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Retomando o fio das nossas pesquisas,
perguntamos: qual é, pois, a significação
psicológica das representações religiosas e
como poderemos classificá-las? Logo se vê
que a pergunta não é de fácil resposta. Re-
jeitando várias outras formulas, podemos
deter-nos em uma delas: são teses ou afir-
mações sobre fatos e relações da realidade
externa (ou interna), que exprimem algo
que o homem não encontrou por si mesmo
e que aspiram a merecer fé. Como informem
elas sobre questões muito poderosas e inte-
ressantes, da vida, são tidas especialmenteS.
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em alta conta. Quem delas nada sabe é mui-
to ignorante; quem as recebeu no seu conhe-
cimento deve considerar-se com isso muito
enriquecido.Ha naturalmente várias dessas teses.
sobre as cousas mais diversas do mundo.
Cada hora de aula está cheia delas. Escolha-
mos a geografia. Ali ouvimos: A cidade de
Constança fica á margem do lago desse
nome. Uma canção estudantina acrecenta:
Quem nisto não crer é lá ir e ver (1). Eu,
por acaso, lá estive e posso declarar que a
bela cidade fica á margem de uma larga mas-
sa de agua a que todos os habitantes vizi-
nhos chamam Lago de Constança. Estou
assim inteiramente convencido da justeza
dessa asserção geográfica. Lembro-me, po-
rém, de outro fato digno de nota. Era eu
(1)Konstanz liegt am Bodensee.
Wer’s nicht glaubt, geh hin und seh'.S.
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já homem feito, quando estive pela primeira
vez no alto da colina da Acrópole ateniense,
entre as ruinas do Templo, a olhar o azul
do mar. Ao meu sentimento de satisfação
misturava-
se o de espanto, que teve para
mim esta significação: Então, era verdade
o que me ensinaram na escola! Quão frouxa
e debil fôra a fé que me merecera a verdade
ensinada, se deu logar ao espanto que ora
sinto! Mas não vale a pena acentuar a signi-
ficação desse fato; ha ainda outra explica-
ção possivel para o meu espanto, explicação
que não me ocorrera então, que é de natu-
reza subjetiva e se prende a particularidades
do local.Assim, essas teses exigem tambem a fé
no seu conteúdo, mas não sem fundamentar
o motivo dessa exigencia. Apresentam-
se como o resultado resumido de um processo
ideativo longo, baseado em observações e de-
certo tambem em conclusões decorrentes; a
quem queira realizar por si esse processo, emS.
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vez de acceitar o seu resultado, está indicado
o caminho para fazê-lo.Isso será sempre accrescentado, para to-
das as asserções sobre aquillo de que temos
conhecimento; e se o não temos, o fato afir-
mado deve ser tido por óbvio, tal como
succede com as asserções geográficas. Assim,
por exemplo, a terra tem a forma de uma
esfera; como prova disso, podem ser aduzi-
das as experiencias do pêndulo de Foucault,
a mudança do horizonte, a possibilidade de
circunnavegar o globo. Mas como todos os
interessados compreendem que é impossivel
mandar viajar em volta do mundo todos os
alunos das escolas, decidimo-nos a deixar
que accitem os ensinamentos escolares com
fundamento na “fé e lealdade”; mas sabem
todos que fica aberto o caminho ás verifica-
ções pessoaes.Busquemos submeter á mesma medida
as teses religiosas. Se perguntarmos em que
se baseia a sua aspiração a merecer fé, rece-S.
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beremos tres respostas que se ajustam sin-
gularmente mal. Primeiro: merecem fé por-
que já os nossos avoengos lhe davam tal fé;
em segundo lugar, temos provas que já nos
foram dadas desde aqueles tempos primiti-
vos; em terceiro lugar, é absolutamente proi-
bido fazer indagações sobre matéria de fé.
