S.
S.
S.
Uma pesquisa que continuá, imper-
turbada, como um monólogo, não é de todo
sem perigos. Cede-
se facilmente à tentação
de pôr de lado idéias que houveram de inter-
rompe-
la e ganha-
se, em troca, um senti-
mento de insegurança que ressalta, por fim,
como desmedida indecisão. Figuro, por isso,
estar diante de um contraditor que acompa-
nhe com desconfiança os meus assertos e de
espaço a espaço lhe cederei a palavra.
Ouço-
o dizer: “Usastes repetidamente
da expressão: a civilização crêa essas repre-
sentações religiosas; a civilização põe-
nas áS.
54
disposição dos seus componentes; e parece
me algo estranho; não sei mesmo porque,
mas não me parece tão facilmente compreen-
sível, de que maneira a civilização criou dis-
posições sobre a repartição no encargo do
trabalho ou sobre o direito á mulher e ao
filho”.Penso, porém, que é justificavel a ex-
pressão. Busquei demonstrar que as repre-
sentações religiosas derivam da mesma neces-
sidade que todas as outras conquistas da
civilização: da necessidade de defender-se do
premente superpoder da Natureza. A isso
se acrece um segundo motivo, a premencia
de corrigir as imperfeições, penosamente
descobertas, da civilização. E’ perfeitamente
justo dizer que a civilização entrega aos in-
dividuos essas representações, pois que ele já
as encontra; elas lhe vêm ao encontro, já
prontas e ele não estaria em condições de
acha-las sózinho. E’ a herança de varias
gerações, em cuja posse ele entra e de que seS.
55
O FUTURO DE UMA ILUSÃO
apodera, como da taboada, da geometria
etc. Ha aqui, realmente, uma diferença, mas
que se prende a outra questão que ainda não
pode ser aqui esclarecida. Quanto ao senti-
mento de estranheza a que aludirá o con-
traditor, pode ele derivar de que as represen-
tações religiosas costumam ser-nos apresen-
tadas como revelações divinas. Apenas, isso
é já uma parte do sistema religioso, o despre-
zar completamente a conhecida historia da
evolução dessas idéas e as suas variedades
nas diversas épocas e civilizações.“Outro ponto que me parece impor-
tante, diz o contraditor. Fazeis derivar a
humanização da natureza, da necessidade de
abolir a perplexidade e o desamparo huma-
nos, ante as forças que o homem teme, assim
como da necessidade de pô-lo em relações com
estas e de habilitá-lo a influir, finalmente,
sobre elas. Mas esse motivo parece supérfluo.
O homem primitivo não tem capacidade de
escolha do pensamento e não conhece outrasS.
56
vias para este. É-lhe natural, é-lhe como que
inato o projetar o seu próprio ser sobre o
mundo, o encarar todos os fatos que obser-
va, como manifestações de seres que, no
fundo, são semelhantes a êle mesmo. Esse é
o unico método ao seu alcance. E não é,
absolutamente, cousa óbvia, antes é notavel
coincidencia que lhe seja possivel libertar-
se de uma das suas maiores necessidades, pelo
simples abandono á sua situação natural”.Não acho isso tão óbvio. Dizeis então
que o pensamento humano não reconhece
motivo prático algum e que é apenas a ex-
pressão de uma curiosidade desinteressada?
E' muito pouco de crer. Antes penso que o
homem, ainda mesmo quando personifica as
forças naturais, segue um protótipo infantil.
Ele aprendeu, no contacto com as pessoas
do seu meio que, quando entra em relações
com estas, nisso encontra o caminho para
influir sobre elas; e assim age, mais tarde.
no mesmo intuito, para com tudo quantoS.
57
encontra, como o fizera a aquelas pessoas.
Não contesto, assim, o vosso comentário
descritivo; é realmente natural que o homem
personalize tudo aquilo em cujo contacto
entre e com o fim de exercer o domínio-
apodera-se psíquicamente, como preparo
para fazê-lo fisicamente –; mas atribuo ao
mesmo fato o motivo e a gênese dessa pro-
priedade do pensamento humano.“E agora, ainda um terceiro argumen-
to, dirá o contraditor: tratastes já anterior-
mente da origem da religião, no vosso livro
“Totem e Tabú”. Mas ali as cousas são
encaradas diversamente. Tudo é a relação
entre pai e filho; o deus é a exaltação do pai
e a saudade do pai é a fonte da necessidade
religiosa. Por aí, parece que descobristes o
fator da impotencia e do desamparo huma-
nos, a que atribuís em geral o maior papel
na formação da religião; e agora atribuís
tudo ao desamparo, o que antes era o com-S.
