O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    III

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    Em que consiste o valor especial das
    representações religiosas?

    Já falámos da hostilidade á civiliza-
    ção, fenómeno derivado da pressão que esta
    exerce, da renuncia a impulsos, que ela exi-
    ge. Imagine alguem que houvessem sido
    suprimidas as suas proibições: havia de es-
    colher para seu objeto sexual qualquer mu-
    lher que lhe aprouvesse; mataria, sem hesi-
    tação, quem lhe fosse rival ante a mulher
    ou quem se lhe interpuzesse, de qualquer
    forma, no caminho; poderia tirar a outrem
    qualquer dos seus bens, sem lhe pedir per-

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    missão para tanto — que belo encadeamento
    de satisfações seria então a vida! Apenas
    encontraria logo a primeira dificuldade.
    Qualquer outro teria tambem os mesmos
    desejos que eu e não havia de tratar-
    me com mais reservas do que eu a êle. De fato, só
    um individuo pode ser irrestritamente feliz,
    por essa abolição das restrições culturais: um
    tirano, um ditador que tenha chamado a si
    todos os elementos de poder e que, por seu
    lado, tem todo o motivo para querer que
    os outros obedeçam, pelo menos, a este man-
    damento da civilização: não matarás.

    Mas quão ingrato e principalmente
    quão imprudente é o esforço pela abolição
    da civilização! O que resta, sem ela, é o
    estado de natureza, muito mais difícil de
    ser suportado. E’ certo que a natureza não
    exige de nós qualquer restrição dos impul-
    sos, antes no-los consente; mas tem ela tam-
    bem a sua maneira eficaz de restringir-nos
    e mata-nos, fria, cruel, implacavel, que tal

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    nos parece, exatamente pelos motivos mes
    mos das nossas satisfações. E é propriamente
    contra esses perigos com que nos ameaça a
    natureza, que nos congregámos e construí
    mos a civilização, que, entre outras cousas,
    nos torna possível a vida em comum. E’
    assim o mistér principal da civilização, a sua
    propria base essencial o defender-
    nos contra
    a natureza.

    E’ sabido que em muitos pontos,
    atualmente, já ela é razoavelmente bem su-
    cedida nesse mistér e de certo ainda muito
    melhor o será, de futuro. Mas ninguém se
    ilude, para crer que a natureza já esteja do-
    minada; poucos são os que ousam esperar
    que venha ela um dia a ser completamente
    submetida ao homem. Tais são os elemen-
    tos que parece escarnecerem de qualquer coa-
    ção humana – a terra, que treme e se fende,
    sepultando os homens e a sua obra, a agua,
    que em alvoroço tudo inunda e submerge.
    a tempestade que tudo varre com o sopro e

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    mais ainda as molestias que só recentemente
    sabemos reconhecer como agressões de ou-
    tros seres vivos e, finalmente, o doloroso
    enigma da morte, contra a qual, até hoje,
    ainda não se encontrou mézinha e é veros-
    simil que nunca possa ser encontrada. Com
    tais violencias se nos contrapõe a Natureza,
    grandiosa, cruel, inexoravel; remete-
    nos antes os olhos aquela nossa fragilidade e
    desamparo que julgavamos estar escapos,
    pelo trabalho da civilização. Uma das mais
    agradaveis e elevadas impressões que se pode
    ter da humanidade é a que se tem quando,
    diante de uma catástrofe primaria, ela esque-
    ce todas as confusões da sua civilização,
    todas as dificuldade e hostilidades internas e
    se lembra dos graves deveres da propria
    conservação, contra o poder superior da
    Natureza.

    Tal como para a humanidade, como
    um todo, assim tambem para o individuo
    a vida é dura de ser suportada. Uma parte

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    de privação de gozos lhe é imposta pela ci-
    vilização de que ele participa; uma porção
    de sofrimentos lhe é preparada pelos outros
    homens, quer a despeito das normas cultu-
    rais, quer em consequência da imperfeição
    da própria Cultura. A isso se ajunta o que
    de prejuízo lhe causa a natureza indomada
    — ao que ele chama destino. Um estado
    contínuo de angústia de espera e uma grave
    lesão do narcisismo natural deviam ser o
    resultado dessa condição. Como reage o in-
    divíduo contra as ofensas causadas pelos
    outros e pela civilização — já o sabemos:
    ele desenvolve uma soma proporcional de
    resistência contra as instituições culturais; é
    a hostilidade contra a civilização. Mas como
    pôr-
    se em guarda contra o poder superior
    da Natureza, do Destino, que o ameaça, tal
    como aos demais?

    A civilização exonera-o dessa tarefa,
    cuidando dela, a respeito de todos, de igual
    maneira; e é digno de nota que todas as ci-
     

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    vilizações façam o mesmo e tão pouco nesse
    terreno. Nem um instante se detém ela em
    cumprir esse dever de defender o homem, das
    agressões da natureza; apenas, prorroga esse
    dever, por outros meios. A tarefa é multi-
    pla: o sentimento individual de si próprio,
    gravemente ameaçado, exige consolação; os
    pavores devem ser subtraídos ao mundo e á
    vida; além disso, a curiosidade de saber, im-
    pelida evidentemente pelo mais forte inte-
    resse prático, deve ter uma resposta.

