O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    Retomando o fio das nossas pesquisas,
    perguntamos: qual é, pois, a significação
    psicológica das representações religiosas e
    como poderemos classificá-las? Logo se vê
    que a pergunta não é de fácil resposta. Re-
    jeitando várias outras formulas, podemos
    deter-nos em uma delas: são teses ou afir-
    mações sobre fatos e relações da realidade
    externa (ou interna), que exprimem algo
    que o homem não encontrou por si mesmo
    e que aspiram a merecer fé. Como informem
    elas sobre questões muito poderosas e inte-
    ressantes, da vida, são tidas especialmente

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    em alta conta. Quem delas nada sabe é mui-
    to ignorante; quem as recebeu no seu conhe-
    cimento deve considerar-se com isso muito
    enriquecido.

    Ha naturalmente várias dessas teses.
    sobre as cousas mais diversas do mundo.
    Cada hora de aula está cheia delas. Escolha-
    mos a geografia. Ali ouvimos: A cidade de
    Constança fica á margem do lago desse
    nome. Uma canção estudantina acrecenta:
    Quem nisto não crer é lá ir e ver (1). Eu,
    por acaso, lá estive e posso declarar que a
    bela cidade fica á margem de uma larga mas-
    sa de agua a que todos os habitantes vizi-
    nhos chamam Lago de Constança. Estou
    assim inteiramente convencido da justeza
    dessa asserção geográfica. Lembro-me, po-
    rém, de outro fato digno de nota. Era eu


    (1)Konstanz liegt am Bodensee.
    Wer’s nicht glaubt, geh hin und seh'.

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    já homem feito, quando estive pela primeira
    vez no alto da colina da Acrópole ateniense,
    entre as ruinas do Templo, a olhar o azul
    do mar. Ao meu sentimento de satisfação
    misturava-
    se o de espanto, que teve para
    mim esta significação: Então, era verdade
    o que me ensinaram na escola! Quão frouxa
    e debil fôra a fé que me merecera a verdade
    ensinada, se deu logar ao espanto que ora
    sinto! Mas não vale a pena acentuar a signi-
    ficação desse fato; ha ainda outra explica-
    ção possivel para o meu espanto, explicação
    que não me ocorrera então, que é de natu-
    reza subjetiva e se prende a particularidades
    do local.

    Assim, essas teses exigem tambem a fé
    no seu conteúdo, mas não sem fundamentar
    o motivo dessa exigencia. Apresentam-
    se como o resultado resumido de um processo
    ideativo longo, baseado em observações e de-
    certo tambem em conclusões decorrentes; a
    quem queira realizar por si esse processo, em

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    vez de acceitar o seu resultado, está indicado
    o caminho para fazê-lo.

    Isso será sempre accrescentado, para to-
    das as asserções sobre aquillo de que temos
    conhecimento; e se o não temos, o fato afir-
    mado deve ser tido por óbvio, tal como
    succede com as asserções geográficas. Assim,
    por exemplo, a terra tem a forma de uma
    esfera; como prova disso, podem ser aduzi-
    das as experiencias do pêndulo de Foucault,
    a mudança do horizonte, a possibilidade de
    circunnavegar o globo. Mas como todos os
    interessados compreendem que é impossivel
    mandar viajar em volta do mundo todos os
    alunos das escolas, decidimo-nos a deixar
    que accitem os ensinamentos escolares com
    fundamento na “fé e lealdade”; mas sabem
    todos que fica aberto o caminho ás verifica-
    ções pessoaes.

    Busquemos submeter á mesma medida
    as teses religiosas. Se perguntarmos em que
    se baseia a sua aspiração a merecer fé, rece-

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    beremos tres respostas que se ajustam sin-
    gularmente mal. Primeiro: merecem fé por-
    que já os nossos avoengos lhe davam tal fé;
    em segundo lugar, temos provas que já nos
    foram dadas desde aqueles tempos primiti-
    vos; em terceiro lugar, é absolutamente proi-
    bido fazer indagações sobre matéria de fé.
    Essa ousadia era antigamente motivo para
    os mais severos castigos e ainda hoje a socie-
    dade vê com maus olhos que alguem a re-
    produza.