58
plexo paterno. Posso indagar da origem des-
sa mudança?”Com prazer: estava só á espera dessa
objeção. Ainda que seja, realmente, uma
mudança. No “Totem e Tabú” não se tra-
tou de explicar a origem da religião, mas
apenas a do totemismo. Podereis, partindo
de qualquer dos pontos de vista vossos co-
nhecidos, tornar inteligível o fato de ter sido
a de um animal a primeira forma por que
se revelou ao homem a divindade protetora?
E mais o fato de haver uma proibição de
matar esse animal e devorá-lo e mais o cos-
tume solene de, ao mesmo tempo, matá-lo
e devorá-lo, uma vez por ano? E’ o que se
encontra, exatamente, no totemismo. E é
quase sem interesse prático discutir se se pode
chamar religião ao totemismo. Este tem re-
lações íntimas com as ulteriores religiões; os
animaes-totems tornam-se mais tarde os
animais sagrados dos deuses. E as primeiras
restrições morais — as de alcance mais pro-S.
59
fundo, ademais – isto é, as proibições do
homicídio e do incesto, originam-
se da base
do totemismo. Quer aceiteis, quer não, as
consequências do “Totem e Tabú”, espero
havereis de conceder que, naquele livro, uma
porção de fatos muito notaveis, porém dis-
persos, está condensada em um todo consis-
tente.Quanto á razão por que o deus ani-
mal, com o decorrer do tempo, não satisfez
e foi substituido por um deus humano, é
questão que mal foi abordada no “Totem e
Tabú” onde, em geral, não se alude a outros
problemas da formação das religiões. Con-
siderareis essas limitações identicas a uma
negação? O meu trabalho é um bom exem-
plo do estrito isolamento do contingente que
a observação psicanalítica pode utilizar,
para a solução do problema religioso. Se
agora busco acrescentar-lhe o outro contin-
gente pouco profundamente oculto, não
deveis acusar-me de contradição, como antesS.
60
me teriam acusado de unilateralidade. E’
naturalmente meu dever mostrar a conexão
entre o que disse anteriormente e o que ex-
pendo agora, entre os motivos profundos e
os motivos manifestos, entre o complexo
paterno e o desamparo e necessidade de pro-
teção do homem.Essas conexões não são difíceis de des-
cobrir. São as relações do desamparo da
criança com o desamparo do adulto, conti-
nuação da situação infantil; de modo que,
como é de esperar, para a psicanálise, os mo-
tivos da formação religiosa são as contri-
buições infantis para os motivos manifestos
dessa formação. Transportemo-nos á vida
psíquica da criança pequena. Lembrais-vos
da escolha do objeto segundo o tipo-arrimo,
de que fala a psicanálise? A libido segue o
caminho da necessidade narcísica e aplica-
se ao objeto que lhe pode permitir a exteriori-
zação de impulsos. Assim, a mãe, que satis-
faz a fome, se torna o primeiro objeto deS.
61
amor e assim tambem constitue a primeira
proteção contra todos os perigos indetermi-
nados com que o ambiente ameaça – a
primeira proteção contra a angústia, devia-
mos dizer.Nessa função, a mãe é, em breve, sub-
stituida pelo pai mais forte, que a exerce
então por todo o resto da infancia. As rela-
ções com o pai são, porem, cercadas de uma
ambivalencia especial. O pai era um perigo,
talvez mesmo desde as primitivas relações
para com a mãe. Assim é ele não menos
temido do que desejado e admirado. Os tra-
ços dessa ambivalencia das relações com o
pai são profundamente inerentes a todas as
religiões, conforme se disse no “Totem e
Tabú”. Quando, porem, o adulto nota que
terá que ficar sempre criança, isto é, que não
pode dispensar a proteção ante o poder su-
perior estranho, confere a este os traços da
imagem paterna: crêa os deuses, a quem
teme, a quem busca conquistar e a quemS.
62
transfere o dom de protege-
lo. Assim, o mo
tivo relativo á saudade do pai é idêntico ao
da necessidade de proteção contra as conse-
quencias da impotencia humana; a defesa do
desamparo infantil dá os seus traços cara-
cteristicos á reação ante o desamparo, que o
adulto tambem conhece e os dá tambem,
assim, á formação da religião. Mas não é
nosso intento prosseguir na pesquisa da evo-
lução da idéa de deus; aqui temos que exa
minar o repositorio já feito, de representa-
ções religiosas, tais como a civilização as
apresenta ao individuo.
You are here
O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
1927-001/1934.pt/4