O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    Uma pesquisa que continuá, imper-
    turbada, como um monólogo, não é de todo
    sem perigos. Cede-
    se facilmente à tentação
    de pôr de lado idéias que houveram de inter-
    rompe-
    la e ganha-
    se, em troca, um senti-
    mento de insegurança que ressalta, por fim,
    como desmedida indecisão. Figuro, por isso,
    estar diante de um contraditor que acompa-
    nhe com desconfiança os meus assertos e de
    espaço a espaço lhe cederei a palavra.
    Ouço-
    o dizer: “Usastes repetidamente
    da expressão: a civilização crêa essas repre-
    sentações religiosas; a civilização põe-
    nas á

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    disposição dos seus componentes; e parece
    me algo estranho; não sei mesmo porque,
    mas não me parece tão facilmente compreen-
    sível, de que maneira a civilização criou dis-
    posições sobre a repartição no encargo do
    trabalho ou sobre o direito á mulher e ao
    filho”.

    Penso, porém, que é justificavel a ex-
    pressão. Busquei demonstrar que as repre-
    sentações religiosas derivam da mesma neces-
    sidade que todas as outras conquistas da
    civilização: da necessidade de defender-se do
    premente superpoder da Natureza. A isso
    se acrece um segundo motivo, a premencia
    de corrigir as imperfeições, penosamente
    descobertas, da civilização. E’ perfeitamente
    justo dizer que a civilização entrega aos in-
    dividuos essas representações, pois que ele já
    as encontra; elas lhe vêm ao encontro, já
    prontas e ele não estaria em condições de
    acha-las sózinho. E’ a herança de varias
    gerações, em cuja posse ele entra e de que se

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    O FUTURO DE UMA ILUSÃO


    apodera, como da taboada, da geometria
    etc. Ha aqui, realmente, uma diferença, mas
    que se prende a outra questão que ainda não
    pode ser aqui esclarecida. Quanto ao senti-
    mento de estranheza a que aludirá o con-
    traditor, pode ele derivar de que as represen-
    tações religiosas costumam ser-nos apresen-
    tadas como revelações divinas. Apenas, isso
    é já uma parte do sistema religioso, o despre-
    zar completamente a conhecida historia da
    evolução dessas idéas e as suas variedades
    nas diversas épocas e civilizações.

    “Outro ponto que me parece impor-
    tante, diz o contraditor. Fazeis derivar a
    humanização da natureza, da necessidade de
    abolir a perplexidade e o desamparo huma-
    nos, ante as forças que o homem teme, assim
    como da necessidade de pô-lo em relações com
    estas e de habilitá-lo a influir, finalmente,
    sobre elas. Mas esse motivo parece supérfluo.
    O homem primitivo não tem capacidade de
    escolha do pensamento e não conhece outras

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    vias para este. É-lhe natural, é-lhe como que
    inato o projetar o seu próprio ser sobre o
    mundo, o encarar todos os fatos que obser-
    va, como manifestações de seres que, no
    fundo, são semelhantes a êle mesmo. Esse é
    o unico método ao seu alcance. E não é,
    absolutamente, cousa óbvia, antes é notavel
    coincidencia que lhe seja possivel libertar-
    se de uma das suas maiores necessidades, pelo
    simples abandono á sua situação natural”.

    Não acho isso tão óbvio. Dizeis então
    que o pensamento humano não reconhece
    motivo prático algum e que é apenas a ex-
    pressão de uma curiosidade desinteressada?
    E' muito pouco de crer. Antes penso que o
    homem, ainda mesmo quando personifica as
    forças naturais, segue um protótipo infantil.
    Ele aprendeu, no contacto com as pessoas
    do seu meio que, quando entra em relações
    com estas, nisso encontra o caminho para
    influir sobre elas; e assim age, mais tarde.
    no mesmo intuito, para com tudo quanto

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    encontra, como o fizera a aquelas pessoas.
    Não contesto, assim, o vosso comentário
    descritivo; é realmente natural que o homem
    personalize tudo aquilo em cujo contacto
    entre e com o fim de exercer o domínio-
    apodera-se psíquicamente, como preparo
    para fazê-lo fisicamente –; mas atribuo ao
    mesmo fato o motivo e a gênese dessa pro-
    priedade do pensamento humano.

    “E agora, ainda um terceiro argumen-
    to, dirá o contraditor: tratastes já anterior-
    mente da origem da religião, no vosso livro
    “Totem e Tabú”. Mas ali as cousas são
    encaradas diversamente. Tudo é a relação
    entre pai e filho; o deus é a exaltação do pai
    e a saudade do pai é a fonte da necessidade
    religiosa. Por aí, parece que descobristes o
    fator da impotencia e do desamparo huma-
    nos, a que atribuís em geral o maior papel
    na formação da religião; e agora atribuís
    tudo ao desamparo, o que antes era o com-

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    plexo paterno. Posso indagar da origem des-
    sa mudança?”