    Esse terceiro ponto deve despertar as
    nossas mais graves reflexões. Tal proibição
    só pode ter tido um motivo e é que a socie-
    dade reconhece muito bem a insegurança
    desse seu anseio pelo inabalável da fé. Se
    fôsse de outro modo, seria francamente pos-
    to á disposição de qualquer o material para
    a comprovação. Quanto ás outras duas bases
    aventadas para prova, despertam-nos uma
    desconfiança facil de de monstrar. Devemos
    crer, porque os nossos avoengos creram.

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    Mas aqueles nossos antepassados eram mui-
    to mais ignorantes do que nós; eles creram
    em cousas que nos seria impossível aceitar
    hoje. E’ bem possível que as teses religiosas
    fossem tambem dessa especie. As provas que
    eles nos legaram estão expressas em escritos
    que trazem em si todos os caracteres das cou-
    sas que não merecem confiança. São contra-
    ditorios, emendados, falsificados; quando se
    referem a testemunhos reais, são incriveis.
    Não adianta muito apelar para a revelação
    divina, para explicar-lhes o sentido das pa-
    lavras ou siquer o conteúdo destas; pois que
    essa afirmação já é, por si mesma, uma parte
    daquela tese cuja credibilidade deve ser per-
    quirida; e não ha texto que prove a si
    proprio.

    Chegamos assim á conclusão singular
    de que exatamente as noções do nosso acervo
    cultural que poderiam ter a maior significa-
    ção para nós, isto é, exatamente aquelas a
    que cabe decifrar-nos o enigma do mundo

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    e conciliar-
    nos com as penas da vida – se
    jam exatamente essas as que nos merecem a
    menor confiança. Não nos poderíamos deci-
    dir a crer dessa maneira em outro qualquer
    fato, ademais indiferente para nós, tal como
    que a baleia pare os filhos, em vez de pôr
    ovos, se não nos fôsse dada a possibilidade
    de comprová-lo.

    Esse estado de cousas é em si mesmo
    um problema digno de nota. Ademais nin-
    guem pudera julgar que as considerações
    acima, sobre a impossibilidade de prova em
    materia religiosa seja algo de novo. Essa im-
    possibilidade foi percebida em todos os tem-
    pos, decerto até mesmo entre os nossos ante-
    passados primitivos, que nos deixaram esse
    legado. E’ verossímil que a varios deles os
    tenha ocupado a mesma dúvida que a nós
    outros; mas essa duvida lhes deve ter cau-
    sado uma impressão demasiado forte para
    que eles ousassem revelá-la. E desde então,
    inúmeros individuos têm sido atormentados

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    pela mesma dúvida que quizeram reprimir,
    quando se julgaram obrigados a crer; e des-
    de então, muitos intelectos brilhantes nau-
    fragaram nesse conflito e muitos caracteres
    padeceram da chaga dos acordos em que
    buscaram saída.

    Se todas as provas que se podem adu-
    zir para a credibilidade dos dogmas religio-
    sos derivam do passado, ocorre verificar se
    se o presente, sobre o qual melhor podemos
    julgar, poderá tambem fornecer-nos essas
    provas. Se nos fôsse dado, por esse meio,
    eliminar a dúvida sobre uma parte, apenas,
    do sistema religioso, então houvera ganho
    extraordinariamente o todo, quanto á sua
    credibilidade. Aqui entra a actividade dos
    espiritistas, convencidos da persistencia da
    alma individual e a querer demonstrar indu-
    bitavelmente uma asserção dos ensinamentos
    religiosos. Não conseguem eles, porém, con-
    testar que os fenómenos e manifestações dos
    seus “espíritos” são apenas produtos da sua