    Com o primeiro passo, já muito se
    tem conseguido; e esse é a humanização da
    natureza. Contra as forças impessoais e con-
    tra o destino, nada pode o homem; ficam-
    lhe eles eternamente estranhos. Mas se nos
    elementos tumultuam as paixões, tal como
    na alma individual, se a própria morte não
    é espontanea, mas representa a violencia de
    uma vontade malévola, se temos, em a na-
    tureza, por toda a parte, seres varios, em
    volta de nós, tais como os conhecemos em

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    a nossa própria comunidade, então podemos
    respirar: sentimo-
    nos naturalmente, em
    meio ao sobrenatural 1) e podemos elabo-
    rar psíquicamente a nossa angústia incom-
    preendida. Estaremos ainda indefesos, mas
    não mais paralisados, no desamparo; pode-
    mos, ao menos, reagir; talvez nem mesmo
    estejamos indefesos e possamos aplicar, con-
    tra esses violentos super-
    homens, os mesmos
    meios de que usamos em o nosso grupo: po-
    demos tentar exconjurá-
    los, aplacá-
    los, cor-
    rompê-
    los, roubando-
    lhes, por essas in-
    fluencias, uma parte do seu poder. Essa sub-
    stituição de uma ciência natural pela psico-
    logia, não só consegue imediato alívio, mas
    ainda mostra o caminho para um domínio
    ulterior da situação.

    Ademais, a situação não é nada nova:
    tem o seu protótipo infantil; é apenas, pro-


    1)...heimisch im Unheimlichen, no original: em
    casa, em meio ao sinistro. O trocadilho é intraduzível,
    como tal. Nota do Tradutor.

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    priamente, a continuação da primitiva, pois
    que já nos havíamos encontrado antes nesse
    mesmo desamparo, como criança pequena.
    ante o casal dos pais; e a estes, principal-
    mente ao pai, tínhamos razão para temer.
    embora certos da sua proteção contra os pe-
    rigos que então conhecíamos. Temos assim
    que comparar as duas situações, entre si. Tal
    como no trâmite do sonho, vem aqui á baila
    o desejo. Um anelo de morte ocorre ao dor-
    mente e o lançará no túmulo; mas o pro-
    cesso do sonho sabe selecionar as condições
    em que a idéa temida deva transformar-
    se em cumprimento da vontade: o sonhador
    vê-se dentro de um antigo túmulo etrusco.
    onde descerá, contente, para satisfazer os
    seus interesses de arqueólogo. De modo se-
    melhante, o homem, não faz das forças
    naturais simples seres humanos, com quem
    possa tratar de igual para igual, o que não
    corresponderia á impressão de poder supe-
    rior destas, mas dá-lhes, ainda, um caráter

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    O FUTURO DE UMA ILUSÃO


    paternal, transforma-as em deuses, segundo
    um protótipo, não apenas infantil, mas
    tambem filogenético, conforme tentei de-
    monstrar.

    Com o tempo, são feitas sobre os fenó-
    menos naturais as primeiras observações de
    submissão á regra e á lei e as forças da natu-
    reza perdem, assim os traços humanos. Mas
    persiste o desamparo do homem e com elle
    o anseio por um pai e pelos deuses. Os
    deuses conservam o seu trplice papel: o de
    eliminar os pavores da natureza, o de operar
    a conciliação com a crueldade do destino.
    principalmente na eventualidade da morte e
    o de compensar ao homem os seus sofrimen-
    tos e privações, que lhe advêm da vida co-
    letiva, na civilização.

    Mas, pouco a pouco se desloca o acen-
    to, nessas atividades. Começa-se a notar que
    os fenómenos naturais derivam uns dos
    outros, segundo necessidades internas; são
    os deuses, de certo, os senhores da natureza;

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    eles a formaram assim e podem então en-
    tregá-la a si mesma. Só ocasionalmente in-
    terferem eles no curso dos fenómenos, pelo
    chamado milagre, como que para assegurar
    que em nada renunciaram á sua originaria
    esfera de poder. Quanto á distribuição dos
    destinos, persiste a incómoda convicção de
    que nada pode vir em auxílio da perplexi-
    dade e do desamparo da espécie humana. A
    isso renunciam os proprios deuses; ainda
    quando forjem eles proprios o destino, deve-
    se considerar insondável a sua decisão; aos
    povos mais bem dotados da antiguidade de-
    tinha-os a concepção de que a Moira estava
    acima dos deuses e que estes mesmos tinham
    o seu destino. E quanto mais se torna autó-
    noma a natureza e os deuses recuam do seu
    domínio, tanto mais sériamente se lançam
    as esperanças sobre o terceiro papel cometido
    ás divindades e tanto mais a moral se torna
    a sua esfera. Então, o dever dos deuses passa
    a ser o compôr as carencias e os danos da

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    civilização, cuidar das maguas que os ho-
    mens infligem uns aos outros, na vida em
    comum, velar pelo cumprimento das nor-
    mas civilizadas, a que os individuos tão mal
    se submetem. A essas proprias normas cultu-
    rais é assinalada uma origem divina; elas
    estão elevadas acima da comunidade huma-
    na e se estendem aos fatos da natureza e do
    mundo.