    Com prazer: estava só á espera dessa
    objeção. Ainda que seja, realmente, uma
    mudança. No “Totem e Tabú” não se tra-
    tou de explicar a origem da religião, mas
    apenas a do totemismo. Podereis, partindo
    de qualquer dos pontos de vista vossos co-
    nhecidos, tornar inteligível o fato de ter sido
    a de um animal a primeira forma por que
    se revelou ao homem a divindade protetora?
    E mais o fato de haver uma proibição de
    matar esse animal e devorá-lo e mais o cos-
    tume solene de, ao mesmo tempo, matá-lo
    e devorá-lo, uma vez por ano? E’ o que se
    encontra, exatamente, no totemismo. E é
    quase sem interesse prático discutir se se pode
    chamar religião ao totemismo. Este tem re-
    lações íntimas com as ulteriores religiões; os
    animaes-totems tornam-se mais tarde os
    animais sagrados dos deuses. E as primeiras
    restrições morais — as de alcance mais pro-

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    fundo, ademais – isto é, as proibições do
    homicídio e do incesto, originam-
    se da base
    do totemismo. Quer aceiteis, quer não, as
    consequências do “Totem e Tabú”, espero
    havereis de conceder que, naquele livro, uma
    porção de fatos muito notaveis, porém dis-
    persos, está condensada em um todo consis-
    tente.

    Quanto á razão por que o deus ani-
    mal, com o decorrer do tempo, não satisfez
    e foi substituido por um deus humano, é
    questão que mal foi abordada no “Totem e
    Tabú” onde, em geral, não se alude a outros
    problemas da formação das religiões. Con-
    siderareis essas limitações identicas a uma
    negação? O meu trabalho é um bom exem-
    plo do estrito isolamento do contingente que
    a observação psicanalítica pode utilizar,
    para a solução do problema religioso. Se
    agora busco acrescentar-lhe o outro contin-
    gente pouco profundamente oculto, não
    deveis acusar-me de contradição, como antes

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    me teriam acusado de unilateralidade. E’
    naturalmente meu dever mostrar a conexão
    entre o que disse anteriormente e o que ex-
    pendo agora, entre os motivos profundos e
    os motivos manifestos, entre o complexo
    paterno e o desamparo e necessidade de pro-
    teção do homem.

    Essas conexões não são difíceis de des-
    cobrir. São as relações do desamparo da
    criança com o desamparo do adulto, conti-
    nuação da situação infantil; de modo que,
    como é de esperar, para a psicanálise, os mo-
    tivos da formação religiosa são as contri-
    buições infantis para os motivos manifestos
    dessa formação. Transportemo-nos á vida
    psíquica da criança pequena. Lembrais-vos
    da escolha do objeto segundo o tipo-arrimo,
    de que fala a psicanálise? A libido segue o
    caminho da necessidade narcísica e aplica-
    se ao objeto que lhe pode permitir a exteriori-
    zação de impulsos. Assim, a mãe, que satis-
    faz a fome, se torna o primeiro objeto de

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    amor e assim tambem constitue a primeira
    proteção contra todos os perigos indetermi-
    nados com que o ambiente ameaça – a
    primeira proteção contra a angústia, devia-
    mos dizer.

    Nessa função, a mãe é, em breve, sub-
    stituida pelo pai mais forte, que a exerce
    então por todo o resto da infancia. As rela-
    ções com o pai são, porem, cercadas de uma
    ambivalencia especial. O pai era um perigo,
    talvez mesmo desde as primitivas relações
    para com a mãe. Assim é ele não menos
    temido do que desejado e admirado. Os tra-
    ços dessa ambivalencia das relações com o
    pai são profundamente inerentes a todas as
    religiões, conforme se disse no “Totem e
    Tabú”. Quando, porem, o adulto nota que
    terá que ficar sempre criança, isto é, que não
    pode dispensar a proteção ante o poder su-
    perior estranho, confere a este os traços da
    imagem paterna: crêa os deuses, a quem
    teme, a quem busca conquistar e a quem

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    transfere o dom de protege-
    lo. Assim, o mo
    tivo relativo á saudade do pai é idêntico ao
    da necessidade de proteção contra as conse-
    quencias da impotencia humana; a defesa do
    desamparo infantil dá os seus traços cara-
    cteristicos á reação ante o desamparo, que o
    adulto tambem conhece e os dá tambem,
    assim, á formação da religião. Mas não é
    nosso intento prosseguir na pesquisa da evo-
    lução da idéa de deus; aqui temos que exa
    minar o repositorio já feito, de representa-
    ções religiosas, tais como a civilização as
    apresenta ao individuo.