Essa ousadia era antigamente motivo para
os mais severos castigos e ainda hoje a socie-
dade vê com maus olhos que alguem a re-
produza.Esse terceiro ponto deve despertar as
nossas mais graves reflexões. Tal proibição
só pode ter tido um motivo e é que a socie-
dade reconhece muito bem a insegurança
desse seu anseio pelo inabalável da fé. Se
fôsse de outro modo, seria francamente pos-
to á disposição de qualquer o material para
a comprovação. Quanto ás outras duas bases
aventadas para prova, despertam-nos uma
desconfiança facil de de monstrar. Devemos
crer, porque os nossos avoengos creram.S.
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Mas aqueles nossos antepassados eram mui-
to mais ignorantes do que nós; eles creram
em cousas que nos seria impossível aceitar
hoje. E’ bem possível que as teses religiosas
fossem tambem dessa especie. As provas que
eles nos legaram estão expressas em escritos
que trazem em si todos os caracteres das cou-
sas que não merecem confiança. São contra-
ditorios, emendados, falsificados; quando se
referem a testemunhos reais, são incriveis.
Não adianta muito apelar para a revelação
divina, para explicar-lhes o sentido das pa-
lavras ou siquer o conteúdo destas; pois que
essa afirmação já é, por si mesma, uma parte
daquela tese cuja credibilidade deve ser per-
quirida; e não ha texto que prove a si
proprio.Chegamos assim á conclusão singular
de que exatamente as noções do nosso acervo
cultural que poderiam ter a maior significa-
ção para nós, isto é, exatamente aquelas a
que cabe decifrar-nos o enigma do mundoS.
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e conciliar-
nos com as penas da vida – se
jam exatamente essas as que nos merecem a
menor confiança. Não nos poderíamos deci-
dir a crer dessa maneira em outro qualquer
fato, ademais indiferente para nós, tal como
que a baleia pare os filhos, em vez de pôr
ovos, se não nos fôsse dada a possibilidade
de comprová-lo.Esse estado de cousas é em si mesmo
um problema digno de nota. Ademais nin-
guem pudera julgar que as considerações
acima, sobre a impossibilidade de prova em
materia religiosa seja algo de novo. Essa im-
possibilidade foi percebida em todos os tem-
pos, decerto até mesmo entre os nossos ante-
passados primitivos, que nos deixaram esse
legado. E’ verossímil que a varios deles os
tenha ocupado a mesma dúvida que a nós
outros; mas essa duvida lhes deve ter cau-
sado uma impressão demasiado forte para
que eles ousassem revelá-la. E desde então,
inúmeros individuos têm sido atormentadosS.
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pela mesma dúvida que quizeram reprimir,
quando se julgaram obrigados a crer; e des-
de então, muitos intelectos brilhantes nau-
fragaram nesse conflito e muitos caracteres
padeceram da chaga dos acordos em que
buscaram saída.Se todas as provas que se podem adu-
zir para a credibilidade dos dogmas religio-
sos derivam do passado, ocorre verificar se
se o presente, sobre o qual melhor podemos
julgar, poderá tambem fornecer-nos essas
provas. Se nos fôsse dado, por esse meio,
eliminar a dúvida sobre uma parte, apenas,
do sistema religioso, então houvera ganho
extraordinariamente o todo, quanto á sua
credibilidade. Aqui entra a actividade dos
espiritistas, convencidos da persistencia da
alma individual e a querer demonstrar indu-
bitavelmente uma asserção dos ensinamentos
religiosos. Não conseguem eles, porém, con-
testar que os fenómenos e manifestações dos
seus “espíritos” são apenas produtos da suaS.
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própria atividade psíquica. Têm citado os
espíritos dos maiores homens, dos mais emi-
nentes pensadores; mas todas as manifesta-
ções e informações que deles foram colhidas
são tão ingénuas, tão desesperadamente va-
zias que apenas se pode julgar admissível a
capacidade desses espíritos, de adaptar-se ao
círculo de indivíduos que os invocam.
