O Futuro de uma Ilusão1927-001/1934.pt
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    Deslisámos, inopinadamente, do eco
    nómico para o psicológico. A princípio,
    fomos tentado a buscar o acervo da civili
    ção nos dons accessíveis e nas instituições para
    a sua partilha. Partindo do conhecimento de
    que toda civilização repousa sobre a coação
    ao trabalho e sobre a renuncia aos impulsos,
    e de que, daí surge uma inevitavel oposi
    ção entre os atingidos por essas contingen
    cias, tornar-se-ia claro que os dons mesmos,
    assim como os meios para a sua aquisição
    e disposição para a sua partilha não podiam
    ser o essencial nem o unico, na civilização.

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    E' que eles estão sob a ameaça do levante
    e do impeto de destruição dos partícipes da
    civilização. Junto aos dons vêm os meios,
    que podem servir para a defesa da civiliza-
    ção – os meios de coação e outros que
    podem reconciliar os homens com ela e com
    pensar-lhes os sacrifícios. Por fim, pode
    ainda ser descrito o acervo psíquico da civi-
    lização.

    Para conformidade de expressão, cha-
    maremos renuncia ao fato de não poder ser
    libertado um impulso; proibição, á insti-
    tuição que firma essa renuncia; e privação,
    á condição derivada dessa proibição. A
    questão a seguir é a diferença entre as pri-
    vações que atingem a todos e as que nem a
    todos atingem, sejam a grupos, a classes ou
    mesmo a indivíduos. As primeiras são as
    mais antigas; com as proibições que as insti-
    tituem conseguiu a civilização libertar-se
    da primitiva condição animal, desde não se
    sabe quantos milhares de anos. Com espan-

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    to encontramo-
    las ainda e sempre em vigor,
    formando, ainda e sempre, o nucleo da hos-
    tilidade para com a civilização. Os desejos
    impulsivos, que elas refreiam, nascem nova-
    mente, com o nascer de cada criança; ha uma
    classe de individuos. os neuróticos, que
    reagem sempre com associalidade, a essas
    renuncias. Tais desejos impulsivos são os
    do incesto, do canibalismo e do prazer de
    matar. Parece singular que tais desejos, so-
    bre cuja destruição toda a gente está de
    acordo, sejam citados ao lado daqueles
    outros para cujo consentimento ou renuncia
    tão vivamente se tem lutado em a nossa ci-
    vilização; mas, psicológicamente, estamos
    autorizado a faze-lo. No entanto, a atitude
    civilizada contra esses velhos desejos impul-
    sivos não é absolutamente, a mesma, para
    todos eles; só o canibalismo se demonstra
    proibido a todos e, para a observação não
    não analítica, inteiramente vencido; a força
    do desejo de incesto pode ainda lobrigar-se

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    através da proibição que o fere; e o homi-
    cidio, em determinadas circunstancias, ainda
    é usado, até mesmo ordenado, em a nossa
    civilização. É' possível que se nos deparem
    estados evolutivos da civilização, em que
    outras satisfações de desejos, ainda hoje per-
    mitidas, venham a parecer tão inaceitaveis
    quanto nos é atualmente o canibalismo.

    Já a respeito dessas antiquíssimas re-
    nuncias a impulsos ha a considerar um
    fator psicologico que conserva a sua signi-
    ficação para todas as demais renuncias. Não
    é certo que, a alma humana, desde os tem-
    pos mais remotos não tenha sofrido qual-
    quer evolução e que, ao contrario dos pro-
    gressos da ciencia e da técnica, seja ainda a
    nossa alma a mesma que nos primordios da
    historia. Podemos aqui verificar um desses
    progressos psíquicos. Na marcha da nossa
    evolução, dá-se que as coações externas são
    pouco a pouco interiorizadas, havendo uma
    instancia psíquica especial, o Super-Ego hu-
     

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    mano, que as incorpora entre os seus man-
    damentos. Cada criança nos demonstra o
    processo de tais transformações, graças às
    quais se torna moral e social. Esse fortaleci-
    mento do Super-Ego é uma aquisição psi-
    cológica, altamente valiosa, da civilização.
    As pessoas nas quais esse fenómeno se con-
    cluiu tornam-se, de inimigos da civilização,
    em esteios dela. Quanto maior é o seu nú-
    mero num círculo cultural, tanto mais se-
    gura é essa civilização e tanto melhor escapa
    ela aos meios externos de coação. Apenas,
    a medida dessa interiorização é diversa para
    cada uma das proibições que tocam os im-
    pulsos. Para aquelas arcaicas exigências da
    civilização, a que aludimos, já se tem con-
    seguido acentuada interiorização, se deixar-
    mos de lado as involuntárias excepções dos
    neuróticos. A relação é diversa, no que
    respeita a outras disposições impulsivas.
    Nota-se, então, com espanto e cuidado, que
    um número considerável de indivíduos só

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    obedecem a essas restrições culturais, sob a
    pressão da coação e isso mesmo apenas onde
    ela se pode tornar efetiva e enquanto é para
    temer. O mesmo se dá com as chamadas
    exigencias morais da civilização, determina-
    das igualmente para todos. Aqui se aplica
    a maior parte dos fatos que a experiencia
    nos demonstra; quanto á pouca confiança
    na moralidade dos individuos. Por fim.
    muitos homens civilizados, que recuariam
    de pavor ante o homicidio ou o incesto, não
    se furtam á exteriorização da cubiça, da
    agressividade, dos gozos sexuais e não des-
    denham lesar os outros pela mentira, pela
    fraude, pela calunia, quando podem passar
    impunes; e sempre assim foi desde muitas
    épocas de civilização.