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    própria atividade psíquica. Têm citado os
    espíritos dos maiores homens, dos mais emi-
    nentes pensadores; mas todas as manifesta-
    ções e informações que deles foram colhidas
    são tão ingénuas, tão desesperadamente va-
    zias que apenas se pode julgar admissível a
    capacidade desses espíritos, de adaptar-se ao
    círculo de indivíduos que os invocam.
    Podemos refletir agora sobre duas ten-
    tativas que nos dão a impressão de um es-
    forço espasmódico para fugir ao problema:
    a primeira, de natureza muito violenta; a
    outra, sutil e moderna. A primeira é o Credo
    quia absurdum, do doutor da Igreja. Isso
    quer significar que os ensinamentos religio-
    sos são conceitos que escapam á razão, que
    estão acima da razão. Pode-se intimamente
    pressentir-lhes a verdade; não é preciso com-
    preende-la. Apenas, esse Credo, como con-
    fissão de si mesmo, é interessante; como ato
    de autoridade, não envolve obrigação. Es-
    tarei eu obrigado a crer em todos os absur-

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    dos? Se não, porque o estarei exatamente a
    respeito desse? Não ha instancia alguma
    acima da razão. Se a doutrina religiosa está
    na dependencia de um fato íntimo que teste-
    munha essa verdade, que fazer dos muitos
    indivíduos em quem não existe esse fato
    íntimo? Pode-se exigir de todos que apli-
    quem os dados da razão, tais como os pos-
    suem; mas não se pode generalizar a todos
    um dever baseado sobre um motivo que só
    existe para poucos. Se alguem, num estado
    profundo de êxtase, adquiriu a convicção
    inabalável sobre a verdade real do dogma
    religioso, que significação pode isso ter para
    os demais indivíduos?

    A segunda tentativa é o da filosofia
    do “como si” (als ob). Ela sustenta que,
    em nossa atividade ideativa, existem varias
    suposições cuja fundamentação e cujo ab-
    surdo, igualmente, plenamente reconhece-
    mos. São tidas como ficções; mas, por mul-
    tiplos motivos práticos, nós nos comporta-
     

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    mos “como si” crêssemos nessas ficções. Isso
    se aplica ao dogma religioso, por causa do
    seu incomparável valor para a manutenção
    da sociedade humana 1). Essa argumenta-
    ção não está muito longe do Credo quia
    absurdum. Mas penso que a asserção do
    “como si” é dessas que só um filósofo pode
    sustentar. O indivíduo que não tenha o pen-
    samento influenciado pela arte da fisolofia
    não poderá aceitar esses argumentos; para
    ele, tudo isso se reduz á concessão do absur-
    do e do irracional. Ele não pode conformar-
    se com renunciar, justamente na gestão dos
    seus interesses mais serios, a aquelas certezas
    que exige para todas as atividades habituais.


    1)Espero não cometer erro, apresentando aos
    filósofos do “Als ob” uma opinião que não é estranha
    a outros pensadores (Cf. H. VAIHINGER – Die Philoso-
    phie des Als ob – 7.ª e 8.ª edições, 1922, pag. 68): “Do
    terreno da ficção derivamos, não só operações indife-
    rentes, teóricas, mas ainda figuras de conceito imagi-
    nadas pelos homens mais nobres e das quais depende
    a parte nobre da humanidade, que não se furta a tais
    conceitos. Não queremos fazer o mesmo: como ficção
    prática, deixemos ficar tudo isso; como verdade teórica,
    porém, tudo isso se desfaz”.

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    Lembro-me agora de um dos meus filhos
    que se revelou precocemente por um acento
    especial de positividade. Como contassem às
    crianças uma historia de fadas, que elas es-
    cutavam pensativas, interrompeu ele a na-
    ração, perguntando: “Essa historia é ver-
    dadeira?” Como lhe respondessem pela ne-
    gativa, a criança retirou-se, com uma fisio-
    nomia de pouco caso. E’ de esperar que um
    dia os homens procedam de maneira seme-
    lhante para com os contos religiosos, apesar
    da intercessão do Als ob.

    Mas, atualmente, ainda procedem de
    maneira bem diversa e nos tempos passados,
    as representações religiosas, apesar da sua in-
    discutível carencia de credibilidade, exerce-
    ram sobre a humanidade a mais forte in-
    fluencia. Nisto está um novo problema
    psicológico. Pode-se perguntar em que con-
    siste a força intima dessas crenças e a que
    circunstancias devem elas a sua eficiencia, in-
    dependente do reconhecimento pela razão.