Podemos refletir agora sobre duas ten-
tativas que nos dão a impressão de um es-
forço espasmódico para fugir ao problema:
a primeira, de natureza muito violenta; a
outra, sutil e moderna. A primeira é o Credo
quia absurdum, do doutor da Igreja. Isso
quer significar que os ensinamentos religio-
sos são conceitos que escapam á razão, que
estão acima da razão. Pode-se intimamente
pressentir-lhes a verdade; não é preciso com-
preende-la. Apenas, esse Credo, como con-
fissão de si mesmo, é interessante; como ato
de autoridade, não envolve obrigação. Es-
tarei eu obrigado a crer em todos os absur-S.
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dos? Se não, porque o estarei exatamente a
respeito desse? Não ha instancia alguma
acima da razão. Se a doutrina religiosa está
na dependencia de um fato íntimo que teste-
munha essa verdade, que fazer dos muitos
indivíduos em quem não existe esse fato
íntimo? Pode-se exigir de todos que apli-
quem os dados da razão, tais como os pos-
suem; mas não se pode generalizar a todos
um dever baseado sobre um motivo que só
existe para poucos. Se alguem, num estado
profundo de êxtase, adquiriu a convicção
inabalável sobre a verdade real do dogma
religioso, que significação pode isso ter para
os demais indivíduos?A segunda tentativa é o da filosofia
do “como si” (als ob). Ela sustenta que,
em nossa atividade ideativa, existem varias
suposições cuja fundamentação e cujo ab-
surdo, igualmente, plenamente reconhece-
mos. São tidas como ficções; mas, por mul-
tiplos motivos práticos, nós nos comporta-
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mos “como si” crêssemos nessas ficções. Isso
se aplica ao dogma religioso, por causa do
seu incomparável valor para a manutenção
da sociedade humana 1). Essa argumenta-
ção não está muito longe do Credo quia
absurdum. Mas penso que a asserção do
“como si” é dessas que só um filósofo pode
sustentar. O indivíduo que não tenha o pen-
samento influenciado pela arte da fisolofia
não poderá aceitar esses argumentos; para
ele, tudo isso se reduz á concessão do absur-
do e do irracional. Ele não pode conformar-
se com renunciar, justamente na gestão dos
seus interesses mais serios, a aquelas certezas
que exige para todas as atividades habituais.
1)Espero não cometer erro, apresentando aos
filósofos do “Als ob” uma opinião que não é estranha
a outros pensadores (Cf. H. VAIHINGER – Die Philoso-
phie des Als ob – 7.ª e 8.ª edições, 1922, pag. 68): “Do
terreno da ficção derivamos, não só operações indife-
rentes, teóricas, mas ainda figuras de conceito imagi-
nadas pelos homens mais nobres e das quais depende
a parte nobre da humanidade, que não se furta a tais
conceitos. Não queremos fazer o mesmo: como ficção
prática, deixemos ficar tudo isso; como verdade teórica,
porém, tudo isso se desfaz”.S.
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Lembro-me agora de um dos meus filhos
que se revelou precocemente por um acento
especial de positividade. Como contassem às
crianças uma historia de fadas, que elas es-
cutavam pensativas, interrompeu ele a na-
ração, perguntando: “Essa historia é ver-
dadeira?” Como lhe respondessem pela ne-
gativa, a criança retirou-se, com uma fisio-
nomia de pouco caso. E’ de esperar que um
dia os homens procedam de maneira seme-
lhante para com os contos religiosos, apesar
da intercessão do Als ob.Mas, atualmente, ainda procedem de
maneira bem diversa e nos tempos passados,
as representações religiosas, apesar da sua in-
discutível carencia de credibilidade, exerce-
ram sobre a humanidade a mais forte in-
fluencia. Nisto está um novo problema
psicológico. Pode-se perguntar em que con-
siste a força intima dessas crenças e a que
circunstancias devem elas a sua eficiencia, in-
dependente do reconhecimento pela razão.
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O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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