    Assim se forma um conjunto de repre-
    sentações, nascidas da necessidade de tornar
    suportavel o desamparo humano e construi-
    das do material de reminiscencias do desam-
    paro da infancia individual e da infancia da
    especie. E' facil de reconhecer que essa pro-
    priedade protege o homem em dois sentidos:
    ante os perigos da natureza e do destino e
    ante os danos causados pela propria comu-
    nidade humana. Em conjunto, vale dizer:
    a vida neste mundo serve a uma finalidade-
    mais alta, que não é facil de decifrar, mas
    que de certo significa um aperfeiçoamento

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    do ser humano. E’ de crer que o objeto des-
    sa elevação e dessa exaltação seja a parte es-
    piritual do homem, a alma, que tão vagaro-
    samente e a custa de tantos esforços se tem
    separado do corpo. Tudo o que acontece
    por si só, neste mundo, é a execução dos
    desígnios de uma inteligência que se nos so-
    brepõe e que, embora por meios e modos
    difíceis de acompanhar, tudo dirige, afinal
    para o bem, isto é, para o nosso gozo. Sobre
    cada um de nós vela uma providencia, só
    em aparencia severa e que não permite que
    sejamos joguetes das forças naturais super-
    potentes e implacaveis; a propria morte não
    é, absolutamente, um aniquilamento, uma
    volta ao estado anorganico sem vida, mas
    sim o começo de uma nova especie de exis-
    tencia, que nos leva ao caminho de uma evo-
    lução mais alta. Por outro lado, as proprias
    leis morais que a nossa civilização instituiu
    dominam tambem todos os fenómenos do
    mundo; apenas, são elas protegidas por uma

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    instancia judicial mais alta, com poder e
    consequencias incomparavelmente maiores.
    Todo bem encontra afinal a sua recompen-
    sa, como todo mal o seu castigo; e ainda
    quando não nesta forma da vida, pelo
    menos nas existencias ulteriores, que come-
    çam após a morte. Dessa maneira, todos os
    pavores, penas e durezas da vida estão des-
    tinados a uma compensação; a vida poste-
    rior á morte, que prolonga a nossa vida ter-
    real, tal como a parte invisível do espetro
    se acrescenta á visível, traz-nos toda a con-
    clusão que talvez aqui nos tenha faltado. E
    a sabedoria superior que dirige essa sequen-
    cia, a suprema bondade que daí deriva, a
    justiça que lhe é inerente – são proprieda-
    des dos seres divinos que nos criaram a nós
    e ao mundo em geral; ou melhor, do ser
    divino unico em que se condensaram, para
    a nossa civilização, todos os deuses dos tem-
    pos antigos. O povo a quem primeiro foi
    dado fazer essa concentração das proprieda-

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    des divinas tinha não pequeno orgulho desse
    progresso; libertara o núcleo paterno que
    anteriormente se ocultava por trás de cada
    imagem divina; no fundo, era isso uma re-
    gressão aos começos historicos da idéia de
    deus. Agora, que o deus era único, podiam
    as relações com ele ganhar de novo a intimi-
    dade e a intensidade das relações para com o
    pai. Quem tanto fez pelo pai quizera,
    porem, ser tambem recompensado, pelo me-
    nos ser-lhe o unico filho amado, o povo
    escolhido. Muito tempo depois, a piedosa
    America exalta-se na pretenção de ser
    “God’s own country”, o que condiz com
    uma das formas pelas quais o homem vene-
    ra a divindade.

    As representações religiosas, aqui ex-
    postas em conjunto, sofreram, naturalmente,
    uma longa evolução e se ligaram a fases
    diversas das diversas civilizações. Escolhi
    uma fase unica desse desenvolvimento, que
    corresponde talvez á forma final da nossa

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    civilização branca e cristã. E' facil notar que
    nem todas as partes desse todo se correspon-
    dem igualmente; que nem todas as questões
    urgentes podem ser respondidas; que a con-
    tradi-ta da experiencia actual só dificilmente
    pode ser posta de parte. Mas, tais como são
    elas, essas representações – religiosas, no
    sentido mais lato – são consideradas como
    o mais precioso bem da civilização, o mais
    valioso que ela pode oferecer aos seus partí-
    cipes; e são tidas em mais alta conta do que
    todas as artes de arrancar á terra os seus te-
    souros, de prover a humanidade com a sub-
    sistencia ou de dominar as doenças, etc. Os
    homens dizem não poder suportar a vida,
    si não ligarem a essas representações o valor
    que elas exigem. E agora é o momento de
    perguntar que são essas representações, á luz
    da psicologia, de onde retiram elas essa alta
    consideração e, para prosseguir timidamente:
    qual o seu verdadeiro valor?

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