    Quanto ás restrições que dizem respei-
    to apenas a determinadas classes sociais, de-
    param-se-nos relações grosseiras e nunca re-
    conhecidas. Não é surpresa que essas clas-
    ses desprezadas invejem aos preferidos os

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    seus privilégios e tudo façam para evitar a
    privação dos seus próprios bens. Quando
    não é isto possível, desenvolve-
    se certa soma
    duravel de insatisfação no meio civilizado e
    esta pode dar logar a perigosos levantes.
    Quando, porem, uma civilização admite que
    a satisfação de certo numero de individuos
    presupõe a opressão sobre outros, talvez a
    maioria – e esse é o caso geral da civiliza-
    ção atual – é compreensivel que os opri-
    midos desenvolvam contra a civilização
    uma hostilidade intensa, que lhes permita,
    pelo trabalho, adquirir uma pequena parte
    dos dons culturais. Assim, não é de esperar
    que os oprimidos interiorizem as proibições
    da civilização; antes não estão eles aptos a
    reconhecer tais proibições e se esforçam por
    destruir a propria civilização, suprimindo-
    lhe até, eventualmente, os propósitos. A
    hostilidade á cultura é tão patente nessas
    classes, que tem feito ser desprezada a antiga
    hostilidade latente das classes sociais melhor

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    aquinhoadas. Não é preciso dizer que uma
    civilização que deixa insatisfeito tão grande
    número dos seus participantes e os arrasta á
    revolta, nem é de esperar que possa ser du-
    avel, nem o merece.

    A soma de interiorização das normas
    culturais – ou, em linguagem vulgar, não
    psicologica: o nível moral dos indivíduos
    – não é o unico bem psíquico que merece
    considerado para a dignidade de uma civi-
    lização. Ao lado delas há o que esta possua
    de ideiais e de criações artísticas, isto é, a sa-
    tisfação que de uns e outras pode ser tirada.

    Podemo-nos sentir levemente inclina-
    dos a atribuir ao acervo psíquico de uma
    civilização os seus ideais, isto é, os valores
    que representem as suas atividades mais ele-
    vadas e representativas de maior esforço.
    Parece-nos ainda que esses ideais houvessem
    de determinar as atividades de um ciclo
    cultural; o fato real deve ser, porem, que os
    ideais se formam segundo as primeiras ati--

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    vidades que se tornaram possíveis pelo efeito
    combinado dos dotes internos e das relações
    externas de uma civilização e que essas
    primeiras atividades só podem ser firma-
    das pelo ideal e pela continuação da ação.
    A satisfação permitida pelo ideal aos
    partícipes de uma civilização é assim de
    natureza narcísica; repousa sobre o orgulho
    pela atividade já bem sucedida. Para ser
    completa, precisa da comparação com ou-
    tras civilizações que se hajam lançado em
    atividades outras e hajam desenvolvido ou-
    tros ideais. Graças a essas diferenças irrogou-
    se cada civilização o direito de menosprezar
    as demais. Dessa maneira, os ideais cultu-
    rais se transformam em motivos para dis-
    senção e hostilidade entre vários círculos de
    cultura, tal como se vê muito claramente,
    entre nações.

    A satisfação narcísica baseada no ideal
    cultural pertence também a aquelas forças

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    que se antepõem eficientemente á hostilida-
    de contra a civilização, dentro dos círculos
    culturais. Não sómente as classes preferidas,
    que gozam dos benefícios dessa civilização,
    mas tambem os oprimidos podem tomar
    parte nessa satisfação, por isso que o direito
    de desprezar os estranhos ao meio cultural
    lhes compensa o dano sofrido dentro do
    proprio meio. O individuo é, em verdade,
    um plebeu miseravel, atormentado de im-
    postos e serviços de guerra; mas no entanto
    é cidadão romano e tem a sua parte no exer-
    cicio de dominar outras nações e ditar-lhe
    leis. Essa identificação dos oprimidos com as
    classes que os dominam e exploram é, po-
    rém, apenas uma parte de um conjunto
    maior. Por outro lado, aqueles podem estar
    ligados afetivamente a estas e, embora a hos-
    tilidade, poderão enxergar no seu senhor o
    seu ideal. Se isso não reconhece por base
    relações de satisfação de impulsos, não po-
    deremos compreender como tantas civiliza-
     

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    ções puderam subsistir, a despeito da hos
    tilidade de tão grandes massas humanas.

    De outra especie é a satisfação garan
    tida pela arte aos partícipes de um círculo
    cultural, se bem que, em regra, fique ela
    inacessível ás massas de quem se exige um
    trabalho estafante e que não gozaram de
    qualquer educação pessoal. Conforme desde
    muito já temos compreendido, oferece a
    arte satisfações substitutivas para as re
    nuncias culturais mais antigas e sempre mais
    profundamente sentidas e dessa maneira serve
    mais do que outro qualquer meio, para a
    compensação dos sacrifícios correspondentes
    a tais renuncias. Por outro lado, as suas
    criações exaltam os sentimentos de identifi
    cação de que tanto precisa qualquer círculo
    cultural; e o fazem dando oportunidade a
    sensações experimentadas em comum e alta
    mente encarecidas; mas tambem servem elas
    como satisfação narcísica, por isso que re
    presentam as atividades de determinada ci-
     

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    vilização e indicam de maneira grandemente
    expressiva os ideais da respectiva cultura.

    A parte talvez mais significativa do
    inventario psíquico de uma civilização ainda
    não mereceu aqui qualquer menção. São as
    suas representações religiosas, no sentido
    mais lato, ou, por outras palavras que adian-
    te justificaremos, as suas ilusões.