevitavel na vida em comum. Os resíduos
dos processos anteriores análogos a recalca-
mentos ficaram por muito tempo, assim,
inerentes á civilização. A religião fôra a
neurose coacta geral, da humanidade; tal
como na criança, deriva ela do complexo de
Édipo, das relações com o pai. Segundo essa
concepção, seria de prevêr que o abandono
da religião devêra cumprir-se com a inexo-
rabilidade fatal de um processo de crescimen-
to e que nos encontramos agora, exatamente,
nessa fase da evolução.S.
118
A nossa conduta deve, então, nortear-
se pelo padrão de um educador consciente
que não contesta um novo fenómeno que se
lhe apresente, mas antes busca dirigi-lo e
obviar a violencia da sua irrupção. A es-
sencia da religião, entretanto, não fica di-
minuida, com essa analogia. Se, de um lado
ela traz restrições coagentes, como só se dá
na neurose coacta individual, por outro lado
encerra ela um sistema de ilusões desejadas,
com a negação da verdade, tal como só po-
demos encontrar em uma amentia, uma
confusão mental jovial, alucinatória. Isso
são apenas comparações, com as quais bus-
camos entender o fenómeno social; a pato-
logia individual não nos dá nenhum ele-
mento perfeito de cotejo, para isso.Já por várias vezes tem sido acentuado
(por mim e especialmente por Th. Reik)
em que pormenores podemos acompanhar a
analogia entre a religião e a neurose coacta
e quanto, por esse meio, se pode comprehen-S.
119
der, das singularidades e destinos das forma
ções religiosas. Com isso concorda o fato de
estar o crente piedoso protegido em alto
grau contra o perigo de certos sofrimentos
neuróticos: a aceitação da neurose geral
isenta-
o do dever de formar uma neurose
individual.O reconhecimento do valor histórico de
certas doutrinas religiosas exalta o nosso
respeito por elas, mas não tira o valor ao
nosso propósito de referi-
los aos motivos
das normas culturais. Pelo contrario! Com
o auxílio desses resíduos históricos, as con-
cepções das doutrinas religiosas aparecem-
nos como reliquats analogicamente neuróti-
cos; e então devemos dizer que é tempo,
provavelmente, de substituir as consequen-
cias do recalcamento pelos dados do traba-
lho espiritual racional, tal como o fazemos
no tratamento analítico das neuroses. Que
por esse trabalho de reforma e não pela re-
núncia á glorificação solene das normasS.
120
culturais, virá a dar-se uma revisão geral
dessas normas, que importará a abolição de
várias delas – tal será de prevêr, mas pouco
de lastimar. O dever que se nos depara, de
conciliar o homem com a civilização será
largamente cumprido, por esse meio. A
renúncia á verdade histórica, em favor dos
motivos racionais das normas culturais não
nos causará dano. As verdades contidas nas
doutrinas religiosas estão de tal maneira dis-
farçadas e desfiguradas, que a massa huma-
na já não pode reconhece-las como verdades.
Dá-se fato análogo, quando contamos ás
crianças que a cegonha traz os recem-nasci-
dos; assim dizendo, exprimimos a verdade
com um disfarce simbólico, pois que sabe-
mos o que significa a grande ave. Mas a
criança não o sabe; aprende apenas a parte
correspondente ao disfarce; julga-se engana-
da; e bem sabemos nós quão frequentemente
as suas desconfianças para com os adultos
e a sua atitude de contradição reconhecemS.
S.
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O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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